“Reveião na Praia” – Parte 1
Especiais de Verão. Série: Rir ainda não paga imposto!
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calor era tanto que soldou as solas dos meus sapatos no asfalto da travessia defronte o Itaú. Eu devia ter estranhado os chinelos de dedo grudados na meleca preta e os “busão Viamão-lotado” cruzando, como quem sapateia na desgraça alheia. A eterna falta de água (não confundir com falta de égua!) aqui no Centro histórico requer uma nova revolução. Meu amigo Zecão do CTG Ferrado e Firme nos Tocos propôs reunir os primos dos Oliveira, uma falange dos Fragas e alguns agregados de última hora e enfiar os cavalos na Corsan. A criatura, já desidratada, delira e pode partir pro “atraque”. O Zecão se acalmou depois de 2 litros de água mineral batizada com várias “loiras bem suadas” (cerveja!). Ainda devorou um X Patrola. Depois dessa empreitada, “Edinho de Deus fui passar o reveião com a nega velha e as crias na casa do cunhado na Cidreira”. “Eu nem devia, mas vou te contar, pois ainda tô meio empanturrado com a comilança e desnorteado com o festere”. “Sabe que a nega é boa de panela uma barbaridade, cozinha e come como só ela. Tem dia que nem sobra pros cuscos. Mas vamo reto que nem tripa de cobra, tu já tá olhando a hora”. E começou a novela!
Crônicas & Agudas
“Na chegada atolei o Corsa Turbo no areial, mas sou um homem aprevenido. Saquei da pá, mandei a criançada apeiá e a nega velha tirar os tapetes do Corsa Turbo. Só aí já aliviei quase duzentos quilos. A nega vai começar o regime depois do Carnaval. De que ano eu não sei. Cavei nas rodas da frente e o meu cunhado cavou nas rodas de trás – pra que eu não sei. Botei os tapetes. Engatei uma primeira e só no choro saí do areial. Tinha ratão tuco-tuco só de mirão nos cômoros. Atropelei uma plantação de lagartixa. Ah se o Ibama desconfia! Isso era mais ou menos o meio da tarde. Baixamos a muamba e fui fazer um chimarrão. Levei água de garrafão. O cunhado só tem água de poço. Salobra uma barbaridade. Ficamos ali escorando uns tijolos e lavando os espetos, sabe como é a ferrugem? E chegava viatura. De quatro e de duas rodas. E se atolavam e a turma desatolava no um-dois. Nem chegava no três. Gente de tudo que é naipe e indumentária, da bombacha ao sarongue. O que começou a me preocupar era a quantidade de boca pra comer e o de fiofó pra esvaziar. Baixava isopor com refri e cerveja. E a carne? E o frango? Peru não entra em festa de grosso.
Cr & Ag
Uma turma se arredou para uma pelada aditivada com melancia, uva e muita cerveja. O Zequinha da Odessa foi o goleador – um golo no adversário sem camisa e quatro contra seu time. Pois é Edinho! A pelada terminou com num pega da mina do Zarolho com a filha da Lurdinha, aquela da Faxina. A guria é assanhada uma barbaridade, igual a mãe. Tá sempre no cio e foi tirar uma ficha com o Zarolho. O Zarolho é abagualado, jogando de sunguinha, e seu deu o pega com a rapariga. Puxão de cabelo. Dedo no olho. Voadora e rasteira. Pedalada. Ah! Isso aí, o churra começou a cheirar e a fumaça parecia incêndio na Amazônia. Lenha verde e carvão molhado. O Pedrinho Borracheiro fez as contas na ponta dos dedos – 19 criaturas humanas e 6 cachorros, fora alguma cadela. E soltou o berro – Vai faltar carne! Minha sogra, que não é cheirar com pouca venta, sacudiu as cascas de pão do colo. Cuspiu as sementes de melancia nos guaipecas e berrou: Vamo aumenta a maionese e algum infeliz dos meus genros vai comprar mais umas galinhas e costelas. A Lurdinha viu a indireta da velha, mas recuou. A velha é de faca na bota.
Cr& Ag
Ninguém se coçou. Tirar uns pilas dessa turma é coisa feia. Depois de uma vaquinha com o entusiasmo de “se não der, não come”, saíram uns quatro a pezito no más. O magrão tatuado e com pierci até na arruela foi comandando a turma. Cada um com duas latas de Skol, cerveja de chinelo. Senti que ia dar errado. O Zarolho, de última hora, berrou: Tô junto e não abro! Senti maldade”. – Continua na próxima coluna a novela do Zecão.
2020 – 01 – 14 Janeiro – Reveião na Praia 1 – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão