Pealos!
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lgum iluminado cravou que o “Rio Grande é a pátria a cavalo” e talvez nenhum estado dessa falsa federação use tanto o termo “pealar” e seus derivados como o gaúcho. T. Jordans, o Filósofo do Apocalipse, ensina que o “gaúcho é um ente universal como a atmosfera, sofre com alguns buracos de ozônio, mas cresce e lança seu laço em todos os horizontes”. Pealar é envolver com o laço, é laçar nas suas mais incontáveis formas e versões. E esse linguajar despojado e afetuoso traz um coração pealado para o campo da nossa vida. Os pealos da paixão são os mais fortes e duradouros, muitos se transformam no amor mais ofegante ou sublime, outros são estrelas no manto negro do firmamento e trazem a sua luz pulsante num ritmo similar à batucada do coração. Uma princesa encantada nos joga seu laço luminoso ou num tiro de boleadeiras nos envolve num aconchegante abraço e o perfume cria nome, identidade e memória.
Crônicas & Agudas
Creio que na origem do termo está a simbologia dos pés envolvidos pela corda, pelo tirante de couro ou qualquer outro. Pegar pelos pés! Pé-a-lar! Pelo desdobramento da palavra, apurando essa sinfonia, se pega pelos pés e termina num lar. Isso é real. Inclusive entre o homem e o animal. Os primeiros habitantes do pampa desconheciam o cavalo que aqui desceu dos navios espanhóis, mas conheciam e eram exímios na arte da caça e da guerra com as boleadeiras. Os potros bravios e devoradores das longas distâncias dessa terra acossada pelas intempéries e sedenta de sangue e de combates eram capturados depois de derrubados pela boleadeira dum braço charrua. O charrua levava o cavalo para um banhado e atolado na água e no barro até a paleta ali era pacificado e aceitava o homem como seu companheiro e foram os melhores cavaleiros, os mais exímios que a história recusa reconhecer. O pealo que fundiu dois seres. O charrua foi exterminado pelos espanhóis e pelos portugueses, mas o cavalo ainda sente o pealo do amor do homem.
Cr & Ag
Ansiamos, almejamos, desejamos ser pealados? Todos nós! Algum tipo de pealo nos aguarda e por ele estamos sempre à espreita. Pelo bem e pelo mal. Como sempre e como em tudo nessa vida sofrida. Feche os olhos um tempo! Pense nos pealos que a vida lhe deu. Tanto naqueles que o derrubou e achou que não iria mais se levantar, se erguer e continuar, como sendo ardentemente pealado por algo que traz uma lágrima de felicidade. Os pealos dolorosos serão caminhos que devemos evitar, que alertaremos para que outros não sigam. O coração pealado tem uma memória eterna e tanto pode se contentar com um único pealo como pode querer repetir à exaustão até encontrar o pealo definitivo. Somos seres de amor, mas também somos portadores do defeito original e muitos continuam e serão pealados pelo lado negro da força e se permitirão continuar idolatrando o ruim que ficará pior.
Cr & Ag
Um abraço! Substitua as três primeiras letras de abraço e coloque no seu lugar um “L”. Veja que surgiu, nasceu, partejou-se “Laço”. Abraçar é laçar. Abraçar é pealar com os braços. Abraçar é pealar com o coração. O abraço é um pealo que nos une, unifica, funde, verte um amálgama e ensaia uma sinfonia que irá se irradiar muito além daqueles dois seres que deveriam ser sempre de luz. Que o pealo tenha sempre a luz do amor, da humildade e da gratidão. Jamais da posse do outro ou do ódio sombrio das intenções mesquinhas e malignas. Se a crônica o pealou, de qualquer forma o abraçou? Dê continuidade sempre. Se não o pealou, faça melhor!
2018 – 02 – 27 Fevereiro – Pealos – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião