Chuva na Praia!
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ara muitas criaturas, praia é sinal de sol (e forte!) e água aquecida além de uma brisa que não estrague o penteado. Para esses, as praias iniciam, realmente, depois do rio Mampituba e sobem por Santa Catarina. O velho e ardido clima gaúcho pode e faz um inverno extemporâneo em pleno verão, mas o gaudério não se mixa e vai salgar o lombo de qualquer jeito. Com a chuva explodindo na vidraça, depois de bailar com o vento Nordeste, da-se uma espreitada no horizonte. Os salva-vidas continuam no seu tradicional bate e volta de um canto ao outro do seu perímetro. A turma da cachorrada veste uma capinha de chuva ou de sombrinha em punho vai levar os guaipecas para urinar e defecar, a muitos com os saquinhos plásticos e juntam os dejetos. A turma do futebol praiano corre atrás da bola e do isopor com cervejas. As musas de fio-dental são insensíveis à chuva e ao vento e muito menos ao frio, pois com a mesma coragem que exibem a celulite elas enfrentam as intempéries praianas. A turma do atletismo insiste em manter o despreparo físico com a marcha não acelerada e com a corrida de não chegar.
Crônicas & Agudas
Tanto faz a chuva aumentar ou diminuir, as criaturas estão com o tempo contado e não há como desperdiçar a praia, logo o calendário bate no fim das férias e a volta à cruel realidade deixa de ser um aviso e torna-se real. A Fiorino baixa uma churrasqueira de tonel e a carvoaria, logo a fumaça rola sob a lona. A churrasqueira em apartamento é como rodízio de carnes – uma invenção gauchesca! Um conhecido abdicou de quartos para a sogra e para os filhos – que dormissem na sala ou no carro – para ter uma bela churrascaria no apartamento e ali diariamente e noturnamente pilota os espetos numa sintonia de direita e esquerda, sapateando uma vaneira. Há quem profetize que é o único local e tempo da casa em que o macho é o macho, isto é, manda no pedaço, daí ser a churrasqueira um templo sagrado em que o macho faz oferendas à fêmea com a sublime intenção de continuar a girar o espeto no quase repouso do guerreiro. Sim, sim! Quando a criatura começa a bocejar, depois de alimentar a sogra e a prole e algum anexo ou app de família, soa o aviso de que o cara vai à cama e que a turma ache outro território para zoar. Coisas da vida, antes da morte inevitável de quase todos, menos do Lula Pai.
Cr & Ag
Ali no sacolejar das 16 horas, sente-se o cheiro de bolo frito ou do famoso bolinho de chuva com canela e agora sem açúcar pela dieta extenuante. A patroa levantou pé ante pé, pois vai que o gaudério acorde e resolva ganhar a pelada no segundo tempo, e dá uma ajeitada na melena e uma sungada naquilo que a lei da gravidade e do tempo jogam para baixo e se vai à cozinha. Se a sogra velha for de fé e tiver outras utilidades práticas, já fez o café, os bolinhos e talvez um arroz de leite com leite condensado e raspas de limão e canela. E a deusa cansada e suspirosa, com a sensação do dever bem cumprido, finalmente cruza as pernas e toma seu café da tarde com merecimento de guerreira. Há quem veja machismo onde se espelha a realidade, outros veem as névoas do feminismo de gênero tripolar em cada nuança da vida.
Cr & Ag
“Essa chuva leve e macia é como ouro caído do céu! ” Outros sentem como “as lágrimas do Criador perante a devassidão no planeta”. Para a maioria a chuva é somente “um saco”! Evitável é votar em ladrão e continuar defendendo ladrão ou negar-se a ver a podridão do seu ídolo e da corja maligna que o acompanha. A chuva é parte fundamental da vida e afora o bom humor sempre necessário e as brincadeiras que refletem a realidade, necessitamos dela. Sempre!
2018 – 01 – 23 Janeiro – Chuva na Praia – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – www.edsonolimpio.com.br