O Fio da Meada!
As vidas ou as existências das criaturas estão entremeadas, cruzando-se, enovelando-se com o trotear irrefreável do Tempo. Tempo! Esse senhor com o poder da eternidade nos observa e aguarda o desenrolar das nossas jornadas por estradas de luz ou de sombras. Há leitores que me acusam, no melhor sentido, como sendo a “memória viva” de Viamão nesses últimos 25 anos de colunas de jornal e ainda pelos livros pessoais e coletâneas. Isso é real e o Jornal Opinião tem sido o maior parceiro para através de suas páginas também eternizar a vida de um povo e realçar seus membros. Em conversas com o primo Silvio “Boca” Terra de Oliveira (solo sagrado desde tempos imemoriais nas civilizações mediterrâneas e da Ásia Menor – terra de oliveiras!) aproveitamos para desenrolar e puxar o fio dessas meadas. Falávamos sobre a Farmácia Brasil e seu significado para a política e a vida pública da cidade. Os irmãos Scarppetti, Nélson e Alencarino e seu filho Deco (carinhosamente chamado de Dequinho). O prédio original está ali entronado defronte o Banco do Brasil. O salão inicial com o balcão de atendimento ao público, a sala de manipulação dos medicamentos com a balança de precisão numa caixa envidraçada, um jacaré de ferro que se abria em dobradiça e ali expunha os moldes e tamanhos das rolhas de cortiça, armários repletos de frascos dos mais variados produtos em uma miríade de cores e odores. Aplicação de injeções, com uma habilidade incomum de puncionar as mais escondidas e bailarinas veias.
Crônicas & Agudas
Um corredor de passagem, onde havia um telefone de manivela numa caixa de madeira com as ligações intermediadas pela central telefônica das Castelhanas. Ali estavam cadeiras singelas que reuniam “Caçadores, Pescadores e outros Mentirosos” – dizia uma plaquinha. Esse corredor desaguava por uma porta para o depósito de medicamentos, outra porta para a rua e acesso externo para o andar superior da farmácia onde atuava com magnífico Cirurgião-Dentista Dr. Trajano Goulart, outro grande filho dessa terra, creio que vereador foi. A residência do Seu Alencarino era anexa à farmácia com acesso interno. A residência do Seu Nélson era através de um pátio e logo saia na Rua Cirurgião Vaz Ferreira, defronte a OAB de Viamão. Incontáveis e notáveis viamonenses “batiam ponto” naquele corredor e trançavam e traçavam os destinos da cidade. A poucos metros estavam a Delegacia de Polícia, a Brigada Militar, a Prefeitura e a Câmara de Vereadores e todo o comércio principal. Juca Gattino, creio que cunhado do Nélson, aí também trabalhava. Família dos Gattino que tinha o “velho Tutu”, “médico-prático” que morava na culatra da Igreja. E pai do Auro e do “tio” Cirne, que já tive a honra de retratar aqui. Outro “médico-prático” foi Dante Messina, no Capão da Porteira e há pouco falecido com mais de um século o “prático-dentista” Napoleão – baita família.
Cr & Ag
“Tuinho” Gattino, irmão do Haroldo, foi outro importante vereador. Outro funcionário da Farmácia Brasil foi “Paulinho” Barcelos que pelo carinho e respeito aos clientes foi alçado vereador também. Paulinho era irmão do Zé Gago, um brilhante gaiteiro e tradicionalista viamonense, que sobreviveu a duras penas a um acidente ofídico – picado por uma jararaca ou cobra cruzeira. Cumpre acrescentar que o especial homem e esposo Zé Gago era casado com a prima Marlene Móttola de Barcelos e que seu neto, também músico e gaiteiro, tocou a acordeona em belíssima homenagem ao querido avô durante suas pompas fúnebres. Todos os presentes choraram! Muitos ainda vertem lágrimas lembrando o episódio. Outro fio da meada foi Ciá ou Sinhá Avelina, minha vizinha na Avenida Bento Gonçalves. Uma negra idosa, residia com uma das filhas, e era “irmã de criação” dos Scarppetti – “com muito orgulho” e “negra, negra mesmo”. Pessoa fantástica a Ciá Avelina. Sua outra filha, Virgínia, trabalhou e se aposentou como enfermeira do Centro da Saúde e adotou e criou com pleno amor um menino loiro órfão. Todos filhos de um mesmo Pai Celestial! Complemento – 1) a poucos metros da Farmácia estava a Padaria do Seu Tita, pai do Breno e avô do Prefeito André; 2) fui cofundador do primeiro grupo de escoteiros de Viamão que recebeu o nome de Alencarino Scarppetti. Obs.: tentamos que a memória vivenciada e sabida seja o mais próximo e exato.
2019 – 07 – 16 julho – O Fio da Meada – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão