O Negrinho do Altar! – Primeira parte.
– O que está olhando Pedro?
– É o altar manhê.
– Presta atenção na missa guri. É pecado se distrair na Igreja.
– Mas o menino… manhê! Olha lá!
– Psiuuuu!
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missa terminou e as pessoas se encaminharam para a gigantesca e sólida porta principal que se abre para uma escadaria semicircular e logo desliza para a praça fronteira. A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é a segunda igreja mais antiga do Rio Grande do Sul. Nasceu como uma singela capela, que com a fé dos seus fiéis foi crescendo com enormes paredes de quase dois metros soldadas com as conchas do oceano Atlântico distante uns 100 km e amalgamadas com o sangue e o suor dos trabalhadores, possuía magníficos afrescos e altares ricamente adornados. Caminha célere para os seus trezentos anos de vida sendo a testemunha da vida e da morte, hoje sofrendo o descaso e o abandono. Foi o abrigo dos desesperados e dos covardes nas revoluções. Foi palco de importantes líderes e de mesquinhos políticos. Ainda atrai noivos apaixonados em muitos fugazes casamentos e a benção e graça do batismo não recebe a singular e devida importância. O que jamais deixou de ser – a casa da Mãe Celestial, que suas torres lembram braços amorosos aguardando seus filhos amados e que receberão o amor do Filho que carrega em seu colo.
À noite, Pedrinho larga as espigas de milho transformadas em boizinhos com as bolas de gude no assoalho da humilde casa na descida da Lomba do Mendanha e puxando o vestido da mãe entretida mexendo a panela de sopa no velho e fumarento fogão de rabo:
– Ô manhê, qué que o negrinho igualzinho a mim fazia com as flores no altar da Nossa Senhora. Maria freou a colher e retirou os olhos da panela de sopa. Sua mente tentava buscar a imagem do menino em alguma cena.
– Que negrinho? Não vi nenhum negrinho no altar. E nunca tem muito negrinho como tu ou eu.
– Ele tava com um balde de flores colocando no altar quando chegamos e ali ficou depois ajoelhado na missa. O padre passou do lado dele quando foi fazer o sermão e…
Logo todos estavam se deliciando com a sopa quente sem se preocupar com as lambidas do vento Minuano varando as frestas da parede de tábuas carcomidas.
Manhã de sábado A idosa mulher abre a bolsa surrada e saca um antigo relógio de bolso que pertencera ao seu pai e antes dele ao seu avô. Olha para irmã e diz: – Quase 8 horas. O negrinho aprontou o altar da Nossa Senhora. Ele trocou as toalhas e colocou umas flores tão bonitas quanto cheirosas. O perfume vem até nós. Sinta mana, – fechando as pálpebras numa respiração profunda. A irmã elevou lentamente os olhos marejados de lágrimas, levou o alvo lenço e assoou delicadamente o nariz. Arrumou o rosário enrolado na mão esquerda e seu olhar caminhou pelos altares e cochichou:
– Que perfume maravilhoso. Lembra as flores da casa da mamãe em dias de festa ou quando ela trazia suas flores do jardim. Quem é esse negrinho? Nunca vi ele antes aqui na igreja. De quem será filho? Por que ele está de pés descalços? Será algum coroinha novo do padre? Notou se ele subiu no altar, mas tem flores tão lindas até lá em cima. Seu olhar acomodou-se no topo do altar de vários metros de altura e voltou às suas orações arrumando o véu sobre os cabelos. E logo a igreja recebia o povo e o padre entrava com seus sacristãos em solene ladainha para a esperada missa de Finados. – Nota: Leia a parte final na próxima semana.
2017 – 12 – 12 Dezembro – O Negrinho do Altar – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
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O Negrinho do Altar! – 2ª. Parte. Conclusão.
