Sol, Nordestão e Finados! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 07 Novembro 2017.

 

Sol, Nordestão e Finados!

 

DESPOIS DAQUELA BRONCA NO Éden entre o Criador, Adão e Eva (não confundir com Adão e Ivo!) e a minhoca anabolizada e maligna, o mundo jamais seria o mesmo. Antes sem portas nem cancelas, o Paraíso ganhou porta da frente e dos fundos e com o arranjo das placas tectônicas num desarranjo intestinal do planeta Terra, criaram-se os continentes e a Petrobras. Da cintura para baixo da América Latrina a geografia se enrolou e algum anjo deixou as coisas meio desarrumadas, pois até os portugueses haviam nos desprezado com o Tratado de Tordesilhas que acabava o Brasil em Laguna, Santa Catarina. Assim o gaúcho é um teimoso e renitente, empedernido até. Nós temos litoral e costa do Oceano Atlântico, enquanto os “catarinas” e o Brasil tem praias. Eles tem a brisa do mar e nós temos o vento Nordestão no verão e o vento Minuano no resto do ano. Somos sobreviventes. Neandertais modernosos. Algum tipo de aborígene multicolorido, até muitos nascem desovando. Sim, sim, aqui o ovo da Serpente floresceu e prosperou e aspiram fazer dessa terra uma nova Venezuela ou uma Cuba sem ilha. Nosso mar é quase sempre furioso, ondas nervosas e agressivas, prontas para te sugar e virar comida de marisco. Jamais tememos furacão, fura-bolo ou ciclones, o Nordestão nos treina como se vivêssemos na Patagônia. Antes da Guerra do Iraque e do Golfo, os helicópteros americanos treinaram no nosso litoral com a areia entrando nas frestas, rachaduras e buracos. Todos os buracos. Sim! Inclusive.

Crônicas & Agudas

 Temos uns dois meses de algo que apelidamos de verão. Utopia. Força de expressão. Pois no feriadão de Finados, onde até os mortos vão ao litoral, pois são vistos cinzas serem jogadas ao mar, mas antes serem carregadas pelo Nordestão. A gauchada debanda para a “praia”. Da minha morada assisto aos sobreviventes e lutadores numa das praças à beira mar de Capão da Canoa (sem capão, nem canoa). A cidade virou um formigueiro humano com edifícios tão ao lado um do outro que com a janela aberta pode trocar um aperto de mão com o vizinho. As pessoas e a cachorrada (e bota cachorrada nisso!) disputam na joelhada cada espaço com algum sol, pois após o meio dia o sol surge em nesgas entre os prédios. A mulherada e o “time do gênero” lambuzam-se de bronzeador, hidratante e outras melecas para se esparramarem nas cadeiras e nas esteiras. A areia fina trazida pela ventania cria uma crosta, empanando as criaturas. Alguns formam montes de areia, cômoros, e logo alguma lagartixa desliza no tobogã onde eram os glúteos. A cuia de chimarrão recebe uma cobertura, um pequeno telhado tipo meia-água para reter a erva mate (não a outra erva!).

Cr & Ag

A sintonia entre gordo barrigudo e magrão barrigudo está na cerveja que rola e esvazia as caixas de isopor. Há pais que amarram uma corda na cintura dos filhos, mas não é para não se perderem no povaréu e sim para não serem carregados pelo ventão. Por isso chapéu de gaúcho tem o barbicacho, cinta para prender na cabeça passada pelo queixo. Os sorveteiros somente empurram os carrinhos no sentido do vento, pois contra é impossível. Surfista entra no mar de Capão e sai quase em Punta del Este. Uma loucura. Contam (ver mesmo eu nunca vi!) que genros levam sogras para o litoral na esperança que sem âncoras elas sejam carregadas pelo Nordestão ou pelas correntes marinhas. Aqui é tão cruel que em boca aberta não entra mosca ou mosquito, somente areia. E muita. Tanto que dá polimento no piano, digo, nos dentes. E o sol está constrangido, num jogo de cintura entre os edifícios e a mulherada, os assemelhados e suas cortes. É pouco sol para tantos e tanta vontade de fazer as marquinhas de bronzeado que tanto encantam e seduzem. Salvo aos valentes do Viagra e do Cialis, que no desespero topam qualquer parada. Vão para o que der e vier, ou melhor, alguns para o “der” e outros para o “vier”. Tudo numa boa depois que colocaram uma “florzinha no buraco do falecido”, comentava uma jovem veterana na barranca dos oitentinha. Ou 8.0!

    2017 – 11 – 07 Novembro – Sol Nordestão e Finados – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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