Histórias do Internacional
O Amor do seu Aldo Cabeleira!
Meu Sangue é Vermelho. Meu Coração é Colorado!
Por Tainha Jordans (Pseudônimo)
Acredito que em 1917, ano em que nasceu seu Aldo Cabeleira, o Colorado era ainda um garoto de futuro incerto que aos oito anos de idade lutava pela sua sobrevivência embalado pelo amor de seus fundadores e acalentado pelos torcedores do Povo que fluíam a sua volta. Foi no fundão da denominada Estância Grande, na zona rural de Viamão, penúltimo filho da dona Celina e do seu Olympio Carneiro, apelido que quase virou sobrenome, numa família em que mais de uma dezena de irmãos “nenhum degenerou, são todos Colorados”. Eu nasci no ano de 1951, também em Viamão, e assim começamos uma cavalgada de lutas e de inúmeras emoções, eu sempre na sua garupa nos campos em que o Colorado peleava.
Estou numa fotografia no colo de atletas com o time do Internacional que visitavam Viamão, trazidos por ele, como fez em várias outras vezes. Eu tinha algo como dois a três anos de idade. O casamento do seu Aldo Cabeleira com o Internacional foi anterior ao casamento com minha mãe Dora, mas nenhum ciúme irritava seu coração pois ela também o acompanhava no mesmo e intenso sentimento. Seu Aldo recitava em verso e prosa escalações não somente do Rolo Compressor, mas outros grandes times daquele clube que albergava em seu coração todo um universo de pessoas de todos os credos, gente de toda cor, criaturas das mais humildes aos mais abastados. Ele se orgulhava profundamente de estar no Time do Povo do Rio Grande do Sul e ali estar em casa, numa casa que não distinguia e separava seus filhos.
Talvez em 1954 tenha-se sentido um pouco em paz para aquele outro Campeão do Estado gaúcho. O time do Renner sagrou-se Campeão e ele ganhava o sustento para si e sua família ali nas Indústrias Renner, onde trabalhou quase quarenta anos, somente parando a atividade quando a doença venceu o corpo do guerreiro. No entanto, jamais vencerá à alma que sempre foi e será nos campos de Luz celestiais uma Alma Colorada e lá estará com seus ídolos e amigos. Minha mãe Dora o acompanhava aos jogos até que numa noite de intenso calor o Inter jogava com o Botafogo do Rio de Janeiro (creio) no glorioso Estádio dos Eucaliptos. Estádio mais que lotado. Torcida em ebulição. Partida acirrada. Eis que a torcida explode com os gritos de que “a arquibancada estava desabando” e as pessoas se jogam para dentro do campo. Derrubam-se os alambrados de tela. A partida se interrompe com a massa humana em desespero. Pessoas sendo pisoteadas. Dezenas de feridos. Minha mãe amada sempre recordava que “quando tudo cessou, estava dentro do gramado, comigo entre as pernas, deitada” e muito machucada. Eu, criança pequena, sem nenhum arranhão. Seu Aldo também bastante machucado ajudou a nos proteger com seu corpo sólido. Fora um alarme falso de uma pilha enorme de engradados de bebidas que havia desabado sob a arquibancada e o eco, o estrondo motivou o berro inicial de desespero de algum torcedor. Dona Dora agradecia sempre as suas protetoras, Santa Terezinha e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Viamão. Durante sua curta vida não retornou mais aos campos de futebol, mas o rádio estava sempre ligado e girando o dial buscando os derradeiros comentários e informações do Colorado.
A característica do rádio ligado no Colorado foi e é de nosso sangue vermelho. Quando surgiram os primeiros rádios de pilha, meu pai me presenteou com um da marca Marvel que durante muito tempo gastou-se nas minhas orelhas. Lembro-me ainda um moleque estarmos na fila esperando o Estádio dos Eucaliptos abrir seu portão, rádio ao ouvido e deliciando-me com um pastel de balaio e um guaraná gelado e o seu Aldo apontando-me os dirigentes e antigos jogadores que ali circulavam.
