Explique! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 16.

 

 

 

EXPLIQUE!

 

 

O tempo de semblante franzido enrugava o céu com nuvens plúmbeas já deitando pesadas gotas de chuva. Há cerca de meia-hora havíamos colocado os abrigos de chuva. A chuva começou a aumentar e as gotas transformaram-se em martelos d’ água ferindo a viseira dos capacetes e o pára-brisa da Morgana, nossa motocicleta. O bom senso, as regras de segurança e a pilotagem defensiva nos orientam a buscar um abrigo ou pilotar em ritmo seguro até sair da chuva ou das tormentas. Como não havia nenhum tipo de abrigo humano, os eucaliptos isolados a margem da rodovia são armadilhas perigosas tanto por raios como por quedas de seus galhos ou até o tombamento por completo desses gigantes de origem australiana.

 

 

A Morgana mantia seu ritmo constante, empurrada por seu poderoso coração de 1500 cc. Íamos ultrapassando os caminhões e fugindo de seu spray de barro-água-óleo. Logo o asfalto estava lavado do óleo desses monstros de metal e pneus. Alguns automóveis parados no acostamento com lanternas ligadas criavam uma moldura luminosa nesse quadro que é aterrador para muitos, despertando fobias enclausuradas. O dedo enluvado serve como limpador de pára-brisa na superfície da viseira plástica do capacete. Como uma cobra gigantesca, a estrada vai se contorcendo e carregando em seu lombo as nossas alegrias e apreensões. Em alguns trechos a chuva diminuía de intensidade, talvez parando para abastecer-se na Lagoa dos Patos, nas Lagoas Mirim e Mangueira e logo vir novamente a despejar nos renitentes viajantes a sua violência.

 

 

Então, chegamos num local em que havia vários carros e caminhões estacionados no leito da rodovia com as rodas sob alguns centímetros de água. Um véu líquido cobria o corpo da estrada. Ao lado direito, um enorme açude levantava ondas. Uma maresia de estimular surfista. O céu transformava o dia em anoitecer. Abrimos e, pela pista contígua, fomos vagarosamente até estacionar junto à traseira de uma imensa carreta. A uns cem metros a sua frente o tráfego era permitido somente num dos sentidos, pois o lençol de água cobria parcialmente a cabeceira de uma ponte de concreto.

 

O caminhoneiro, segurando os demais veículos atrás de si, permitia a passagem dos outros no sentido contrário e media, creio eu, avaliava as condições. Senti quando ele engrenou a marcha, a fumaça negra regurgitou acima da cabine laranja.

 

 Engatei a marcha na Morgana e ela desfaleceu. Apagou. Morreu o motor. Mas como?! Isso não é de seu hábito. Tentei várias vezes o botão de arranque e nada. Desengrenei, ponto morto, bati arranque – nada. O arranque dava voltas como a massagear o tórax de um coração parado. Nada. Os veículos atrás de nós lampejavam seus faróis e alguns buzinavam. Lentamente, empurrei a moto para o acostamento submerso e coloquei-a em seu apoio lateral. Como contas de um rosário todos acompanharam a carreta. Tristemente eu examinava a Morgana.

 

Uma raiva despontava dentro de mim. Súbito, buzinas e buzinas. Luzes piscantes iluminando a negritude da tormenta. O aterro da cabeceira da ponte cedeu engolindo parte dos rodados da carreta. O veículo, logo atrás, uma camionete, ficou atravessada na goela maldita. Desespero geral. Outros carros manobrando para retornar e escapar. Eis que a chuva amainou e pode-se avaliar o risco e o desastre. Ninguém ferido. A carreta ficou ali trancada, semi-tragada pela água. A camionete saiu rebocada. Depois da convulsão, voltei a Morgana. Teríamos que retornar. Estranhamente, o motor funcionou perfeito, redondo. Como se nunca houvesse qualquer tipo de defeito. Embarcamos e retornamos e o resto da viagem aconteceu sem maiores dificuldades.

 

 

No silêncio do capacete, revisei os fatos. Os motores de motocicletas são planejados para suportar a ação da água desde que não mergulhe e os escapamentos não fiquem submersos. Nada disso tinha acontecido e muitas outras chuvas e tormentas já havíamos enfrentado, sem problemas. Então, lembrei-me que na tradição do Rio Grande do Sul há inúmeros relatos de que o cavalo refuga um caminho ou uma estrada se pressente o perigo. Seria isso com a Morgana? Ou talvez, o anjo de guarda de plantão? Sorte? Casualidade?

Moto - Paixão Eterna - 16 - 2017 - Apocalipse

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