“Ficou cravado no balcão com os joelhos dobrados”! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 06 Novembro 2018.

 

“Ficou cravado no balcão com os joelhos dobrados”!

 

E

stórias, talvez algumas lendas, mas uma “macanuda” porção da história traz a arma branca em suas variadas versões e modalidades atrelada ao espírito humano. Desde a ancestral e primitiva pedra lascada, ou sílex, até a sofisticação técnica da mais perfeita têmpera do metal. Atrela-se no inconsciente do homem o sentimento de matar ou de mutilar por ódio, cobiça ou por oferenda ao seu deus. Em todos os tempos, inclusive as crianças são mortas como oferendas à divindades para sucesso no amor, na guerra ou na plantação, por exemplo. Imolaram-se guerreiros e em algumas etnias suas vísceras, como o coração e o cérebro, eram devoradas pelos vencedores. Grandes guerreiros eram tratados como reis, com todos os prazeres terrenos, para num certo dia especial, no altar nobre do topo da pirâmide, o seu coração ser habilmente arrancado pelo sacerdote e ainda pulsando ser ovacionado pelo povo sedento de mais sangue. Assim foram astecas e maias na história.

Crônicas & Agudas

Certa feita, num bolicho no interior de Viamão, uma discussão prosseguia num frenesi mortal. Um dos oponentes, com revólver na cintura, era policial militar. O outro trazia a tradicional e lendária adaga gaúcha trespassada na guaiaca de couro curtido. Seriam dois leões ou dois touros ferozes num desafio de final anunciado. Quando “eu te mato” saiu da boca com raias de saliva viscosa, ele sacou do revólver. A mão da adaga foi mais rápida e o aço cintilou como um raio antes de se tornar trevas e num clanque seco a lâmina entrou fundo na barriga do adversário cravando-se firmemente na madeira do balcão. Seus olhos se arregalaram e o revólver caiu na poeira do chão encardido. Se olharam, agora sem palavras. E um dos touros dobrou os joelhos e a cabeça foi pendendo degrau a degrau até se encaixar no peito lavado de um suor gelado e fétido. A força fatal do braço foi tanta que a adaga cravada na madeira sustentou o peso do homem mortalmente ferido. O vitorioso do feroz embate serenou e outros seriam travados em sua vida de peleador.

Cr & Ag

A Guerra dos Farrapos ou nas intermináveis batalhas de irmão contra irmão que tisnaram de rubro o solo do pampa gaúcho por quase uma eternidade, conta-se que depois do enfrentamento entre as tropas do Rio Grande de São Pedro e os imperiais, aquela planície estava coalhada de corpos e urubus bailando e bicando na fartura. A maioria eram defuntos, mas alguns ainda dando os derradeiros estertores de vida. Os reforços gaúchos chegaram e foram varando o campo em busca de feridos para tratar e sepultar os mais importantes. Encontraram um guerreiro trespassado pela lança inimiga numa carga de cavalaria. O homem estava quase de pé. A lança entrava pelo peito e se enterrava na grama encharcada de sangue. Eis que o comandante faz uma pergunta ao guerreiro: – Muita dor homem de Deus? O moribundo responde com um filete rubro brotando de sua boca: – Só dói quando respiro! E assim uma lenda foi partejada.

Cr & Ag

Por característica, a faca exige aproximação da vítima e a sutileza do covarde ou a coragem do destemido. César, o general e imperador romano, recebeu a punhalada mortal no Senado. O assassinato ou a tentativa de matar guerreiros e tudo aquilo que simbolizam não traz somente o ódio do assassino, traz, reveste-se, está no seu âmago o desejo de satisfazer alguma divindade real ou idealizada e se tornar um súdito mais amado e reverenciado pelo seu ato e mútuo sacrifício, seu e do guerreiro. No ódio todos perdem e a vida fica mais cruel. Infelizmente! Somente a nós compete mudar, transmutar ódio em respeito e compreensão.

2018 – 11 – 06 Novembro – Ficou cravado no balcão com os joelhos dobrados – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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