Domingueira Praiana! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 28 Janeiro 2020.

 

Domingueira Praiana!

Série de Humor no Verão Gaudério

[A minha doma é na base do ia há há
Deixo que corra à vontade e embalo o corpo pra golpear
Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar

Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar…]

“E o gaiteiro rocava a velha acordeona. Com um olho fechado, na pontaria duma índia de tranças que zunia pelo salão. Talvez o outro olho cochilasse da noitada anterior. O xirú dos dedos destroncados floreava o violão alisando as cordas como quem afia uma navalha Solingen no couro cru. A Cadela Baia do Mano Lima era a página musical mais tocada. Um gurizão taludo, desses magrão de fim de linha de ônibus, cutucava o bumbo leguero arrumando namoro com uma prenda linda como laranja de feira e alegre como mosca no mel. Risonha de deixar as canjicas de fora dos beiços vermelhos como a camiseta do Colorado Campeão de Tudo. Eu andava meio avulso pelo litoral quando o doutor Edinho do Cabeleira me requisitou. Curti muito bailão no Waldeci e no Reci. Com essa cara que Deus me deu e o diabo estragou já fiz a felicidade de muita xirua nesses retornos da vida. Agora, meio veterano, tomei dois goles graúdos da Polar, lambi a espuma do bigode e parti para a aquisição”.

[Conto com a sorte e com a minha cadela baia
Que às vezes a pobre me ajuda e outras vezes me atrapalha
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto]

“Calibrei a mira numa prenda aí pelos 5.0. Ela floreou os olhos em mim e se refestelou com minha bombacha nova e com as botas peludas. Bota peluda no verão de mais de 40º é coisa pra macho. Muito macho. E a mulherada sabe bem disso. E o bagual se garante. O vento Nordestão soprava e assoviava na cumeeira do galpão. Cortando mais que língua de sogra. Dei uma sapateada batendo o taco da bota e a prenda aceitou o convite e se veio rindo, mostrando o piano. Enlacei com o braço a cintura meia graúda, abri cancha nos pneus, e chamei no peitoril. “Aperta que eu gosto”, ela gemeu mais ou menos assim. Sabe aquele arrepio da morte certa? Pois é! E saimo troteando um vanerão pela cancha. Abrimo um clarão. A xirua era boa dos cascos uma barbaridade. Eu cruzava a direita e ela se vinha com a esquerda. E quando uma coxa esfregava na outra vinha outro arrepio. Na terceira volta do salão o gaiteiro abriu os dois olhos e piscou. E tossiu. Seria uma mensagem em código”?

[Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreio eu me garanto]

“O peitoril da xirua saltava pra riba. Chinchei mais ainda. Chegou a arregalar os olhos, mas gostou. Senti que não ia dormir solito nos pelegos. E o gaiteiro persistia piscando. Até perguntei se era cacoete ou argueiro. E a bailanta seguia nesse tranco. Nos intervalos ela segurava o braço do bagual aqui e evitava o aproxego. “Sou viúva nova ainda”! Alegou uma dúzia de vez. Como nasci de nove mês, sei esperar o tempo certo. Lá pelas metade da madruga, consegui arrebanhar a prenda pro meu Opala”.

[Depois que eu boto a curva da perna no arreio
Pode frouxar a minha cadela só que rache pelo meio
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta]

“E ali no entrevero dentro do Opala, que me veio o desgosto e um gosto de sangue na boca. Não tive raiva nem ódio. O sol nasceu pra todos de rabo e dos sem rabo. O meu braseiro esfriou. Devolvi a prenda pro salão. Sou taura cortês barbaridade, até no infortúnio. Mas eu ainda sou meio tradicional. Não levo mais nada a ponta de adaga. Mas não amarro meu cavalo em toda porteira. Embarquei na minha viatura, ainda enxugando o suor. Mas não se assustemo. Os farrapos guerrearam por uns dez anos e vem um dia depois do outro”. Relato desse amigo viamonense, um taura de primeira linha.

2020 – 01 – 28 Janeiro – Domingueira Praiana – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

www.edsonolimpio.com.br

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