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O |
s jovens pais sorriam da enorme felicidade de ali estar com a filha tão amada e desejada estreitada amorosamente em seus braços. Fora a primeira gravidez daquela jovem mãe. Sofrera muito com dores e sangramentos. Família humilde da Lomba da Tarumã. Sua casinha, aos fundos da casa paterna, beirava o local sagrado das ancestrais trincheiras farroupilhas. Ali naquela terra outrora tinta de sangue tombaram pessoas pelo aço e pelo fogo de irmãos contra irmãos na Guerra dos Farrapos. Pela vidraça da janela ao lado da sua cama, os dias troteavam de marcha arrastada e sofrida e seus olhos encovados e densos imaginavam o filho, que carregava dentro de si, brincando com outras crianças em efusiva alegria. Assim se nutria das forças da alma pelo amor alimentando o corpo fragilizado pela difícil gestação. Certo dia, o ventre latejando de dor, o suor pegajoso vertendo de sua fronte e rolando pelo seu corpo magro, as mãos crispadas no velho cobertor de lã, e o campinho vazio das crianças da vizinhança. Dia invernoso, nuvens plúmbeas engalfinhavam-se numa luta pelo melhor campo do céu. Eis que um negrinho de pés descalços e calças curtas, extremamente brancas como alvejadas e quaradas no anil em algum gramado, arrumou o suspensório e veio até sua janela.
Tereza empurrou a janela pela corrediça de madeira. A luz dos olhos do menino penetrava nos seus e como se entrasse em seu corpo e no seu espírito O negrinho lhe sorriu e uma rosa branca surgiu em suas mãos. O perfume lhe fez fechar os olhos alguns instantes para absorver profundamente a sensação de paz e alívio. Sua barriga acalmou-se e sentia como se seu bebê recebesse o carinho do negrinho. O menino sorria em silêncio. Não respondeu suas perguntas. Virou-se para o banco ao lado da cama, ali dormiu um pedaço de bolo com abacaxi que tanto adorava e seu mãe lhe deixou com afeto antes de sair para suas faxinas no centro da vila. Ao voltar-se à janela, o menino sumira. Não sentia angústia ou dor, sentia uma imensa necessidade de ajoelhar-se e orar para a Padroeira, Nossa Senhora da Conceição. Ainda temendo sangrar saiu do leito e ajoelhou-se e orou e prometeu. A promessa seria cumprida durante toda a sua vida e começaria no batizado de Maria. Sim, ela receberia o nome da Mãe de Jesus Cristo!
Os padrinhos e avós abraçavam-se e à Maria. O padre cumpria o solene ritual. Eis que Tereza saiu rapidamente da sua posição na pia batismal e indo ao altar da santa dobrou-se como num abraço. O espanto geral interrompeu a cerimônia. Voltou com os olhos vertendo as lágrimas de felicidade que somente uma mãe amorosa pode verter. Ao fim do batismo, perguntaram-lhe por que fizera aquilo – “é pecado interromper o batismo, o padre não deve ter gostado”, – disseram-lhe. Tereza sorriu e disse-lhes: – O negrinho que lhes contei estava com um balde de flores no altar de Nossa Senhora e meu coração precisava agradecer. Fui e lhe dei um abraço e quando olhei pra cima acho que Nossa Senhora sorriu.
Lendas são as histórias que não vivenciamos ou insistimos em desacreditar. Da fé nascem milagres. Do amor nascem e multiplicam-se os milagres. Olhamos e não enxergamos. Se enxergarmos, tendemos a duvidar ou simplesmente deixar no acostamento da estrada da existência. Raros ousam contar aquilo que somente eles experimentaram pelo risco de serem considerados loucos ou mentirosos. Buscamos explicar e racionalizar. A dor e o sofrimento tende a nos fazer mais humildes e ansiar por ajuda. Quantas vezes a ajuda passa ou está ao nosso lado e não a utilizamos ou a negamos. Quando vemos ou sentimos algo que os outros não sentem ou não vêm, optamos pelo silêncio temeroso. Um negrinho! Um menino negro visto por sabe-se lá quantos numa igreja centenária. Um negrinho humilde de calças brancas e curtas, muitas vezes, de suspensório com a faina de adornar o altar de Nossa Senhora e que visita pessoas no extremo do sofrimento e lhe traz conforto. Alguns sentem um perfume divino no altar hoje desnudo e quase abandonado, mas poucos sabem ou se apercebem que há algo de luminoso ali. Aparições são visualizações somente para alguns encampados pela dor ou abençoados pelo privilégio. Os padres se multiplicaram no tropel dos decênios e viram ou também silenciaram.
Os anjos existem e nos acompanham. Um negrinho pleno de amor é um desses anjos que acompanha e vela pela Mãe de Cristo e ilumina e perfuma, além do altar da Virgem, até corações e espíritos empedernidos quando se abrem para a humildade e para o amor divino.
2017 – 12 – 19 Dezembro – O Negrinho do Altar – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião