MotoGay! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 17.

 

 

MOTOGAY.

 

 

 

Minhas andanças pela política me ensinaram que se devem apoiar as minorias sem jamais ser contra as maiorias. E durante longos e fumacentos anos de motociclismo rodando pelo Brasil-abençoado-por-Deus e participando de encontros motociclísticos em cidades que nos custa enrolar a língua para poder dizer o nome, acreditava que motociclismo fosse coisa para homens.

 

O sujeito para andar de moto tinha que ser homem e macho. Mas com a passagem dos anos, a visão aumenta e o coração amolece. Passamos a conviver com grupos de motociclistas mulheres e também algumas valquírias solitárias pilotando suas motos. E muitas vezes melhor do que muito machão.

 

Parecia estranho, mas foi muito fácil aceitar. Pois encontrei homens na garupa de suas damas de aço. Num desfile Farroupilha causou muito rebuliço a vinda de Pelotas a cavalo de um advogado conhecido como Capitão Gay, inclusive com um companheiro travesti vestido (a) de prenda. Tentou acampar no Parque da Harmonia para celebrar a Semana Farroupilha, não conseguiu. Quase (?) levou uma surra, ou uma sumanta de laço na gíria gaudéria. O que para alguns teria sido bem vindo (a). Daí a recordar-me de um grupo ou mini-grupo que encontramos num encontro de Serra Negra – SP.

 

Os grupos motociclísticos adotam nomes tipo: Cavaleiros do Asfalto, Abutres, Falcões de Aço e assim vai. Os garotos (as) chamavam-se “As Libélulas do Asfalto”. Dois em uma Yamaha Virago e o chefe numa Harley-Davidson recuperada. Explico: dizia-se ano 81, mas com trabalho meticuloso de renovação e recuperação.

 

Era um início de noite e a praça central estava lotada, derramando motociclistas e curiosos pelas ruas laterais até o pavilhão de eventos. Adereços em motos é coisa comum, mas nunca tinha visto uma moto rosa-pink com filetes dourados. Banco de couro branco com franjas. Longas franjas. Botões dourados faziam o contorno. Sabe os cromados que uma Harley tem? Essa tinha o triplo. Tudo para combinar com a criatura de quase 2 metros de altura. E forte. Muito forte. Bem nutrido. Deve tomar muito leite e proteínas. Também vestido ou decorado em branco. Sobre-calças de couro branco com longas franjas e muitos arrebites metálicos, presa por alças metalizadas no cinturão com uma grande fivela da Harley e o símbolo de Paz-e-Amor. Uma jaqueta também de couro branco franjeada nos braços e nas costas. Essas jaquetas do modelo imortalizado pelo Elvis Presley. Gola alta. Toda trabalhada. Imaginem o resto. Pois ainda estava tentando observar os outros detalhes que esqueci de buscar a máquina fotográfica. Não daria tempo mesmo.

 

Fechou-se uma roda em torno deles. A estupefação inicial deu lugar a uma onda crescente de agressividade, principalmente de harleiros, a religião da Harley. E logo as ofensas tenderam à agressão física. Mas a valentia alimentada pelo álcool temia o tamanho da criatura. Ninguém queria ser o primeiro a “sair no braço” com a branca e gigante Libélula do Asfalto. Seus dois companheiros protegiam suas costas. Tudo muito rápido. Chegaram dois policiais e logo mais outros e outros. Um cinturão de proteção em volta dos agredidos. De alguma forma foram convencidos e “convidados” a se retirarem dali. Sumiram com suas motos escoltadas por motos de policiais. Uma vergonha. Lembro ainda que na jaqueta de um dos companheiros do gigante estava escrito em inglês: Woodstock – eu estava lá. Infelizmente não poderão colocar o mesmo desse encontro. Mas assim é a vida.

 

 

Para muitos ainda é difícil aceitar o diferente. Mas será tão diferente assim? Pouco tempo ninguém falava ou sabia do acontecido. Principalmente os “valentes” que são corajosos em turba e na língua. E o motociclismo também tem a sua lei do silêncio. Ninguém comenta acidentes e ninguém sabe de nada ruim. Nunca mais soube qualquer fato sobre novos grupos de motociclistas gays. O pessoal brinca em cochichos que uma revolução preparada por Pelotas e Campinas reunindo motos, triciclos e muitos “carros de apoio” vão tingir de rosa a Trans – Veadona, uma auto-estrada ligando aquelas cidades.

 

 

A liberdade individual é a primeira e principal dádiva do ser humano. E o motociclista é um modelo de liberdade. Respeitemo-nos!        

Moto - Paixão Eterna - 17 - 2017 - Rota 66

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