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E o Cascão fardou! E goleou. Edson Olimpio Oliveira. 1º Lugar em Crônicas no XII Concurso Literário FECI e Capolat. Junho 2019.

 

 

 

E o Cascão fardou!

E goleou.

Um futebolista do passado, de nome Sarno, escreveu um livro chamado de “Futebol, a Dança do Diabo”. Conta a sua história dentro das quatro linhas do gramado, a sua vida de vestiário, concentrações e as mirabolantes passagens de vários atletas e muitos craques do futebol do passado. Aqui em Viamão City, a Primeira Capital de Todos os Gaúchos, apreciamos  ao extremo oposto ao título do Sarno. Temos: Futebol, o Bailado dos Anjos. E foi nos idos finais da década de 1950, após o Brasil calçar o seu primeiro título mundial nos gramados lamacentos da Suécia que isso aconteceu. E aviso, não saberemos separar a lenda da história, nem o homem do mito.

Contam que seu pai o trouxe na garupa do cavalo vindo trabalhar na enorme fazenda do doutor Breno Caldas, dono do Correio do Povo e da Rádio Guaíba de Porto Alegre. O garoto comprido como esperança de pobre destacava-se pelo porte e altura em razão dos outros jovens da fazenda. Cresceu no trabalho com o gado e aprendeu com o pai a lida da monta e da doma dos mais bravios cavalos da fazenda. Não era muito afeiçoado com as letras e nem com os cadernos e a professora da escolinha tentou, mas não conseguiu encaminhá-lo pela trilha do estudo. Seus livros eram o campo aberto, a natureza, as pescarias nos alagados do Rio Gravataí e o amor aos cavalos. O tempo para o homem campeiro tem a velocidade do vento Minuano nas quebradas dos capões de mato. E logo o garoto mudou de voz, um bigode ralo e uma barbicha decoravam a sua face queimada, tostada do sol e do vento. Cabelos lisos, pele ocre e olhos de uma tonalidade verdosa contrastavam e teciam indagações aos curiosos. Contam que seu pai, certa feita, disse que sua mãe tinha sangue de índia castelhana e havia morrido do parto e por desavenças com a família, tomou do filho e se bandeou para os campos do Viamão. Tudo por achar o nome do lugar muito estranho. A doma era feita da vitória do homem sobre o cavalo. Mesmo costelas partidas e pernas quebradas. Descadeirados escoravam-se no balcão da bodega na Estância Grande. Relho e esporas rasgando a carne do bagual. Os dois sangravam – o animal e o homem. Sempre havia um vencedor e um perdedor. Seu pai era Gomez e ao jovem chamavam de Gomecito. Tinha uma técnica ímpar de doma na região. Levava o cavalo para dentro do banhado e lá os dois se estranhavam um tempo, mas com os aguapés se enrolando nas pernas e nos cascos, de alguma forma se entendiam e assim montado a pelo corriam pela várzea. Contam que alguns cavalos da fazenda iam para carreiras famosas, como as de Carazinho, terra do doutor Leonel de Moura Brizola, domados e adestrados por Gomecito e seu pai.

Todo o homem tem uma “fraqueza” ou uma especial afeição para o trabalho e o  lazer. Gomecito eram a bola e os cavalos. As habilidades no futebol de várzea que eram naturais nele e outros tentavam em intermináveis treinos e não conseguiam. Alunos da famosa E.T.A., Escola Técnica de Agricultura, que visitavam com professores a fazenda e ali se aperfeiçoavam nas futuras profissões, descobriram-no. A ETA tinha um campo de futebol e ali vários talentos surgiram. Muitos engrossaram o esquadrão do glorioso Tamoio Futebol Clube, do Centro histórico de Viamão. #E foi aí que nasceu o apelido do Gomecito. Apeou do cavalo e boleou a mala de garupa sobre o ombro. O pessoal se fardava ali mesmo no costado do campo, junto de um alambrado de fios de aço. Recebeu a camiseta e um calção do time. Colocou e… A rapaziada estranhando perguntou-lhe: “E as chuteiras”? Não tinha chuteiras. Jamais jogou de chuteiras. Nunca usava calçados. De nenhum tipo. O capataz até levou um sapateiro para lhe fazer um par de botas. Fez! Queixava-se que não dava para usar. Os pés adquiriram a resistência da vida do campeiro. As solas dos pés eram extremamente espessas. Grossas. Tentaram que usasse alguma chuteira emprestada, inclusive um gringo da serra quis dar-lhe as suas. “Ou joga de pés descalços ou não joga”. Joga. E jogou. Fez cinco golos já na primeira metade do jogo. Tiram-lhe para celebrar o rodízio entre os atletas. Entrou nos dez minutos finais no outro time e fez mais dois golos.

