Lurdinha Boca de Ouro! – Uma crônica gaúcha cento por cento.
“Vida infernal”, balbuciava o albino. “Diabos carreguem e não tragam de volta essa mulher maldita. Maldita! Maaaldiiita!” Socava a velha mesa do ambiente enfumaçado. Uma calota de caminhão balançando pendurada por um arame de aço fazia um som de sino ao ser açoitado pela brisa morna contra uma placa de metal. Ali num fundo amarelo esmaecido e corroído pela ferrugem ainda se liam garranchos escritos por uma mão mal alfabetizada em letras negras – Boca de Ouro. Um lupanar. Como tantos outros que se escondem num capão de eucaliptos próximo à fronteira do Brasil-Uruguai.
“Leva uma Norteña pra esse polaco”! Gritou o xiru de bombachas para um guri magricelo e cabano. “E trata de largar esse guaipeca, babão abobado da bronha”! Completou sacudindo um pano puxado sobre o ombro.
O garoto que apesar do corpo quase esquálido, escondia a idade fazendo trabalho de garçom entre fregueses que ali estavam gastando o pouco ou o quase nada colhido na dura vida da campanha em troca de agrados, carinhos e alguns momentos de sexo espalhafatoso. Mesas de madeira falquejadas intercalavam-se com mesinhas de ferro e cadeiras com propaganda de cervejas brasileiras e uruguaias. Algumas dessas cadeiras estavam retorcidas por alguma peleia danada de feia onde estatelaram lombos e crânios humanos. Do palanque da porteira até o casebre um fio estendido agitava lâmpadas coloridas marcando uma linha como um brete iluminado conduzindo os touros sedentos de sexo. Um mulato rengo servia de leão de chácara no portal da perdição. Com uma adaga prateada adornando a guaiaca que entrevia um Smith-Wesson também prateado. Os olhos do mulato relampejavam na noite escura. Quando diminuía a brisa, ele empurrava a calota com o cotovelo direito.
“Cof, cof, cof, cof”, tossiu o albino. Um filete de sangue, como se brotasse de uma vertente escarlate, aumentou o fluxo entre os cabelos absolutamente brancos. “Não quero essa ceva velho fresco”! Berrou para o xiru embombachado. “Me traz uma branquinha”. Momentos a voz enrolava e denotava embriaguês. Outros momentos, a voz fluía com rompante e estrépito como um capitão de cavalaria. “Onde foi essa mulher? Se ela não vier, eu vou trazê-la pelas crinas essa puta rampeira”.
Um grande espelho adornado por uma lâmpada vermelha marcava a entrada do corredor de quartos onde até os surdos podiam escutar relinchos de baguais que varreram os traços de humanidade em pardieiros devassos e impregnados do odor acre do sexo repetido e banhado pelo suor de corpos ardentes e insaciáveis. Agora se exalava um cheiro de morte. Um homem branco e grande, diferente naquele cenário, teimava, insistia em desafiar as regras do bordel. As mulheres saltam dos colos famintos, como serpentes abandonando suas presas. Afastam-se todos da mesa do albino. Silêncio. Alguém desliga a vitrola. Olham-se. Estátuas disformes na névoa densa e mortal. A dona do bordel entra na sala. Um rebenque com fiel de prata! Um mango de prata chilena pendia em seu pulso esquerdo. Ela! A dama das meretrizes – Lurdinha. Numa terra de desdentados precoces, sua boca escancarada em gargalhada felina expunha duas fileiras de dentes de ouro. O poder da sua luxúria permitiu a riqueza do sorriso. Uma vencedora entre perdedoras?
“Polaco de merda, já te abri a cabeça com o fiel do meu mango” – bradou com os dentes cerrados. “Tu não é homem pra mim. Acho que tu não é homem pras minhas gurias. Já te mandei embora pro teu rancho. Aqui mando eu. Eu! Os teus pilas aqui não valem nada. Aqui macho é macho sem desrespeitar as fêmeas. Cala a boca! Fecha a latrina! Se não…” – gritava Lurdinha num crescendo de fúria.
“Se não o que tu va…” – não conseguiu terminar a frase o insistente albino.
Uma navalha Solingen, saída de algum lugar mágico do corpo de Lurdinha, qual um corisco alumiando a penumbra, abriu uma estrada entre a venta e a orelha do homem. Borbotões de sangue engasgaram o miserável. A platéia saiu do transe e foi socorrer a criatura que se esvaia rapidamente. Mais branco parecia ser impossível, mas a palidez da morte aderiu a sua tez.
“Touro em campo alheio é vaca” – bravateou Lurdinha, retirando-se da cena enquanto limpava a navalha em sua saia de seda escarlate.
2017 – 09 – 05 Setembro – Lurdinha Boca de Ouro – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – http://www.edsonolimpio.com.br