COMO NASCE UM DOADOR!
Série - Moto! Paixão eterna. Crônica 11
Era um verão como poucos. Muito calor e dias longos. E a saudade da orla, conhecida há cerca de 10 anos, era grande. Muito grande. Maior ainda! Aos 20 anos, ZÉ BOCA era um rapaz forte, apesar de criado guacho (*1). O apelido se devia ao fato da criatura ter somente os quatro dentes caninos, daí também ser chamado de 1001 e Drácula. Apelidos aos quais ele respondia com sonoro elogio à mãe dos outros. Cresceu na Varzinha, próximo à Lagoa dos Patos. Após vender umas novilhas e uns porcos, veio para Viamão comprar uma moto, já que o conserto do piano (dentes) ficaria para mais tarde. Antevia-se desfilando na praia de Cidreira com a gata-namorada acolherada (*2) na garupa. Imaginava-se estacionado no Bar do João sorvendo uma loira suada. Depois de muita procura, encontrou a moto ideal. Era propriedade do primo do vizinho do amigo do mecânico do seu médico.
— O cara aos 24 anos teve que vendê-la de urgência para pagar uma cirurgia ou algo parecido… na próstata. — explicou seu mecânico, entre uma acelerada e outra.
— O Doutor. explicou que ele mijava contra o vento, deixava a moto parada no sol e sentava no banco quente. – explanava de olhos arregalados. E pra piorar as coisas, sempre que fazia sexo ia de pé descalço no piso frio do banheiro. Aí recolheu tudo e privou as urina. — acrescentou o mecânico.
Yamaha DT 180. Era uma bela DTZINHA 180cc. Camuflada como roupa de pára-quedista militar. Já que eram diversas as cores sobrepostas. Pintadas com toque artístico a pincel pelo cunhado e pintor do antigo proprietário. Foi amor à primeira vista. Precisava de pequenos reparos e uma boa química que faria ao voltar do fim de semana praiano.
Considerava-se exímio piloto. Somente não havia tirado a carteira de habilitação por falta de tempo. Tinha grande experiência, pois na infância pilotou um triciclo do primo. Na adolescência foi co-piloto de Garelli numa festa de casamento. Sem contar a sua habilidade de esporear as potrancas nas barrancas de Itapoã (*3). E agora, no fim de semana passado, estivera sentado numa CG 125 no Bailão do Valdeci. E foi nesta sentada que aflorou toda a paixão e desejo por moto.
Voltando à DTZINHA. Estava um pouco difícil de pegar o motor. O Zé BOCA quase se rendeu (*4) pedalando e nada. Mas a platéia deu uma mãozinha, depois de umas dez empurradas e umas três lombas… pegou no tranco.
— Ela é um pouco rebelde, mas depois de pegar… — disse ao guri do vizinho.
E veio faceiro da Estalagem ao Krahe. Enxotando os cachorros e abanando para as gurias. Chegando à casa da namorada, esta o aguardava ansiosa e excitada. Cheia de planos. Afinal, era um príncipe-cavaleiro-motoqueiro. Como já escurecia colocou a máquina num puxado, quase uma meia água de Brasilit ao lado do galinheiro. Não deveria pegar sereno, poderia resfriar-se. Aproveitou para amarrar um fio de arame aqui e outro ali. Mais Araldite, Super Bonder e Durepóxi. Um Nugget nos pneus slick (super lisos). Até o chiclé da namorada entrou no conserto para vedar um furo no tanque que insistia em pingar gasolina.
– Típico tanque de gasolina que não colabora, fica se orinando. — rosnava dando cuspidelas por entre os dentes.
Planejava inclusive um curso com o MacGiver no retorno da praia. Passou uma flanelinha na pintura. E após algum tempo apalpando as partes e as curvas da moto… e da gata, combinaram madrugar no dia seguinte, sábado. Ainda teriam que se equipar pela manhã. Ah! E batizou-a como GAUDÉRIA, nome que em segredo lhe trazia felizes recordações de uma potranca tordilha e troncha (*5) das orelhas, colegas de iniciação sexual.
A estupi-bondosa sogra fez uma farofa de galinha com os ovos do sogro. Cortou uma melancia e colocou tudo numa mochila às costas da filha. Pegou a cama (um pelego) e aí pelas 9h foram para o Centro de Viamão. Passou na Loja Ione e no Salah, um banho de loja. Saiu pilchado (*6) de bermuda nova, camiseta de surfista e um chinelo Rider. A namorada levou um mini-micro fio-dental. Compraram dois raibãs na Ótica do Egon, para pagar depois do Carnaval. Da farmácia Nova, levaram remédios de Urgência: Engov, Sonrisal, Imosec, “piula pra não emprenhá”, bronzeador e… ¼ kg de vaselina. Dormir na praia às vezes pode entrar areia.
Abasteceu a Gaudéria no Texaquinho. Enquanto abastecia, a namorada comprou a Revista Caras para ler na viagem. O frentista acusou lâmpadas queimadas. Foi na Autopeças do Zavarize comprar novas. No meio do caminho, lembrou-se que era um gasto desnecessário, já que a viagem seria de dia… e prá que luz, farol… Desviou e estacionou no Bar 7 Facadas, completando o seu “tanque” com umas 6 ou 7 cevas estupidamente geladas.
Tudo pronto, alegres e faceiros, enfiaram os capacetes… nos braços. Pois na cabeça esquenta demais. Combinaram a próxima parada no Bar Silva, na Estiva, uns 30 km do Capelão. E como já estavam atrasados, resolveu afinar, esticar as marchas, abrir todo gás na faixa preta. E deitaram o cabelo. E deitaram mesmo. Deitaram tanto que no trevo do Autódromo, deitaram o resto que acompanhava o cabelo. E se tornaram DOADORES. Ele doou o chinelo novo. Ela doou o mini-micro fio dental. Pois o resto deles e da Gaudéria, ainda estão PROCURANDO e tentando JUNTAR.
Vocabulário Gaúcho: *1) Guacho: sem ser amamentado ao peito. *2) Acolherada: abraçada, junto. *3) Itapoã: distrito de Viamão, cidade histórica e antiga capital do Rio Grande do Sul. *4) Render-se: fazer hérnia. *5) Troncha das orelhas: orelhas caídas. *6) Pilchado: vestido, fardado.

