Alzheimer e Esquecimento!
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ocê já tomou ou toma algum “remédio para os nervos”? Se a insônia lhe atormentasse às noites, você tomaria algo para dormir? A população do planeta cresceu assustadoramente. Todos os lugares estão com gente demais. O tempo de vida das pessoas cresceu junto com os enormes avanços científicos. Há poucas décadas, você seria um idoso ou uma idosa aos 40 e poucos anos. Fatalmente estaria velho ou velha. “Largados para o campo de baixo”, no vocabulário gaúcho, comparando com os animais de pouca serventia. Sem ofensa! O aumento populacional e da idade fazem os casos se multiplicarem. Desde haver mais câncer, como mais criminosos. “As pessoas estão mais estressadas”. “O stress está matando”. “A depressão está demais”. Tudo isso e muito mais você conhece e ouviu. Qualquer “remédio de nervos”, do chá caseiro à mais sofisticada droga, tem algo em comum. Todos e para qualquer transtorno buscam o “esquecimento”. Desde o mais simples distúrbio à mais grave doença mental, busca-se “esquecimento”. Esquecer os problemas. Esquecer as dificuldades. Esquecer os desgostos. Esquecer os desvios mentais ou até psicóticos. Esquecer!
Crônicas & Agudas
Alguém toma um tranquilizante, um ansiolítico, um calmante, um “remédio de nervos” para se lembrar das tristezas, das saudades, dos golpes, das desgraças e de todos os tormentos que afligem uma pessoa? As próprias terapias buscam que a pessoa vá desvalorizando, atenuando, diminuindo suas dores. Aprendendo a conviver com elas. Até caírem numa forma de esquecimento. As pessoas descobriram que qualquer desses “remédios” “diminuem a memória”. Não há esquecimento seletivo. Não há como esquecer somente o ruim, o doloroso ou o desagradável. Não há essa droga “inteligente” que tenta apagar somente os incômodos. Vai o joio e vai muito do trigo também. Os casos de Alzheimer e outras demências “do esquecimento” são mais e mais precoces. “A pessoa tem que usar muito o cérebro para evitar” – dizem. Pessoas cultas, ativas, extremamente capazes, médicos e mestres brilhantes são acometidos gravemente. Somam-se justificativas: transgênicos, isquemia, genética, alimentação, falta de exercícios para o corpo e mente, pouca fé e… O rosário é extenso.
Cr & Ag
Órgãos de choque! Uso essa expressão para explicar aos meus pacientes que cada pessoa tem os seus órgãos de choque. Numa hierarquia pessoal e num grau de acometimento individual. O corpo da pessoa “sofrerá o golpe” onde é mais sensível. “Ele partiu meu coração”. “Não consigo engolir isso”. “Minhas costas não suportam essa cruz”. “Ferrou com a minha vida”. A lista é sem fim. Aí surge uma hipertensão, uma dor nas costas, uma alergia, um diabete, uma gastrite, uma doença intestinal, obesidade ou magreza, sempre gripado, insônia… Um câncer! A pessoa gostaria e necessita esquecer a sua dor física e, principalmente, a dor da mente e da alma. “Doutor, me ajuda a tirar essa coisa de mim, quero esquecer e começar uma vida nova”! “Rezo para esquecer tudo isso”! “Mudei de cidade, mas não esqueço”! Olhamos uma pessoa inteligente, bem realizada na vida, mas desconhecemos as dores da sua alma. Aspiramos até ser igual a ela, mas jamais carregar as suas cruzes.
Cr & Ag
No meu entendimento, o esquecimento do “Alzheimer” está intimamente relacionado com a vontade, a necessidade daquela pessoa em esquecer e assim se aliviar de suas dores, dos demônios que a atormentam, dos dramas que a perseguem, dos problemas que não consegue resolver ou insolúveis. O “remédio dos nervos” que o corpo irá cultivar será o esquecimento. Infelizmente do bom e do ruim. Esquecimento. A memória irá sumindo na poeira da estrada da vida. E os problemas deixarão de ser seus, pois seu mundo ficará confinado dentro de si e sua vida do dia a dia será responsabilidade dos outros? Pensemos assim – antes de esquecer!
2019 – 11 – 05 Novembro – Alzheimer e Esquecimento – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão