O Acidente! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Total. Crônica 19. 29 março 2018

 

 

Saibam todos que lerem estas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas motocicletas que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do céu!

 

 

 

O Acidente!

 

Há muito tempo, as minhas viagens têm uma característica especial: a chuva. O tempo pode estar bom com o céu sem nenhuma nuvem, mas no dia marcado para sairmos a indefectível acompanhante ali está de plantão – a chuva. Estou me tornando um especialista em turismo motociclístico com chuva. É chuva de tudo que é jeito e feitio. Acredito que só falta o granizo de meio quilo. Vamos bater na madeira (molhada da chuva). Quando na ida temos uma chuva torrencial, muitas vezes temos sorte no retorno, a chuva é mais leve, light, soft. Como se diz em Viamão: — chuvinha de fazer lordo (parafraseando, lodo=barro, lama com lordo=bunda, poupança, na terminologia viamonense).

 

 Tempo carrancudo. Fechado mesmo. Muito mal encarado. Até parecendo militante do MST-MC (1). A BR 101 tal e quais enormes cobras negras deslizando em sentidos opostos, carregando em seu dorso uma infinidade de caminhões. Jamantas, carretas imensas e carregadas. E entre elas, disputando o pequeno espaço restante estavam os automóveis, camionetas e, por incrível que possa parecer, as motocicletas. As nossas motos.

 

A minha moto chama-se Morgana VII(2). Após a praia de Camboriú a chuva resolveu compensar a sua falta no Nordeste. Era muita água. Os caminhões levantando um spray de óleo-água-barro tornavam as viseiras dos capacetes borradas. O dedo indicador esquerdo serve de limpador de viseira. Dentro dos carros, as pessoas assistiam estarrecidas, abismadas, como casais de motocicleta estavam enfrentando aquele tempo e naquela estrada. Mas de moto não se deve parar, deve-se tocar para vencer o clima ruim. Logo virá estrada melhor. Assim esperamos. Assim se pilota, diminui a velocidade e aumenta a adrenalina e os cuidados. As motos iam superando os demais veículos, principalmente serra acima. Serra abaixo, os veículos pesados até nos ultrapassavam. Infelizmente, a rotina da 101 começou a aparecer: acidente. Uma imensa carreta Volvo não conseguindo vencer uma curva em descida, encontrou um barranco salvador. Sim o barraco segurou o impacto da carga tombada antes de um precipício que a névoa com chuva impedia de enxergar-se o fundo. Talvez nem fundo tivesse! Ali já estava a Polícia Rodoviária. Cones listrados desviando o trânsito para meia pista. Estrada esgoelada. A tensão e a atenção devem redobrar em acidentes.

 

Nossas motos se alternavam em diagonal. Distância segura. Tocada firme. Os companheiros de trás sinalizavam e abriam espaço para uma carreta em velocidade alucinante. Ao passar por nós, jogou uma ducha de água e a cauda nevoenta marcou o seu rastro. A estrada fazia um “S” duplo. Entre nós e a carreta somente a estrada e a chuva. Atrás, mais e mais caminhões. Subitamente, a carreta começou a atravessar-se na estrada. Como uma contorção. Como se uma cólica entortasse seu aço. Não acreditei no que estava vendo. Parecia em câmara lenta.

 

O cavalo (3) riscava seus pára-choques no divisor de pistas em concreto. Faíscas saltavam como relâmpagos. Pedaços de fibra de vidro ou plástico voavam. A carroceria adiantou-se ao cavalo e a carga de bananas saltava como milhos de pipocas em banha fervente. Os cachos explodiam no asfalto molhado. Freios acionados de modo a não deslizar ou travar violentamente as rodas da moto, equilibrando a força entre o pé direito e a mão direita (4). Rápida olhada nos retrovisores e a outra moto devia estar fazendo o mesmo. Mas outro terror se avizinhava, os faróis dos caminhões cresciam rapidamente atrás de nós. Com certeza estavam com as mesmas dificuldades. Poderíamos ficar encaixotados, imprensados. 

 

Com o cavalo arrastando-se no concreto das divisórias de pistas, logo capotou. A fera, a carreta, ainda deslizava se fragmentando e à sua carga. Desviamos de alguns cachos de banana. Só Deus sabe como! Súbito abriu-se uma fresta, uma brecha, um espaço entre a ferragem acidentada e o concreto. A decisão única a ser tomada: tínhamos que passar ali. Se não tentássemos, o risco seria ficar compactado entre os caminhões. Aceleramos. Fechamos o punho (5) direito e as motos, como se entendessem o mortal perigo, responderam com energia e firmeza. Passando pelo portal foi como se nascêssemos novamente por uma vagina disforme e mortal. Cerca de cem metros adiante, paramos. Ainda se escutava o impacto de ferro contra ferro. Aço contra aço. E pessoas dentro das ferragens retorcidas. Tremíamos, ríamos, chorávamos e agradecíamos aos anjos-de-guarda pela proteção. Os coitados dos anjos deviam estar depenados e sem asas a estas horas. Retornamos a pé para prestar ajuda…

 

 

Telefone tocando. Era a portaria do hotel nos acordando conforme solicitado na noite anterior. Pijama encharcado de suor. Lençóis molhados de profusa sudorese. Corpo todo dolorido como se tivesse sido espancado. A esposa preocupada em saber que tipo de pesadelo tinha passado. Dizia que tentara me acordar e que eu parecia dentro de um transe. Respondi-lhe que não lembrava de nada. Evitei contar-lhe. Os companheiros estavam preocupados durante o café. A chuva continuava torrencial e teríamos que subir a BR 101 para São Paulo. Fiz uma prece silenciosa ao Mestre e pedi a sua proteção.

 

A estrada e a chuva… Sabes? Tu passares por trechos de estrada e lugares e teres a nítida sensação de ter estado ali? Tamanhos e cores de caminhões? Tinha até a carreta de bananas que passou por nós, em sonho, serra abaixo na curva em esse… Serra com pilotagem em dificuldade extrema, mas chegamos bem. Muito bem. E a felicidade do sonho ou pesadelo não ter sua concretização no mundo real. Será que foram as preces? Mensagem?

 

 

 

 

(1) MST-MC – Motociclistas Sem Tesão Motoclube.

(2) Muitos motociclistas colocam nomes em suas máquinas fantásticas.

(3) Parte da cabina e do motor que traciona a carga.

(4) A motocicleta freia com a mão (roda dianteira) e o pé direitos (roda traseira) simultaneamente e equilibrando o esforço para evitar o travamento brusco e a queda.

(5) O acelerador da motocicleta é no punho direito, fazendo a rotação.

Moto - Paixão Eterna - 19 - 2017 - Atacama

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