Sua velocidade e destreza eram incomuns. O chute disputava potência entre a perna direita e a esquerda. “Um canhão”! Talento natural. Logo escalado para um enfrentamento do time principal da ETA e os craques do Tamoio. O juiz era um veterano da arbitragem de Porto Alegre e que depois da quinta cerveja deixava o jogo correr solto. Dedurado pelos adversários que estava sem chuteiras, o juiz não permitiu que entrasse em campo. “Ou bota chuteira, ou não joga”! Berrou espalhando o bigodão. Metade do segundo tempo, um massacre: Tamoio 6 e ETA 1 e de pênalti. A ETA se rebelou e avisou: “Ou entra o Cascão ou saímos de campo”. Entrou o Cascão e o final ficou 8 a 7 para a ETA. E assim o Cascão sem chuteiras jogou e estreou na várzea da “santa terrinha setembrina”. Aqui o Consul do Colorado em Viamão, seu Aldo Cabeleira, lhe deu uma camiseta do Internacional com o número 7. “É do Tesourinha”! Que ele conhecia e amava no Correio do Povo e na galena do velho Zeca Armindo. Gastou a camiseta de tanto usar. Inclusive por baixo dos fardamentos da ETA e eventualmente do Tamoio.

Grenal no Estádio Olímpico. O brilhante Tamoio, o rubro-negro da baixada, convidado para uma preliminar contra veteranos do Grêmio. Era uma turma de assustar e causar respeito. Jogavam a preliminar para empolgar, atiçar a torcida goleando os adversários. Como nunca teve dirigente burro no Tamoio, somente alguns mais inteligentes que os outros, levaram o Gomecito Cascão de arma secreta. E que arma. Como de costume, os veteranos do tricolor saltitavam e afiavam os cascos como cavalo no partidor do prado. Um melhor fardado que o outro. Firulas com a bola. De novo o juiz retirou o Cascão do time – “Sem chuteiras não joga”! A situação estava dramática. Empilhavam golos e tripudiavam “dos índios viamonenses”. Segundo tempo, os jogadores viamonenses estavam de olhos esbugalhados. Contam que o Consul Colorado passou um bilhete para os dirigentes do Tamoio e uma caixa de papelão. Ali estavam um par de chuteiras sem solado.

Fantástica solução na crise. Um par de chuteiras sem solado, elásticos por baixo seguravam nos pés. E Cascão, na beira do gramado, aguardava autorização para entrar no jogo. O bandeirinha olhou seus pés e chuteiras. O juiz também. Ninguém lembrou de olhar as chuteiras por baixo. E o jogo virou um fandango e outro dia lhes conto maiores detalhes, mas terminou 9 a 5 para o Tamoio, com direito à volta olímpica. Quando descobriram a trama já era tarde e resolveram sepultar, excluir da história o feito de serem goleados em casa por um jovem amador e de pés descalços. Ah! E com a camiseta número 7 do Colorado por baixo do manto rubro-negro do Tamoio. Para quem não conhecia, assim nasceu a rotina ou a regra do jogador ter as chuteiras examinadas por todos os lados antes de entrar no jogo. Inclusive a sola. Observem!

O jovem! O homem e a lenda! Entre eles sempre há uma dama espreitando. Ela se chama Fatalidade! Bom, vamos continuar revirando a papelada do seu Aldo Cabeleira e ver o que mais encontramos. Outro dia, talvez continuemos!

 

Para: COLETÂNEA VOZES DO PARTENON LITERÁRIO XI

Autor: Edson Olimpio Silva de Oliveira

                Médico, Cirurgião e Escritor. Autor dos livros Crônicas & Agudas e Crônicas

& PontiAgudas. Colunista de Jornal, está nas páginas do Jornal Opinião de Viamão

há 20 anos. Participação em mais de 50 coletâneas. Vencedor de Concursos

literários com premiação nacional e internacional. Membro da ALVI – Associação

Literária de Viamão. Membro do Partenon Literário. Membro da Sobrames – Sociedade

Brasileira de Médicos Escritores. Design criativo e mobilizador com diversas campanhas

virtuais em seus espaços. A crônica “E o Cascão fardou! E goleou.” venceu em

Primeiro Lugar categoria Crônicas no XII Concurso Literário da FECI – Fundação

de Educação e Cultura do Sport Club Internacional e da CAPOLAT – Casa do Poeta

Latino-Americano. É avô da Ana Luiza, do Lucas e do Pedro Henrique.

