“SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU”.
TONINHO BOLA CURTA!
Acredito que malandro, mas malandro mesmo é o parafuso, já que é o único a nascer de cabelo repartido ao meio e de camiseta listrada. No motociclismo tem umas criaturas que nem é preciso conhecer mais de perto para sentir que tem algum parafuso especial. Ou sobrando. Ou até faltando. E o Toninho é uma dessas criaturas fantásticas. A sua vida é um filme de Spielberg. Já foi um pouco de tudo e quase nada de qualquer coisa. Mas é muito boa gente. É um cara impossível de se conviver permanentemente, daí a sua troca constante de mulheres, motos, triciclos e de grupos. Também é impossível brigar com ele, por mais brabo que alguém esteja sempre acaba em escancaradas risadas e boas cervejas ou refris.
Mas como você já está curioso pelo significado do apelido, vamos explicar. Geralmente o cara “bola curta” é assim chamado porque é um mau jogador de futebol, como aqueles que o Internacional contrata e vem fazer turismo em Porto Alegre. Essas são outras bolas. Os problemas do Toninho eram suas outras bolas. Os testículos. Quando estava naquela fase de idade em que o garoto quer abandonar a meninice e ainda engatinha na adolescência, os hormônios estão em alto giro, em que os garotos fazem torneios masturbatórios, em que alguns excedem até a fraqueza imperar e outros criam cabelos nas mãos, o Toninho reparou, apercebeu-se que tinha somente um testículo no escroto.
O outro testículo estava na virilha, não havia descido completamente. Depois do pânico inicial, veio a cirurgia corretiva e a cura. Mas tinha que explicar para todo mundo que teve um problema de “bola curta”: — Mas agora tá tudo legal. – dizia.
E essa foi a sua fase de iniciação sexual e de iniciação sobre rodas. Do triciclo passou para a bicicleta de quatro rodas, logo retirando as rodinhas acessórias. Teve a fase do patinete e do carrinho de lomba. Várias bicicletas passaram até que certo dia veio experimentar uma moto. Aí seu coração ficou cativado. Definitivamente. Sonhos em profusão intercalavam-se com longas noites acordadas traçando planos de como adquirir a sua. E tudo isso foi por andar na carona de um pretendente a cunhado. O cara queria fazer uma amizade com o Toninho para tentar ‘ganhar’ sua irmã. Mas essa já é outra história.
E a primeira moto foi uma Honda Turuna. Isto é, os papéis diziam ser uma Turuna. Sabem quando os ferros-velhos adquirem os refugos do Detram. Pois foi assim, a primeira moto que foi trocada por uma guitarra. Juntou a coisa na caçamba da camionete do Tuca do Ó e depositou num galinheiro desativado nos fundos do quintal da namorada, a Verinha Signal – que sorriso! Boca 1001!). E ali foi remontando a fera, como a chamava:
– Essa fera tem espírito cara, ela até conversa comigo, esse dias eu tava passando uma flanela no guidon e ela escapou um jato de óleo na minha perna.
Parece que agora o homem não dormia mais. A qualquer hora da madrugada, escutavam a sua voz conversando com a “Fera Ferida”, assim batizada com um banho de cerveja gelada, e a luz sempre acesa. Até a Verinha Signal já estava com ciúme do ‘love’. Certo dia, o Toninho Bola Curta chegou com um banco novinho, lustroso, cintilante, ganho numa cancha de jogo do osso.
– Verinha, minha gata, aqui está o sofá que em que vamos embalar o nosso amor. E não deu outra. Dali em diante, ela lhe entregava o salário inteirinho para concluir a reforma da Fera Ferida. A reforma avançava: chicote elétrico, carburador emprestado, um tanque recuperado recebeu uma pintura personalizada, um farol de CB400 (precisaria de luz boa à noite), bateria nova. Nova mesmo! Foi um presente de noivado da sogra e dos vizinhos. A velha que já estava louca de vontade que ele terminasse o conserto da moto e desencalhasse a Verinha. E dos vizinhos que perdiam o sono com o motor da Fera Ferida sendo afinado. E dos gemidos esganiçados de amor da Verinha Signal.
Os amigos colaboravam. Uma corrente estava formada. Toda a região aguardava o grande dia. Tinha até político faturando nas reuniões. O grande dia chegou. Criançada correndo. A turma do pagode. A turma do futebol. Os companheiros do Quase Fumo Motoclube. E do motoclube rival – o Fumo & Vortemo MC. Foguetes. Buzinas e sirenas abertas. O Toninho estreava um capacete tipo pinico de nazista e a Verinha com um capacete fechado, pois a dentadura nova tinha atrasado no protético. Pose para foto. De novo apareceu político para a foto. Trepou novamente na Fera Ferida. Deu uma batida com o coturno de pára-quedista no areião. Puxou o afogador, de leve para não afogar. E deu a primeira pedalada. A segunda. Terceira e quarta. Nada. ‘Um puta que pariu’ escutou-se no silêncio. Ajeitou o pedal com a mão procurando achar o melhor ponto. Preparou o coturno e mandou ver. A fera tossiu, arrotou, espirrou, deu algumas engasgadas e após fechar o punho a lenta equalizou. Era só o toc-toc-toc daquele coração renovado. A platéia aplaudia e urrava. Testou o farol: luz alta, luz baixa, tudo OK. Piscas: direita, esquerda, OK. Luz de freio: OK. Buzina, uma Fiann de três cornetas: OK. A plebe pedia: — Anda! Anda! Anda! A turma da Loira Suada Motoclube pedia: Experimenta! Experimenta! Experimenta!
Chamou a Verinha para a garupa. Aconchegado pelas duas amadas, puxou o manete da embreagem, com o coturno cravou uma primeira. Acelerava para a turma sentir o berro do escapamento da Fera Ferida. Então soltou a embreagem. A desgraça. Deveria ter feito esse teste antes. A Fera Ferida deu um salto. Só que um salto para trás. Por mais incrível que possa parecer, aconteceu e aquele povão estava de testemunha, a moto veio em marcha à ré. Até atropelou um pastor que ali dava a bênção. O resto nem preciso lhes contar, vocês podem imaginar.
E o Toninho? Pessoal, o golpe foi tamanho que ainda está se recuperando do choque. Quase ficou o Toninho Sem…
Crônica 25 – Série: Moto! Paixão Eterna
Republicada 04 Julho 2018.