A Casa Veiga!
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ssíduos leitores da eterna geração me cobram para escrever e publicar nesse poderoso jornal sobre mais alguma mecha da vasta cabeleira da história de Viamão. Minha principal ferramenta é a memória daquilo que vivi e convivi. Eventualmente me socorro de algum outro viamonense, como agora, pelo primo Sílvio “Boca” Oliveira. Concordo que a cidade, a sua vida, sua história pessoal, principalmente, vai evanescendo, virando fumaça e sumindo nos ventos do tempo. Guardam-se algumas imagens fotográficas, seres mudos e que exalam sentimentos que a maioria não irá captar. Sequer saber mais de seus conteúdos. Há também muitas narrativas que miscigenam fantasias pessoais ou de outrem com fímbrias de realidade. Isso é pródigo e repetitivo em que o realismo fantástico se torne “realidade”, até legal. O venerável prédio foi o maior junto com a Igreja, o Colégio Stela Maris e o Hospital de Caridade aqui no Centro Histórico, e ergue-se ali na frontaria da Câmara de Vereadores. Abriga diversos comércios e vários comerciantes. Isso estava na raiz, no DNA da Casa Veiga que vendia de quase tudo. Do botão ao caixão de defunto. Do parafuso, passando pelos vidros cortados ao chapéu Ramenzoni. Que maravilha!
Crônicas & Agudas
Essa fase que rememoro com vocês está principalmente na era Jânio Quadros, João Goulart e dos anos de ouro para uns e de ferro para outros. Dois irmãos capitaneavam a nave Casa Veiga – Carlos “Carlinhos” Veiga e seu mano Djalma Veiga. Carlinhos é o pai da Marilú. Djalma, pai do caro Juarez “hábil em tudo”, avô da advogada Naimara e sogro da Satut. A amorosa esposa de Djalma foi a dona Cecília, uma das maravilhosas doceiras de Viamão. Um prédio vistoso e sólido, de pé direito alto, três portas frontais, sendo a central bem mais ampla que se abria para a imensa loja com um balcão em forma de U. Ao fundo do U, uma porta e o tampo se abriam para permitir a passagem, entrada ou saída, e ao lado da tradicional caixa registradora de botões e sineta ao abrir a gaveta bem abastecida. Raros eram os assaltos na Viamão, que na sua história contou como Delegado de Polícia o Capitão Osório Belíssimo, que já transitou em outras colunas. Aqui em Viamão, bandido tratado como bandido e não a versão macabra, sinistra, cúmplice de “vítima da sociedade”.
Cr & Ag
Um mezanino espraiava-se no contorno superior. As mercadorias em profusão albergavam-se em sítios bem estabelecidos. Lembramos dos saudosos funcionários como o Papito e o Moacir “Feijão”, que substituiu seu Carlinhos como Juiz de Paz ou o “Juiz Casamenteiro” na cidade. Seu Carlinhos era o mais conversador dos dois irmãos. Tinha baixa estatura física e um pequeno e bem cortado bigode adornava o lábio superior, sendo um caçador de marrecões como meu pai Aldo e meus tios Eninho e Álvaro, pai do Sílvio. Era comum a pessoa comprar a caderno (crediário). Pedia-se uma “peça de tecido que não encolhesse nem desbotasse”. A pessoa escolhia entre dezenas de variedades e o vendedor levava ao balcão, desenrolava, media com uma régua métrica de madeira e cortava. Ali sairia uma bela roupa. Um belo vestido como a costureira Dona Dora habilmente fazia para as maiores festas da cidade. Dona Dora é minha mãe!
Cr & Ag
Aos fundos do prédio, dando para a rua Cirurgião Vaz Ferreira, outra edificação abrigava a marcenaria. Lembramos do seu Cláudio, pai do Bito, e sua habilidade em trabalhar a madeira para todas as necessidades, como para os ataúdes ou urnas funerárias. Ali o talento do Juarez com a madeira emergiu poderoso e seus trabalhos conquistaram o tempo. A vidraçaria também estava ali. Assim algumas pinceladas, incompletas pela exiguidade de espaço da crônica, mas que sirvam para ativar e mobilizar os melhores sentimentos de uma época de ensinamentos e de exemplos duráveis. E assim você complementará nossas lembranças.
2019 – 06 – 18 Junho – Casa Veiga – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – http://www.edsonolimpio.com.br