Lili da CB ou a Lili 3 Socos! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série Moto! Paixão Eterna. Crônica 5.

 

Lili da CB ou Lili 3 Socos

Crônica 5. 

 

Existia uma crença de que o motociclismo era um esporte ou uma atividade para homens. Felizmente essa concepção está mudando. Hoje temos uma grande quantidade de mulheres de todas as idades pilotando todo tipo de motocicleta. Isso não foi sempre assim. E uma dessas precursoras foi a Lili. Seu nome de batismo era Iolene, mas adquiriu o apelido de Lili e o ‘sobrenome’ de CB ou 3 Socos por seu batismo de fogo no mundo do motociclismo. E essa singela crônica é um pequeno resgate às mulheres que foram e são esquecidas. Muitos homens se tornaram lendas ou ícones dentro do motociclismo, mas quantas mulheres fazem a nossa lembrança?

 

 

Era uma época em que as motocicletas estavam assumindo seu lugar no Brasil da década de 70. A maioria delas era de pequena cilindrada. A juventude exultava como um enxame de abelhas africanas (ou seriam japonesas?). Pensam que se preocupavam com o tipo de estradas? Que nada! Somente se queriam rodar. O mais possível. O mais longe possível. Foi nessa época que aportou por aqui uma gaúcha acariocada. Explica-se. A gata era gaúcha de nascimento, mas com o falecimento precoce dos pais, foi viver com a avó materna no Rio de Janeiro. A voz era chiada como escapamento original de fábrica. Tinha algum sotaque gaúcho sempre alimentado por uma cuia de chimarrão. Chimarrão bem amargo.

 

mate frio e doce é coisa de fresco. – dizia sempre.

 

Lili veio rodando do Rio numa CB 360 com bagagem e tudo. Sozinha? Não, ela e a moto. A moto já era uma exceção, uma Honda CB 360 duplo escapamento. Cor vinho com filetes pretos e dourados. Amigos grafaram seu nome no tanque. Cromados. Muitos cromados. Era moto de se ajoelhar e agradecer aos anjos poder estar na sua frente e apreciá-la. Muito mais com uma bela mulher de calça jeans, confrontando a beleza de suas formas torneadas com as da moto. Cabelos negros e longos carinhosamente torcidos entre os dedos indicador e médio da mão esquerda para se acomodarem, se aninharem dentro do capacete. Uma loucura ao soltá-los ao vento com um movimento pendular da cabeça. Olhos negros dentro de uns óculos Triumph ingleses refletiam a imensidão do cosmo assim como sua força. A pele morena pelo bulício de Ipanema servia de cenário para lábios da cor de pitanga madura. Como os gomos da pitanga. Com o desejo da pitanga.

 

Enquanto nossos lábios rachavam com o vento, a poeira e o sol, os da Lili se mantinham com a pureza e a beleza das deusas. Era uma mulher à frente de seu tempo. Imagine naquela época uma moça sem sutiã. Ali estava uma. Ao retirar o grosso casaco de couro com franjas, estampava duas sentinelas avançadas, empinadas em sua realeza.

 

 

Havia um problema para nós homens, a Lili não flertava com nenhum. Apesar do imenso ciúme que causava nas outras garotas, seu único gato, namorado e amante era o motociclo. E talvez por isso fosse mais respeitada e admirada.

 

Tratava a todos como irmãos, principalmente como irmãos da mãe motocicleta e irmãos de estrada. A sua paixão pela moto transcendia a tudo o mais. Era um silencio sepulcral ao escutá-la contar suas viagens, aventuras e até acidentes. Lembrando uma queda que teve na serra de Gramado, rasgando a calça Lee. As pernas? Nada que maculasse a perfeição. Enquanto se buscava um contrabandista para fornecer outra, a Lili andava assim mesmo, remendada. Era um verão cearense fora de época que agüentávamos. Aí surgiu a moda dos jeans rasgados e remendados como charme pela outras moças.

 

Implorávamos aos deuses motociclistas que as férias não acabassem e que Lili resolvesse ficar aqui no Rio Grande. Alguns de vocês devem estar se perguntando do porque dos apelidos. Lili da CB é o óbvio. CB era a sua máquina. E Três Socos? Essa é outra história.

 

Aqui em Porto Alegre temos a nossa praia de Ipanema às margens do lago metido a rio (ou vice-versa?) Guaíba. Não tem os atrativos da irmã carioca, mas é muito pretensiosa também. Ali, numa tarde de sábado o pessoal se reunia para falar de moto e cerveja, moto e viagens, moto e mulher e quando faltava outro assunto falava-se somente de moto. E como sempre, tem um cri-cri, um chato e para piorar ainda metido à bacana. Suas piadas enjoavam, principalmente às mulheres.

 

— Todo machão tem duas bolas de gude entre as pernas. – Lili ronronava.

 

Começou a insinuar-se grosseiramente para a Lili, a única mulher sem namorado. Seus amigos cochichavam para que baixasse a bola. Aí é que o falso galo cantava mais alto. A Lili resolveu sair do barzinho ao que a criatura não se conformou e indo à direção da CB ameaçou riscar a moto com seu anel de ouro. O rolo estava formado.

 

 Chegou a turma do deixa disso e quem te pede sou eu. Mas a Lili largou na frente:

 — O dia em que precisar de homem para me defender eu não ando mais de moto!

 

O sacana levou a mão ao seu rosto num gesto de humilhá-la e subjugá-la. Lili abriu com o braço esquerdo retirando sua mão e como  num raio enfiou a bota direita no seu escroto. O animal arrochou num gemido gutural e ajoelhou-se. Até touro que é touro se ajoelha. O cara quis erguer-se esbravejando impropérios de ruborizar dona de bordel. Foi então que Lili deu-lhe um potente soco na boca do estômago seguido de um direto no nariz. O sangue esguichou para todos os lados. E com a fera curvando-se Lili desferiu um gancho de direita no queixo e o cara tombou de costas. Friozinho. Desacordado. A boca cheia de sangue espumava. Socorrido pelos companheiros, custou a acordar. Nocaute mesmo. Aí chegou a Brigada Militar. Todos foram unânimes em explicar que:

 

— O cara tinha bebido demais e caiu de boca no chão quando queria subir na moto’. – dissemos quase em coro.

 

Soubemos depois que perdeu os dois dentes centrais superiores. Para os outros e a polícia ele também deu a mesma versão. Ficaria pior ainda um homem daquele tamanho ser surrado por uma mulher…  Daí seu apelido de 3 Socos.

 

 

Respeitada. Admirada. Invejada. A Lili retornou ao sol e às praias do Rio com o fim do verão. Foi como uma ave de arribação. Uma bela e única ave. Escrevíamos-lhe cartas. Ela nos respondia. Eis que um triste dia veio a notícia – Lili da CB tinha morrido na serra de Teresópolis. Um caminhoneiro bêbado arremessou seu caminhão assassino contra um grupo de motociclistas. Ali também estava Lili. A sua manobra rápida desviou outros colegas da morte.

 

Lembro-me do que dizia: — A moto não é perigosa, o perigo está no piloto e principalmente nos outros.

 

A lembrança de um motociclista está no coração de quem o conheceu e nunca em nomes de ruas ou outras formas.      

 

Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe) www.edsonolimpio.com.br

Moto - Paixão Eterna - 2 - 2017. Motoqueiro Fantasma

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