Estripulias!
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á quem duvide da veracidade, mas é do amplo conhecimento a presença de espírito e a argúcia do viamonense. Dizia-se somente do nativo da terra, hoje idolatrado como “raiz”, no entanto, testes laboratoriais e nosocomiais revelam que aqueles oriundos de outras paragens assumem o espírito da terra. Escutei me chamarem: “Primo”! Suspeitei pelo timbre de voz que seria o Dálcio Dorneles, que não é primo por sangue, mas é um ótimo primo por opção. Entortei o nariz e mirei a travessia sinistra defronte o banco Itaú. Era um Goulart! Não havia nem sombra de dúvida, vislumbrei a mão e o pé. Pelo tamanho não há questionamento. E largou o berro: “Edinho quando é que tu vais aparecer lá no rancho pra pescar no açude? Já reservei um balaio de goiabas”. Tocou uma sinetinha do desconfiômetro. Rancho e açude eu entendi. Mas e as goiabas? Um balaio de goiabas? Enquanto meus neurônios se enroscavam buscando o entendimento, o primo se achegou num aperto de mãos. Quase engasguei com a bala de gengibre. “Que negócio é esse de goiaba na pescaria”? O primo, como quem apeia do cavalo, se encostou na murada da lancheria Guará e bateu o taco da bota.
Crônicas & Agudas
“Como goiaba? Não levava goiaba para fazer doce e chimia? Enquanto colhia as goiabas, não comia umas e atirava outras no açude? Pois é isso aí”! Me explicava enquanto limpava as unhas com a faca prateada. Continuei não entendendo muito bem o esquema e pedi que explicasse melhor. E explicou: “As goiabeiras lá de casa estão quebrando os galhos de tanta goiaba. E parece goiaba transexual (seria transgênica?). Grande. Muito grande. E amadurece da noite pro dia. É num assim e já apodreceu. Na carestia de hoje depois da roubalheira descoberta na Lava Jato, nada se perde e tudo se transforma. Comemos goiaba de tudo que é jeito e maneira. Doce e salgada. Tem vaca que dobrou o leite botando goiaba no trato e…” Atalhei a viagem do primo e lasquei: “Vamos pescar com as goiabas”?
Cr & Ag
“Claro Edinho. Ficamos ali na barranca do açude comendo pastel de goiaba enquanto puxamos as traíras e jundiás de mais de 5 kg cada”. Gostei do tamanho dos peixes. “Vamos botar a goiaba no anzol e jogar na água”? O primo cerrou as sobrancelhas e as narinas se arregalaram. “Tá difícil! Vou te explicar bem no trotesito. Abrimos as goiabas. Tiramos os bichos. Pegamos os bichos e iscamos o anzol. Entendeu agora”? Os bichos das goiabas nos anzóis é novidade demais para mim. Explicou mais: “Os bichos são tão grandes como as goiabas. Tamanho de uma ponta de dedo (mostrou o dedo dele – assustador!). O animal é quase cabeludo. O bicho é tão macanudo que quase comeu um sabiá laranjeira. Foi uma briga feia, de perder penas da asa”. E aí? O primo experimentou um animal desses no anzol e trouxe traíras de mais de 5 kg. Vê, de fato eu não vi, mas confio na palavra dele.
Cr & Ag
O tio Cirne usou leite num trator e saiu manteiga na descarga e o bruto atravessou toda a fazenda da Pimenta à noite. Um Fraga gaudério e dos bofes azedos atolou a carreta com duas juntas de boi no fundão da fazenda Boa Vista. Um boizão rosilho das guampas tortas inventou de dar uma rabada na cara do Fraga que fez cair a aguilhada. O homem largou três socos na testa do boi e o bicho berrou e se ajoelhou. Ele aceitou o pedido de perdão do boi e desatolou a carreta. Há testemunhas do ocorrido, infelizmente já foram tropear nos campos do além. Eu já não duvido de quase nada. Antanho, um famoso comerciante viamonense namorou todo um carnaval com a moça mais bonita dos bailes. Venceu a disputa com os outros homens e, sem os entretantos, se prepararam para o ato derradeiro. Eis que a moça tirou a fantasia e… nem lhes conto mais nada. Um antigo delegado de polícia, sabendo o sucedido, largou: “Com aquilo precisava de porte de arma de guerra”! Viamão! E tem muito mais.
2019 – 03 – 26 março – Estripulias – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – www.edsonolimpio.com.br
Da Série - - Irmãos! Gente como a Gente.