“Patentes” praianas!
Tradicionalmente no verão gaudério publicamos crônicas infladas de bom humor, trazendo a versão de nossos correspondentes do litoral marítimo do Estado de atraso gaúcho. Sim, os catarinas têm as praias e nós temos litoral. Miltinho Pedalada, laureado atleta da várzea e das areias do Quintão dá sua esticada à Capão sem Canoa e encanta-se com as patentes de fibra plantadas nas praças e à beira mar. O pessoal tradicionalmente ainda se alivia nas dunas ou na água gelada e marrom Nescau. “Eram 14 horas, a turma tinha passado a manhã batendo uma bolinha e derrubando umas cevas geladas, comendo uma costela de tonel e um abacaxi grelhado. O Paulo Cachaça fulminou uma ambrosia de sogra apesar do temor e do berreiro contrário dos amigos e até dos quase inimigos. Foi a ambrosia bater no bucho e se encontrou com a cachaça com paleta de carneiro e deu-se o crime. O carneiro berrou uma, duas e na terceira o Paulo já arriou as bermudas e veio a turma do “deixa disso meu”, “tem crianças perto”, “a gostosa tá te olhando cara”. Fizeram uma rodinha com a bandeira do time Te Arremanga e Vem e o Paulo Cachaça descarregou na lixeira. O cheiro abriu um clarão e a turma do guarda-sol baixou proutras bandas. Até os cachorros que aguardavam os ossos se abriram e pegaram distância.
Coisa mui feia e dolorida. O homem se afrouxou e branqueou com ameaça de desmaio e começou a chamar o Hugo com o suor frio da morte. Os colegas que ainda caminhavam pegaram o Cachaça e antes de colocar na Kombi passou uma vermelha dos bombeiros e socorreram o homem. Eu e mais uns dois, que não tavam pelo gargalo, fomos nas patentes de fibra. Uma maravilha de longe. Coloridas como arco íris. Com uma placa indicando Macho e Fêmea. Mas tinha fila. Pensa maior! Bem maior. Pouca patente e muita necessidade. As caras de dor e irritação eram como a petezada aguardando o Sérgio Moro. Horrível meu! Um cara se fez de distraído e quis furar a fila. Levou um rabo de arraia de um anão dobrado e se afrouxou num mata-leão. E se afrouxou tanto que nem precisou mais da patente. Uma velha gorda sentada e arrastava uma cadeira de praia, dessas de cano, e berrava: -“A lei da prioridade pra idosa, fila especial! ”. Numa dessas arrastadas de cadeira, a velha gorda se esparramou no chão e encheu os fundilhos. Coisa de dar dó, tanto que alguns foram acudir e nós assim ganhamos uns seis lugares na bixa.
Um magrão pulava duma fila pra outra, sim da fila das mulher pra fila dos machos. Um careca engrossou com aquilo. O magrão colocou uma mãozinha na cintura e a outra com o dedinho indicador no nariz e: -“Olha gente, eu ainda sou virgem e tô meio em dúvida do meu gênero. Tá indefinido, sabem? ” O careca lascou: – “Se pular de galho de novo, vou te fazer descobrir na hora qual o teu gênero coisinha louca”. O magrão até pode ter gostado da ideia, mas resolver sossegar. Como tinha mosca! Tinha umas varejeiras do tamanho de um beija-flor e paravam no ar encarando a gente. Uma baixota com uma criança pelos cabelos saiu com o chinelo dando pancadas nas moscas. As moscas voltaram, elas não. O sol estava de rachar o melão de beduíno no Saara. Fiquei associado no guarda-sol duma idosa muito bem maquiada e apessoada, cheia de colar e pulseira e… gases. Cada soltada! Uma magrinha com esses cachorrinhos de enfeite no colo, não aguentou: – “A tia parece que tá toda podre por dentro”.
Eis que atracou uma viatura preto-e-branco da Civil e baixou um negão do tamanho do Chuazenega. Anelão nos dedos. Corrente de um metro no pescoço. E de ouro. Achamos que veio colocar ordem na zorra. Deu outra. “A lei tem preferência”! Olhou pro cara com a revista Veja que era o próximo e uivou entre as presas. O cara provou a sua inteligência e bom senso e gritou, quase um gemido final: – “A lei tem preferência”! Eu, pra evitar conflito de interesse, chamei de meu-bem a Zero Hora que tinha no sovaco e fui achar uma duna. Nasci de parto sem dor, falava minha finada mãezinha e que Deus a tenha, e quando o delegado desceu da viatura, desafivelou o cinto com as pistolas, eu perdi as esperanças”.
2018 – 01 – 09 Janeiro – Patentes praianas – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br