O Internacional alçava novos e grandiosos voos. E um projeto “impossível” foi lançado – um novo estádio de futebol. Um gigantesco estádio de futebol. Muitos tripudiavam ser delírios do povo pobre e ainda mais num lugar que somente havia… água. “Um estádio de futebol dentro de um rio, do rio Guaíba”. Talvez esse povo sofrido tenha sonhado com algo como a terra prometida dos hebreus e um Moisés abrindo as águas para seu povo. Ninguém duvidaria da Bíblia, mas do sonho Colorado… E seu Aldo fez a sua parte, aquilo que lhe era possível dentro do necessário. Lembro de uma imagem que ele tinha em casa – “A bóia cativa”. E as dragas trabalharam e a terra em montes afastando as águas do rio. As campanhas se multiplicavam e quanto maior a dificuldade, mais a solidariedade aproximava, reunia e avolumavam-se as forças Coloradas. Assisti todos os jogos do amado Colorado durante os dois primeiros Robertões no estádio Olímpico, seguindo os caminhos que o seu Aldo me ensinara viajando nos ônibus de Viamão e nas longas caminhadas gastando o tênis.
Ele sempre foi Sócio e mostrava sua carteirinha com alegria, mas agora dera o maior salto – adquirira duas cadeiras perpétuas e remidas “dentro de um rio”. Logo o rio deu espaço ao concreto e o gigante crescia e jamais o por do sol mais belo seria o mesmo. Seria muito mais belo! E glorioso. Caminhávamos durante a construção entre colunas e ferros. Levou-me para ver os canos de drenagem que estavam sendo colocados onde logo seria o gramado, e “nenhuma enchente como a de 41 vai nos alagar”! E um dia subimos as rampas e sentamos para admirar e cair numa realidade plena de amor. E como sempre ele apontava e mostrava – “aquele é o doutor Tedesco”. Craques e ídolos cruzavam conosco e Larry (Pinto de Faria) era uma dessas pessoas de amor e carinho sem par, entre outras.
Jamais assisti ou soube do seu Aldo “tocar flauta” ou desmerecer de qualquer forma outro time de futebol. “Se não falo pro bem, nunca vou falar pro mal”! – dizia com a convicção dos justos. E lá estávamos nós na inauguração do Gigante da Beira Rio. Torcendo. Vibrando. Chorando e rindo. Agradecendo aos homens de brio que lideraram uma caminhada grandiosa que começara no distante ano de 1909 e aos que tornaram possível o “impossível”. A primeira vez que o Hino Nacional, o Hino Riograndense e o amado Hino Colorado ecoaram nas vozes e nos corações do povo dentro do Gigante! E certamente nos campos de Luz com anjos que aqui nos trouxeram. Gratidão! E lá nas Cadeiras Perpétuas ele me mostrava – “aquele é o doutor Ephraim (Pinheiro Cabral), aquele é o doutor Balvé (Arnaldo)” e assim puxava seus feitos, como dos nossos craques e deliciosas histórias ele recordava. Creio que se sentia mais que um privilegiado, um humilde trabalhador e eterno torcedor estar ali no local mais nobre, junto à Tribuna de Honra” do templo Colorado. Como um pescador no Olimpo? Dona Dora, com o seu rádio de plantão, vibrava e torcia e nos aguardava na outra casa depois de cada jogo no Gigante.
Quando a Cledi se tornou a primeira namorada oficial e titular, hoje esposa, o seu Aldo lutou e buscou uma cadeira locada para si e para que a Cledi me acompanhasse aos jogos. Juntos! Em algum recanto de seu espírito estaria plantando uma semente de que viesse um neto que continuasse a sua “senda de vitórias”. E o neto foi nosso primeiro filho, o Duda (Eduardo) que se tornou seu companheiro de todas as jornadas. Nessa época um deputado federal de origem indígena, o Juruna, era tema na mídia. O cabelo do neto Duda “parecia com o do Juruna” e lá ia o seu Aldo Cabeleira e o neto Duda Juruninha tomar o ônibus para os jogos do Inter. Inverno ou verão, noites ou dias, o neto ia “acampar com o avô” no Beira Rio. Sempre foi costume do seu Aldo levar “um fiambre” para comer enquanto os portões não abriam.
