NAQUELE DIA DOS NAMORADOS…
“Que outro motivo melhor para viver do que viver para amar?”
As motocicletas estão estacionadas a poucos metros de nós. Um boteco. Humilde e rústico bolicho escondido numa curva de uma estrada qualquer nesse sofrido Rio Grande. Uma pequena varanda com duas mesas vermelhas, enferrujadas, onde ainda se vê um logotipo de cerveja. Cadeiras de ferro acomodam nossas costas em longa jornada. Jogamos os pés sobre a cadeira à frente. O sol também tenta se acomodar atrás de um cerro.
O bolicheiro oferece pastel feito na hora. Aceitamos. Os companheiros pedem cerveja. Contento-me com um café com leite. O hotel nos aguarda logo ao lado do posto de gasolina. Ali vamos passar a noite. Eis que um dos companheiros vê na mesa de ferro vermelha um coração. Sabes, desses corações riscados com ponta de faca ou de um estilete ou chave? Ali estava um coração com uma flecha que o transfixava. “Maria! Continuo te amando. Zé C.S.” – assim estava gravado.
Enche o copo e toma de um só gole – Glunc. Sentimos algo por acontecer. Ele sempre foi um homem sentimental. Um romântico que ao escutar a melodia de um chorinho, rolam maresias de lágrimas de seus olhos.
Terceiro copo de cerveja – glunc! Nos preocupamos. Não é do seu hábito beber assim. Joga-se para trás na cadeira e dá um grande suspiro erguendo os braços aos céus. Como numa súplica. Há um enorme silêncio em volta. Até o cachorro do bolicheiro ergue a cabeça para assistir e aguardar o desfecho. Chegam rápidos os pratos com pastéis e após passar um pano manchado para limpar a mesa, coloca-os ali. Com o mesmo pano, limpa as mãos e a fronte. Aquele homem rude sente a presença de tormenta no ar.
As respirações tornam-se densas. As motos estão ali e seus faróis, como olhos arregalados, nos espreitam como cavalos sentindo o espírito do dono. Outro suspiro soluçado e joga a cabeça sobre os braços cruzados sobre a mesa. Um choro que logo se torna convulsivo. O espanto cede passagem ao “que foi companheiro”, “que que é, meu”, “que é isso, cara”. Um braço por cima do amigo. Apreensão. Nunca o vimos assim. É um emotivo, mas assim já é demais para o nosso conhecimento.
Tantos quilômetros de estrada, de repente seus olhos se cravam num coração riscado numa mesa vermelha de ferro e o homem desaba. Pior do que rodada de moto andando numa curva da BR 101 a 160 km/h.
“Ah, que saudade dela! (soluços). Que falta ela me faz. (choro). Vejo os seus olhos refletidos na viseira do meu capacete. Vejo aqueles cílios em que eu passava os dedos e após os beijava, lhe dizendo: os olhos que eu beijo com todo meu amor jamais terão vistas para outro homem. Ela sorria. Ela sorria de um jeito que fazia meu coração parecer pandeiro na avenida, cara. Minha respiração engasgava como carburador desregulado. Eu tremia perto dela. Sério, cara. Essa mulher ajeitou e bagunçou a minha vida. Nos encontramos por acaso. Foi numa festa de fim de ano. Namoro rápido e fomos morar juntos. Uma paixão me explodia as entranhas dia e noite. Era direto, entende. Enfiei a moto na garagem. Não pensava em mais nada além Dela. Era como se a esperasse a vida toda. Era como se a conhecesse de outras vidas”.
As palavras saiam aos borbotões de seus lábios. Frases atropeladas. Todos ali mudos na platéia.
“Então lhe comprei um presente para o Dia dos Namorados. Estranhei ela não estar em casa quando cheguei. E não chegou mais. Nunca mais. Procurei, telefonei. Hospital. Polícia. IML. Nada. Sabe? Nada de nada. Quase morri. Dá para entender o que é morrer de amor ou por amor, companheiros? E até hoje continuo procurando-a, aguardando que ela abra a porta… que a encontre em alguma estrada da vida em que passo com a minha moto”.
Então, limpou as lágrimas com o lenço retirado do pescoço. Pegou um pastel frio e gorduroso e deu ao cão que estava sentado ao seu lado escutando-lhe. O cão refugou o pastel e saiu esgueirando-se entre as cadeiras. Outro companheiro ergueu o copo num brinde silencioso. Talvez numa prece. Comi aquele pastel de charque. Salgado como a vida. Pagamos a conta e fomos buscar o hotel. Amanhã será um novo dia. Estradas. E que sabe o anjo protetor dos motociclistas traga a sua amada algum dia.



