Toninho Bola Curta! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. 04 Julho 2018.

 

 

“SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU”.

 

 

TONINHO BOLA CURTA!

 

 

Acredito que malandro, mas malandro mesmo é o parafuso, já que é o único a nascer de cabelo repartido ao meio e de camiseta listrada. No motociclismo tem umas criaturas que nem é preciso conhecer mais de perto para sentir que tem algum parafuso especial. Ou sobrando. Ou até faltando. E o Toninho é uma dessas criaturas fantásticas. A sua vida é um filme de Spielberg. Já foi um pouco de tudo e quase nada de qualquer coisa. Mas é muito boa gente. É um cara impossível de se conviver permanentemente, daí a sua troca constante de mulheres, motos, triciclos e de grupos. Também é impossível brigar com ele, por mais brabo que alguém esteja sempre acaba em escancaradas risadas e boas cervejas ou refris.

 

Mas como você já está curioso pelo significado do apelido, vamos explicar. Geralmente o cara “bola curta” é assim chamado porque é um mau jogador de futebol, como aqueles que o Internacional contrata e vem fazer turismo em Porto Alegre. Essas são outras bolas. Os problemas do Toninho eram suas outras bolas. Os testículos. Quando estava naquela fase de idade em que o garoto quer abandonar a meninice e ainda engatinha na adolescência, os hormônios estão em alto giro, em que os garotos fazem torneios masturbatórios, em que alguns excedem até a fraqueza imperar e outros criam cabelos nas mãos, o Toninho reparou, apercebeu-se que tinha somente um testículo no escroto.

 

O outro testículo estava na virilha, não havia descido completamente. Depois do pânico inicial, veio a cirurgia corretiva e a cura. Mas tinha que explicar para todo mundo que teve um problema de “bola curta”: — Mas agora tá tudo legal.  – dizia.

 

E essa foi a sua fase de iniciação sexual e de iniciação sobre rodas. Do triciclo passou para a bicicleta de quatro rodas, logo retirando as rodinhas acessórias. Teve a fase do patinete e do carrinho de lomba. Várias bicicletas passaram até que certo dia veio experimentar uma moto. Aí seu coração ficou cativado. Definitivamente. Sonhos em profusão intercalavam-se com longas noites acordadas traçando planos de como adquirir a sua. E tudo isso foi por andar na carona de um pretendente a cunhado. O cara queria fazer uma amizade com o Toninho para tentar ‘ganhar’ sua irmã. Mas essa já é outra história.

 

E a primeira moto foi uma Honda Turuna. Isto é, os papéis diziam ser uma Turuna. Sabem quando os ferros-velhos adquirem os refugos do Detram. Pois foi assim, a primeira moto que foi trocada por uma guitarra. Juntou a coisa na caçamba da camionete do Tuca do Ó e depositou num galinheiro desativado nos fundos do quintal da namorada, a Verinha Signal – que sorriso! Boca 1001!). E ali foi remontando a fera, como a chamava:

 

 – Essa fera tem espírito cara, ela até conversa comigo, esse dias eu tava passando uma flanela no guidon e ela escapou um jato de óleo na minha perna.

 

Parece que agora o homem não dormia mais. A qualquer hora da madrugada, escutavam a sua voz conversando com a “Fera Ferida”, assim batizada com um banho de cerveja gelada, e a luz sempre acesa. Até a Verinha Signal já estava com ciúme do ‘love’. Certo dia, o Toninho Bola Curta chegou com um banco novinho, lustroso, cintilante, ganho numa cancha de jogo do osso.

 

 – Verinha, minha gata, aqui está o sofá que em que vamos embalar o nosso amor. E não deu outra. Dali em diante, ela lhe entregava o salário inteirinho para concluir a reforma da Fera Ferida. A reforma avançava: chicote elétrico, carburador emprestado, um tanque recuperado recebeu uma pintura personalizada, um farol de CB400 (precisaria de luz boa à noite), bateria nova. Nova mesmo! Foi um presente de noivado da sogra e dos vizinhos. A velha que já estava louca de vontade que ele terminasse o conserto da moto e desencalhasse a Verinha.  E dos vizinhos que perdiam o sono com o motor da Fera Ferida sendo afinado. E dos gemidos esganiçados de amor da Verinha Signal.

 

Os amigos colaboravam. Uma corrente estava formada. Toda a região aguardava o grande dia. Tinha até político faturando nas reuniões. O grande dia chegou. Criançada correndo. A turma do pagode. A turma do futebol. Os companheiros do Quase Fumo Motoclube. E do motoclube rival – o Fumo & Vortemo MC. Foguetes. Buzinas e sirenas abertas. O Toninho estreava um capacete tipo pinico de nazista e a Verinha com um capacete fechado, pois a dentadura nova tinha atrasado no protético. Pose para foto. De novo apareceu político para a foto. Trepou novamente na Fera Ferida. Deu uma batida com o coturno de pára-quedista no areião. Puxou o afogador, de leve para não afogar. E deu a primeira pedalada. A segunda. Terceira e quarta. Nada. ‘Um puta que pariu’ escutou-se no silêncio. Ajeitou o pedal com a mão procurando achar o melhor ponto. Preparou o coturno e mandou ver. A fera tossiu, arrotou, espirrou, deu algumas engasgadas e após fechar o punho a lenta equalizou. Era só o toc-toc-toc daquele coração renovado. A platéia aplaudia e urrava. Testou o farol: luz alta, luz baixa, tudo OK. Piscas: direita, esquerda, OK. Luz de freio: OK. Buzina, uma Fiann de três cornetas: OK. A plebe pedia: — Anda! Anda! Anda! A turma da Loira Suada Motoclube pedia: Experimenta! Experimenta! Experimenta!

 

Chamou a Verinha para a garupa. Aconchegado pelas duas amadas, puxou o manete da embreagem, com o coturno cravou uma primeira. Acelerava para a turma sentir o berro do escapamento da Fera Ferida. Então soltou a embreagem. A desgraça. Deveria ter feito esse teste antes. A Fera Ferida deu um salto. Só que um salto para trás. Por mais incrível que possa parecer, aconteceu e aquele povão estava de testemunha, a moto veio em marcha à ré. Até atropelou um pastor que ali dava a bênção. O resto nem preciso lhes contar, vocês podem imaginar.

 

E o Toninho? Pessoal, o golpe foi tamanho que ainda está se recuperando do choque. Quase ficou o Toninho Sem…

 

Crônica 25 – Série: Moto! Paixão Eterna

Republicada 04 Julho 2018.

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 Moto - Paixão Eterna - 25 - 2017 - 1a moto Transamazônica

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