2019 - 06 - Primeiro Lugar Crônicas - FECI - E o Cascão fardou. E goleou2019 - 06 - Troféu Primeiro Lugar Crônicas - E o Cascão fardou. E goleou.

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A Casa Veiga! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 18 Junho 2019.

 

A Casa Veiga!

A

ssíduos leitores da eterna geração me cobram para escrever e publicar nesse poderoso jornal sobre mais alguma mecha da vasta cabeleira da história de Viamão. Minha principal ferramenta é a memória daquilo que vivi e convivi. Eventualmente me socorro de algum outro viamonense, como agora, pelo primo Sílvio “Boca” Oliveira. Concordo que a cidade, a sua vida, sua história pessoal, principalmente, vai evanescendo, virando fumaça e sumindo nos ventos do tempo. Guardam-se algumas imagens fotográficas, seres mudos e que exalam sentimentos que a maioria não irá captar. Sequer saber mais de seus conteúdos. Há também muitas narrativas que miscigenam fantasias pessoais ou de outrem com fímbrias de realidade. Isso é pródigo e repetitivo em que o realismo fantástico se torne “realidade”, até legal. O venerável prédio foi o maior junto com a Igreja, o Colégio Stela Maris e o Hospital de Caridade aqui no Centro Histórico, e ergue-se ali na frontaria da Câmara de Vereadores. Abriga diversos comércios e vários comerciantes. Isso estava na raiz, no DNA da Casa Veiga que vendia de quase tudo. Do botão ao caixão de defunto. Do parafuso, passando pelos vidros cortados ao chapéu Ramenzoni. Que maravilha!

Crônicas & Agudas

Essa fase que rememoro com vocês está principalmente na era Jânio Quadros, João Goulart e dos anos de ouro para uns e de ferro para outros. Dois irmãos capitaneavam a nave Casa Veiga – Carlos “Carlinhos” Veiga e seu mano Djalma Veiga. Carlinhos é o pai da Marilú. Djalma, pai do caro Juarez “hábil em tudo”, avô da advogada Naimara e sogro da Satut. A amorosa esposa de Djalma foi a dona Cecília, uma das maravilhosas doceiras de Viamão. Um prédio vistoso e sólido, de pé direito alto, três portas frontais, sendo a central bem mais ampla que se abria para a imensa loja com um balcão em forma de U. Ao fundo do U, uma porta e o tampo se abriam para permitir a passagem, entrada ou saída, e ao lado da tradicional caixa registradora de botões e sineta ao abrir a gaveta bem abastecida. Raros eram os assaltos na Viamão, que na sua história contou como Delegado de Polícia o Capitão Osório Belíssimo, que já transitou em outras colunas. Aqui em Viamão, bandido tratado como bandido e não a versão macabra, sinistra, cúmplice de “vítima da sociedade”.

Cr & Ag

Um mezanino espraiava-se no contorno superior. As mercadorias em profusão albergavam-se em sítios bem estabelecidos. Lembramos dos saudosos funcionários como o Papito e o Moacir “Feijão”, que substituiu seu Carlinhos como Juiz de Paz ou o “Juiz Casamenteiro” na cidade. Seu Carlinhos era o mais conversador dos dois irmãos. Tinha baixa estatura física e um pequeno e bem cortado bigode adornava o lábio superior, sendo um caçador de marrecões como meu pai Aldo e meus tios Eninho e Álvaro, pai do Sílvio. Era comum a pessoa comprar a caderno (crediário). Pedia-se uma “peça de tecido que não encolhesse nem desbotasse”. A pessoa escolhia entre dezenas de variedades e o vendedor levava ao balcão, desenrolava, media com uma régua métrica de madeira e cortava. Ali sairia uma bela roupa. Um belo vestido como a costureira Dona Dora habilmente fazia para as maiores festas da cidade. Dona Dora é minha mãe!

Cr & Ag

Aos fundos do prédio, dando para a rua Cirurgião Vaz Ferreira, outra edificação abrigava a marcenaria. Lembramos do seu Cláudio, pai do Bito, e sua habilidade em trabalhar a madeira para todas as necessidades, como para os ataúdes ou urnas funerárias. Ali o talento do Juarez com a madeira emergiu poderoso e seus trabalhos conquistaram o tempo. A vidraçaria também estava ali. Assim algumas pinceladas, incompletas pela exiguidade de espaço da crônica, mas que sirvam para ativar e mobilizar os melhores sentimentos de uma época de ensinamentos e de exemplos duráveis. E assim você complementará nossas lembranças.

2019 – 06 – 18 Junho – Casa Veiga – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – http://www.edsonolimpio.com.br

Irmãos CR 20Irmãos CR 21

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