CheveTCHÊ Turbo Interceptor!
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Espuminha curtia uma vanera dançando de pé trocado em trote de rodopio pelo Salão do Valdeci, no Passo da Areia. A prenda deu uma sungada no vestido sacudiu as pipocas alojadas nas rendas e jogou o braço pelo pescoço do moço. A calça Lee estreitou e ficou pequena de tanta emoção. Se aprumou e chamou a guria num bate queixo que alumiou o dente de ouro. A sogra, distraída num pastel com guaraná, cansou de suspirar na esperança de algum desgarrado encostar no seu armário. Moço afeito aos namoros nas barrancas da Varzinha, puxou a guria para dar uns bordejos e pegar um ar fresco nas sombras dos cinamomos. Mas as sombras estavam ocupadas e alguns cinamomos chegavam a balançar e cair as folhas de tanto agito. E nem era outono ainda. Espuminha andava pelo meio das viaturas estacionadas e eis que a guria perdeu parte da atração. Estacionada uma máquina com os cromados relampeando no luar de desentocar rinchão a pauladas e buscar ninho de tuco-tuco. Uma viatura gaúcha até no nome – CheveTchê! Vermelho colorado perolizado. Seu time de adoração num baita distintivo no capô do motor. Tala larga. Faixas laterais rasgando a base das portas – Turbo Interceptor! Loucura meu. Total mesmo. Faixas nos vidros fumê – Chevetchê e em letras manuscritas menores – Vianda. Carro para levar comida. Boia. Quase que o coração lhe saiu pela boca. Podia perder a gata, mas iria ganhar a máquina. Esbaforido sacou o microfone da mão do cantor e perguntou quem era o dono da viatura.
Crônicas & Agudas
“Que houve com o meu carro”? – Gritou um Foguinho atracado num galeto numa mão e uma ceva na outra. Espuminha sacou: “Tô contigo e não abro”! O Foguinho e ninguém entendeu aquilo. Menos ainda a gata que saltitava em seu rastro. “Pô meu, tô comprando teu carro. Bota preço que é tudo comigo”. Abriu um clarão no salão. Como o pessoal viu que não era briga, tocou o baile com mais força. E o gaiteiro esgoelou a acordeona. Ah! O apelido Espuminha vem do hábito e gosto de empinar uma ceva gelada e ficar aquela “espuminha no bigode” que ele passava a língua e dizia – “O bom é a espuminha”! Pegou a alcunha. Saltaram para o estacionamento e foi aí que começou o negócio. E foi aí que acabou também. Entregou uma ponta de gado, herança da avó. Uma égua prenha. Uma charrete e secou as reservas da Caixa. Carro dos sonhos. O Brasil vivia o sonho do Collor com os carros importados e o pesadelo pelo sequestro, um mês depois, das poupanças dos brasileiros. Tudo que importava era desfilar em Ipanema. Até com a futura sogra, a gata e a nave.
Cr & Ag
Aqui começa a lenda urbana que poucos sabem a origem. Espuminha acomodou a gata, dois cunhados, a sogra e o cachorro pequinês no CheveTchê Turbo Interceptor para curtir o feriadão na casa de um primo de sexto grau em Tramandaí. Coisa fina. Tramandaí é pra gente do andar de cima e Quintão, Cidreira era pra turma “comum”. Pegou a freeway. E deitou o cabelo. Vidros abertos, pois a velha era muito frouxa das pregas e soltava gases que o pequinês acuava de tristeza. Os cunhados, meio ruins dos neurônios, comendo cachorro-quente e derramando a mostarda e o “qué-que-chupe”. Ali pela altura da Glorinha, a nave tossiu, engasgou e fumaceou. Levou para o acostamento entre as pragas e desaforos da “futura” sogra e gremista. Ainda pode e vai piorar. Aplicou os primeiros e últimos socorros na viatura. O Turbo apagou e o Interceptor mijou para trás. “Colorado excomungado”! Era o mínimo que escutava da maldita. O sol de verão fazia o Atacama parecer frescor de shopping. Nem uma garrafinha de água. O suor escorria da nuca ao rego e lavrava perna a baixo. Um horror.
Eis que um dos cunhados começo a botar os guisados e as salsichas pra fora, chamando o hugo. A gata rezava pra padroeira das namoradas ferradas. Então para um carrão importado e baixa um loiro alto com óculos de aviador ou de político. Coisa de gente chique. Se compadeceu do pequinês e propôs rebocar a viatura até o pedágio de Osório. Levou o cusco para o ar condicionado do Mustang e rebocou o CheveTchê mais que envergonhado. Atenção: continua na próxima coluna. Aguarde o desfecho dessa epopeia de um Colorado viamonense e sua nave”.
2019 – 11 – 26 Novembro – Chevetchê Turbo Interceptor – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br