A roda da vida ou uma roda viva nos conduz por caminhos que somente o Criador conhece. O seu Aldo teve que se desfazer de suas cadeiras e outros bens por “algo maior” – pagar meus estudos, logo nos dois anos iniciais da década de 1970. Mesmo por pouco tempo, ajudou seu clube e deliciou-se com seus encantos. Jamais se afastou do nosso Colorado. Depois do falecimento da minha mãe Dora, constituiu outra família e outros filhos, mas sempre indo aos jogos, sempre ao nosso templo mais sagrado. E depois no Parque Gigante, outro sonho realizado no Inter. E ao final da década de 1980 a doença tornava sua batalha pela vida uma epopeia. Nos leitos de hospital, nas internações de UTI vertia uma lágrima silenciosa ao escutar as notícias das vitórias do amado Colorado. E quando alguma voz vertia de sua garganta, vinha “a saudade do guaraná com pastel” e o grito pelo Inter. As enfermidades podem vencer aos homens e obrigá-los a cruzar o portal da morte, jamais sepultam seus sonhos, seus amores e as sementes que plantaram.
Na minha infância, havia dois negros muito humildes em Viamão. Irmãos e engraxates – Biúda e Saravá. Pessoas de amor na dureza de sua existência e que também tinham o rádio de pilha como fiel parceiro. Minha mãe e hoje a esposa ainda usam a mesma expressão, as mesmas palavras, a mesma frase: – “Não desliga o rádio enquanto não ouve o comentário do Biúda”! Tropeamos as estações com a facilidade de captação do som, até o “Biúda ou o Saravá darem a última palavra”. Os mesmos caminhos da vida nos atrelaram ao rádio e à TV. Outro ano fomos assistir à Juventude e Inter e agora neste 2017 da Graça, assistimos Criciúma e Internacional, sempre na casa do co-irmão. Um projeto estava emergindo dentro de nós, não com a grandiosidade do Gigante que nasceu das águas, mas voltar ao Beira Rio nas cadeiras que o seu Aldo Cabeleira sonhou e realizou. Uma homenagem de quem foi e sempre será um gigante com sua mais fiel companheira em nossas vidas – retornar! E adquirimos duas cadeiras no mesmo espaço sagrado, as Perpétuas. E nosso amado filho Duda e nosso neto Lucas, bisneto, estarão torcendo, vibrando e amando numa saga de Luz e Amor ao Sangue Vermelho e Coração Colorado. Dona Dora e seu Aldo estão felizes que finalmente após um logo tempo estarão retornando e renovando votos de Amor ao Colorado.
Estarei exatamente com 66 anos de idade no dia 23 de junho de 2017 e eu como tantos Colorados temos histórias para contar. Lições de vida para outras vidas. E lembro que certa vez assisti a um filme sobre um homem da Nova Zelândia que sonhara escalar o Everest, a mais alta montanha do planeta. Diziam ser um sonho impossível, pois sua condição simples, até humilde, jamais permitiria ousar tal empreendimento. Ele perseverou, planejou, abdicou daquilo que é importante para tantos e vencendo cada passo das incontáveis dificuldades, ele atingiu ao topo do mundo. Jamais fez isso para seu engrandecimento ou por alguma glória almejada, mas fez pela sua alma imortal e pelo seu amor à vida. E novamente retornou à montanha. Em 2006 estávamos no Beira Rio, meu filho e eu e um casal de amigos próximos. E milhares de outros amigos próximos de nossos corações. E o Internacional retornou do Japão fazendo novamente o “impossível”.
Este é um ano de 2017 traz dor e sofrimento, desilusão e até revoltas, e principalmente devemos ter entendimento para aprender com as dificuldades, valorizar aquilo que conquistamos e temos e jamais desistir de nossos sonhos. E lutar para o retorno. Seu Aldo Cabeleira, pai-avô-bisavô, estará retornando às suas cadeiras no Beira Rio junto com cada um de nós que tanto lhe amamos e minha mãe estará ainda com o rádio sempre ligado no Colorado até o derradeiro comentário do saudoso Biúda. E ali o nosso sangue vermelho e o nosso coração colorado terão mais Luz!
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Observação: Recebi ontem dia 16 de Junho a mensagem de que o texto em homenagem ao meu pai Aldo Flores de Oliveira, o Cabeleira, tinha sido distinguido no Concurso. Curiosamente a cerimônia de premiação ocorrerá no dia do aniversário de minha mãe Dora (Dorilda Silva de Oliveira) e meu aniversário também. Nasci no aniversário da minha mãe. Eles estão mais felizes torcendo pelo nosso Inter e por nós nos Campos de Luz celestiais. Obrigado.