CheveTCHÊ Turbo Interceptor! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 26 Novembro 2019. Parte 1.

 

CheveTCHÊ Turbo Interceptor!

Espuminha curtia uma vanera dançando de pé trocado em trote de rodopio pelo Salão do Valdeci, no Passo da Areia. A prenda deu uma sungada no vestido sacudiu as pipocas alojadas nas rendas e jogou o braço pelo pescoço do moço. A calça Lee estreitou e ficou pequena de tanta emoção. Se aprumou e chamou a guria num bate queixo que alumiou o dente de ouro. A sogra, distraída num pastel com guaraná, cansou de suspirar na esperança de algum desgarrado encostar no seu armário. Moço afeito aos namoros nas barrancas da Varzinha, puxou a guria para dar uns bordejos e pegar um ar fresco nas sombras dos cinamomos. Mas as sombras estavam ocupadas e alguns cinamomos chegavam a balançar e cair as folhas de tanto agito. E nem era outono ainda. Espuminha andava pelo meio das viaturas estacionadas e eis que a guria perdeu parte da atração. Estacionada uma máquina com os cromados relampeando no luar de desentocar rinchão a pauladas e buscar ninho de tuco-tuco. Uma viatura gaúcha até no nome – CheveTchê! Vermelho colorado perolizado. Seu time de adoração num baita distintivo no capô do motor. Tala larga. Faixas laterais rasgando a base das portas – Turbo Interceptor! Loucura meu. Total mesmo. Faixas nos vidros fumê – Chevetchê e em letras manuscritas menores – Vianda. Carro para levar comida. Boia. Quase que o coração lhe saiu pela boca. Podia perder a gata, mas iria ganhar a máquina. Esbaforido sacou o microfone da mão do cantor e perguntou quem era o dono da viatura.

Crônicas & Agudas

Que houve com o meu carro”? – Gritou um Foguinho atracado num galeto numa mão e uma ceva na outra. Espuminha sacou: “Tô contigo e não abro”! O Foguinho e ninguém entendeu aquilo. Menos ainda a gata que saltitava em seu rastro. “Pô meu, tô comprando teu carro. Bota preço que é tudo comigo”. Abriu um clarão no salão. Como o pessoal viu que não era briga, tocou o baile com mais força. E o gaiteiro esgoelou a acordeona. Ah! O apelido Espuminha vem do hábito e gosto de empinar uma ceva gelada e ficar aquela “espuminha no bigode” que ele passava a língua e dizia – “O bom é a espuminha”! Pegou a alcunha. Saltaram para o estacionamento e foi aí que começou o negócio. E foi aí que acabou também. Entregou uma ponta de gado, herança da avó. Uma égua prenha. Uma charrete e secou as reservas da Caixa. Carro dos sonhos. O Brasil vivia o sonho do Collor com os carros importados e o pesadelo pelo sequestro, um mês depois, das poupanças dos brasileiros. Tudo que importava era desfilar em Ipanema. Até com a futura sogra, a gata e a nave.

Cr & Ag

Aqui começa a lenda urbana que poucos sabem a origem. Espuminha acomodou a gata, dois cunhados, a sogra e o cachorro pequinês no CheveTchê Turbo Interceptor para curtir o feriadão na casa de um primo de sexto grau em Tramandaí. Coisa fina. Tramandaí é pra gente do andar de cima e Quintão, Cidreira era pra turma “comum”. Pegou a freeway. E deitou o cabelo. Vidros abertos, pois a velha era muito frouxa das pregas e soltava gases que o pequinês acuava de tristeza. Os cunhados, meio ruins dos neurônios, comendo cachorro-quente e derramando a mostarda e o “qué-que-chupe”. Ali pela altura da Glorinha, a nave tossiu, engasgou e fumaceou. Levou para o acostamento entre as pragas e desaforos da “futura” sogra e gremista. Ainda pode e vai piorar. Aplicou os primeiros e últimos socorros na viatura. O Turbo apagou e o Interceptor mijou para trás. “Colorado excomungado”! Era o mínimo que escutava da maldita. O sol de verão fazia o Atacama parecer frescor de shopping. Nem uma garrafinha de água. O suor escorria da nuca ao rego e lavrava perna a baixo. Um horror.

Eis que um dos cunhados começo a botar os guisados e as salsichas pra fora, chamando o hugo. A gata rezava pra padroeira das namoradas ferradas. Então para um carrão importado e baixa um loiro alto com óculos de aviador ou de político. Coisa de gente chique. Se compadeceu do pequinês e propôs rebocar a viatura até o pedágio de Osório. Levou o cusco para o ar condicionado do Mustang e rebocou o CheveTchê mais que envergonhado. Atenção: continua na próxima coluna. Aguarde o desfecho dessa epopeia de um Colorado viamonense e sua nave”.

2019 – 11 – 26 Novembro – Chevetchê Turbo Interceptor – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br

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