Saibam todos que lerem estas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas motocicletas que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do céu!
O Acidente!
Há muito tempo, as minhas viagens têm uma característica especial: a chuva. O tempo pode estar bom com o céu sem nenhuma nuvem, mas no dia marcado para sairmos a indefectível acompanhante ali está de plantão – a chuva. Estou me tornando um especialista em turismo motociclístico com chuva. É chuva de tudo que é jeito e feitio. Acredito que só falta o granizo de meio quilo. Vamos bater na madeira (molhada da chuva). Quando na ida temos uma chuva torrencial, muitas vezes temos sorte no retorno, a chuva é mais leve, light, soft. Como se diz em Viamão: — chuvinha de fazer lordo (parafraseando, lodo=barro, lama com lordo=bunda, poupança, na terminologia viamonense).
Tempo carrancudo. Fechado mesmo. Muito mal encarado. Até parecendo militante do MST-MC (1). A BR 101 tal e quais enormes cobras negras deslizando em sentidos opostos, carregando em seu dorso uma infinidade de caminhões. Jamantas, carretas imensas e carregadas. E entre elas, disputando o pequeno espaço restante estavam os automóveis, camionetas e, por incrível que possa parecer, as motocicletas. As nossas motos.
A minha moto chama-se Morgana VII(2). Após a praia de Camboriú a chuva resolveu compensar a sua falta no Nordeste. Era muita água. Os caminhões levantando um spray de óleo-água-barro tornavam as viseiras dos capacetes borradas. O dedo indicador esquerdo serve de limpador de viseira. Dentro dos carros, as pessoas assistiam estarrecidas, abismadas, como casais de motocicleta estavam enfrentando aquele tempo e naquela estrada. Mas de moto não se deve parar, deve-se tocar para vencer o clima ruim. Logo virá estrada melhor. Assim esperamos. Assim se pilota, diminui a velocidade e aumenta a adrenalina e os cuidados. As motos iam superando os demais veículos, principalmente serra acima. Serra abaixo, os veículos pesados até nos ultrapassavam. Infelizmente, a rotina da 101 começou a aparecer: acidente. Uma imensa carreta Volvo não conseguindo vencer uma curva em descida, encontrou um barranco salvador. Sim o barraco segurou o impacto da carga tombada antes de um precipício que a névoa com chuva impedia de enxergar-se o fundo. Talvez nem fundo tivesse! Ali já estava a Polícia Rodoviária. Cones listrados desviando o trânsito para meia pista. Estrada esgoelada. A tensão e a atenção devem redobrar em acidentes.
Nossas motos se alternavam em diagonal. Distância segura. Tocada firme. Os companheiros de trás sinalizavam e abriam espaço para uma carreta em velocidade alucinante. Ao passar por nós, jogou uma ducha de água e a cauda nevoenta marcou o seu rastro. A estrada fazia um “S” duplo. Entre nós e a carreta somente a estrada e a chuva. Atrás, mais e mais caminhões. Subitamente, a carreta começou a atravessar-se na estrada. Como uma contorção. Como se uma cólica entortasse seu aço. Não acreditei no que estava vendo. Parecia em câmara lenta.
O cavalo (3) riscava seus pára-choques no divisor de pistas em concreto. Faíscas saltavam como relâmpagos. Pedaços de fibra de vidro ou plástico voavam. A carroceria adiantou-se ao cavalo e a carga de bananas saltava como milhos de pipocas em banha fervente. Os cachos explodiam no asfalto molhado. Freios acionados de modo a não deslizar ou travar violentamente as rodas da moto, equilibrando a força entre o pé direito e a mão direita (4). Rápida olhada nos retrovisores e a outra moto devia estar fazendo o mesmo. Mas outro terror se avizinhava, os faróis dos caminhões cresciam rapidamente atrás de nós. Com certeza estavam com as mesmas dificuldades. Poderíamos ficar encaixotados, imprensados.
Com o cavalo arrastando-se no concreto das divisórias de pistas, logo capotou. A fera, a carreta, ainda deslizava se fragmentando e à sua carga. Desviamos de alguns cachos de banana. Só Deus sabe como! Súbito abriu-se uma fresta, uma brecha, um espaço entre a ferragem acidentada e o concreto. A decisão única a ser tomada: tínhamos que passar ali. Se não tentássemos, o risco seria ficar compactado entre os caminhões. Aceleramos. Fechamos o punho (5) direito e as motos, como se entendessem o mortal perigo, responderam com energia e firmeza. Passando pelo portal foi como se nascêssemos novamente por uma vagina disforme e mortal. Cerca de cem metros adiante, paramos. Ainda se escutava o impacto de ferro contra ferro. Aço contra aço. E pessoas dentro das ferragens retorcidas. Tremíamos, ríamos, chorávamos e agradecíamos aos anjos-de-guarda pela proteção. Os coitados dos anjos deviam estar depenados e sem asas a estas horas. Retornamos a pé para prestar ajuda…
Telefone tocando. Era a portaria do hotel nos acordando conforme solicitado na noite anterior. Pijama encharcado de suor. Lençóis molhados de profusa sudorese. Corpo todo dolorido como se tivesse sido espancado. A esposa preocupada em saber que tipo de pesadelo tinha passado. Dizia que tentara me acordar e que eu parecia dentro de um transe. Respondi-lhe que não lembrava de nada. Evitei contar-lhe. Os companheiros estavam preocupados durante o café. A chuva continuava torrencial e teríamos que subir a BR 101 para São Paulo. Fiz uma prece silenciosa ao Mestre e pedi a sua proteção.
A estrada e a chuva… Sabes? Tu passares por trechos de estrada e lugares e teres a nítida sensação de ter estado ali? Tamanhos e cores de caminhões? Tinha até a carreta de bananas que passou por nós, em sonho, serra abaixo na curva em esse… Serra com pilotagem em dificuldade extrema, mas chegamos bem. Muito bem. E a felicidade do sonho ou pesadelo não ter sua concretização no mundo real. Será que foram as preces? Mensagem?
(1) MST-MC – Motociclistas Sem Tesão Motoclube.
(2) Muitos motociclistas colocam nomes em suas máquinas fantásticas.
(3) Parte da cabina e do motor que traciona a carga.
(4) A motocicleta freia com a mão (roda dianteira) e o pé direitos (roda traseira) simultaneamente e equilibrando o esforço para evitar o travamento brusco e a queda.
(5) O acelerador da motocicleta é no punho direito, fazendo a rotação.