A Tarrafa!
[“Há dias em que a gente se sente como quem partiu ou morreu…]
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entia-me deslumbrado e um tanto apaixonado ao vislumbrar uma cadência mágica do pescador arremessar a sua tarrafa que se abre como um véu de noiva (outra designação popular da tarrafa) ao vento e cai sem estrépito na água indo num mergulho suave juntar seus braços vertebrados pelo chumbo com a prisão dos peixes e de outros seres aquáticos. Tanto do homem solitário e silencioso numa margem quanto de vários que se alternam num bailado som a luz do luar ou ao cintilar da espuma cravejada pelo sol. Há Oliveiras caçadores e/ou pescadores. Todos Colorados! Seu Aldo era um desses modelos de Oliveira que mesclava a disciplina do velho Olympio com a doçura da vó Celina. Pescava em rios, lagoas e no mar. Cada época com seus peixes e seus instrumentos – caniços, carretilhas, redes das mais variadas, arrastões, espinheis, fisgas e… tudo que a imaginação cativasse. Nunca foi um tarrafeador de sua predileção. Eu já enveredei por esse meandro e jogava uma tarrafa nota seis. Na minha rua havia o Seu Jorge, o Jorge do Armazém, que jogava uma tarrafa sem igual. Tarrafa grande, de profissional e dos bons, nota 10. Abria a rede num círculo perfeito – ensinou-me no gramado – ou ao comprido num rio, num valo ou em alguma água povoada de tocos de árvores.
Crônicas & Agudas! – Cr & Ag
Nas barras, como em Imbé, Torres e Laguna, sentava-me em alguma pedra ou simplesmente me deixava encantar com essa arte que enobrece o seu ofício e eleva o pescador ao doutorado como tarrafador ou tarrafeador. Admirável. O que a tarrafa recolhe no seu amplexo? Desde as algas e restos locais aos mais variados seres das águas – siri, mariscos, peixes com e sem escamas, invertebrados. “Caiu na rede é peixe” – diz uma expressão popular. O bom pescador escolhe a malha adequada da rede para livrar os filhotes e sempre retorna à água aqueles seres que não servirão de alimento. A pescaria jamais deve ser para ostentação ou regozijo pueril. No entanto, a pescaria traz surpresas enroladas e emaranhadas e assim foi quando os pescadores retiraram das águas a Nossa Senhora Aparecida. Os exemplos se somam e iluminam nossa fé e nossas crenças de que o Pai Celestial pode tocar aquele véu ou aquele entrelaçado de fios em rede.
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Tarrafear ou tarrafar! Metáforas e analogias! Um amigo dono de farmácia me ensinava: – “A tarrafa está sempre me pegando. Eles até sabem que eu sei. Só trocar de empregados não tem resolvido. Descobri que a tarrafa pode pegar, mas não pode acabar com a pescaria. Se me quebrarem é ruim pra todo mundo”. Um amigo, namorador de dar inveja ao Don Juan, colocava um Correio do Povo (jornal que nos áureos tempos era de mega tamanho) na axila esquerda e saia para tarrafear a noite nas sombras do litoral de Cidreira. Certo manhã, meio desconsolado, assim como quem recebe uma intimação de pensão alimentícia, se lamuriava: – “Tarrafeei toda a noite uma morena tomada de belas curvas, com os peitos batendo continência pro general e terminei com uma amiga dela, meia petiça e quase anoa nos cômoros atrás do Beira Mar (hotel)”.
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Assim todos somos pescadores. Ele, o Cristo, foi um “pescador de homens”. A polícia pesca o tempo todo. Lança anzóis, arma redes. Estende espinhéis e arremessa tarrafas. Numa dessas tarrafeadas da polícia veio um doleiro enredado e outras criaturas perigosas. E as tarrafas continuaram a serem jogadas e veio finalmente uma lula. Na natureza a lula é um ser das profundezas, emerge das sombras, é um predador terrível. Eu já acredite, escrevi, elogiei e admirei Lula-homem e torci pela sua cura do câncer e da enfermidade moral que se exteriorizava virulentamente. Infelizmente perdi. Nós perdemos. As pessoas, ao morrer, podem doar seus órgãos para a saúde de outros. As criaturas nobres doam dignidade e exemplos de Luz e Amor para a humanidade e atos que mudam a história e nos elevam no patamar civilizatório. Lula-homem enredado na tarrafa da lei e da honra nos deixará a dor de sermos traídos e traídos constantemente sem a dignidade de reconhecer seus erros e pedir o perdão envergonhado. É triste demais!
2018 – 04 – 10 abril – A Tarrafa – EDS Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião