QUANTO CUSTA ESSA MOTO?
É sempre bom lembrar que para uns e outros há uma importante diferença entre motoqueiro e motociclista. Motoqueiro é o tipo pejorativo, que pilota comprometendo a sua segurança e dos outros. Motociclista é o sujeito que pilotando motocicleta respeita as leis, os companheiros de adversidade (pilotos e motoristas que padecem nas estradas e ruas brasileiras) e principalmente a si mesmo. Não é questão de tamanho de moto ou o seu preço. O indivíduo pode estar pilotando uma moto de oitenta mil reais e ser um motoqueiro e ao contrário, sendo um motoboy numa 125cc e ser um motociclista. Essa é uma lembrança que para o leigo ou “não-iniciado” pode ser importante para puxar assunto com um piloto de motocicleta. Alguns podem se ofender. Tem gente com escamas demais. Outros de menos. Acredito que todos nós já fomos motoqueiros em algum tempo. Seria como a fase anal ou oral. Ou mais simples ainda – o jardim de infância do motociclismo. A tendência é evoluir sublimando características.
O sujeito viajar de carro é muito diferente de viajar de moto. O carro está automaticamente de isolando do mundo. No carro tu vês a natureza. Na motocicleta tu fazes parte da natureza. A liberdade explode no motociclismo. Principalmente no turismo de motocicleta. Mas a visão se turva pelas regras da sociedade em separar as pessoas pelo poder aquisitivo. Quando viajava em motocicleta de média ou pequena cilindrada, principalmente em dias de chuva ou com muito frio, as pessoas no interior dos automóveis aquecidos nos olhavam com ar de compaixão. Sempre que paramos em postos de gasolina ou restaurantes a margem de estradas, pessoas olham aquele casal com a moto coberta de bagagem e vem alguém conversar: donde estão vindo? Para onde vão? São de que cidade? Viamão? Onde fica isso? Não é perigoso? Eu jamais andaria de moto assim? Cruz credo! Com esse tempo viajar de moto? O que, 3500 km? Estão doidos! Aí adiante teve um acidente que morreu dois motoqueiros debaixo de uma jamanta de Uberlândia? Vocês trabalham em que? Por que não viajam de carro, é promessa vir aqui em Aparecida?
E assim vai. A situação melhora quando observam o grisalho de meus cabelos. Melhora mais ainda quando tu dizes a tua profissão, em nosso caso que sou médico e cirurgião e minha esposa é cirurgiã-dentista. Aí outros assuntos surgem. Novas portas se abrem, pois a tendência de muitos é ver o motociclista como um marginal. Aí encontram alguém que faz do motociclismo um grande amor a ser compartilhado. Simpatias afloram e com freqüência traçam-se paralelos e encontra-se algum tipo de vínculo ou conhecimento mútuo.
É inevitável uma série de perguntas sobre a viagem e principalmente sobre a moto. Atualmente a nossa companheira é uma Kawasaki Vulcam Nomad 1500 cc, carinhosamente chamada de Morgana, um misto de fada-deusa-feiticeira. A sua cor verde perolizada é altamente chamativa. Seu porte avantajado com bancos que são verdadeiras poltronas, suas malas acopladas, remetem a um mundo de sonhos. Mas vem sempre a indefectível pergunta: — quanto custa essa moto? Até para quem sente o ego inflar em mostrar seu “poder econômico”, pode ser um bom momento. Mas não é assim para nós e a maioria dos motociclistas. Dinheiro é importante, mas o espírito é muito mais. E motociclismo é um estado de espírito. E se hoje temos o merecimento de pilotar essa máquina fantástica, lembramo-nos de primeira Honda ML 125 1980 e todas as outras que se sucederam. Assim como dos anos em que ficamos sem moto por problemas ou dificuldades outras. Mas sempre persistindo no desejo e no amor.
A resposta que tenho oferecido é a seguinte: quanto custa um sonho? Quanto custa uma paixão? Quanto custa um amor? Quanto custa a liberdade? Quanto custa estar rodando por uma estrada sentindo os odores em profusão? Quanto custa o frescor de uma manhã em que acordas e voas com os pássaros? Quanto custa ter a mulher amada em tua garupa abraçada compartilhando a vida? Quanto custa estar aqui conversando com novas pessoas, como tu ou vocês, que se não fosse pela moto talvez jamais se aproximariam? E assim vamos… Se a criatura não desiste do intento e insiste em saber o valor somente, então dizemos aquilo que ele espera ouvir. Ah, em dólar!
2018 – 30 maio.
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Moto! Paixão Eterna
Série – 24


