Uma Páscoa diferente! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 14 Abril 2020.

 

Uma Páscoa diferente!

Antecipo uma explicação aos épicos leitores, iniciando-se com esse misto de médico metido a escritor. Sempre alinhavamos textos de humor e da realidade afetiva, que a pedido de muitos leitores evitam a saturação das más notícias.

“Edinho, como é que tá a boca por aí”? – Assim veio o telefonema noturno do amigo Velho Gusmão Porpício. Também conhecido por Gusmão Boca Rica. Há uns 40 anos a doutora Cledi arrancou uma ‘coivara’ (restos dentários, vezes somente raízes) do seu Gusmão, que ainda não era velho na idade. Precisou colocar uma dentadura. “Doutora Cledi, eu quero botar uns dentes de ouro aí na chapa. Quero ficar como eram meu pai e meu avô lá na fronteira. Não conseguiu dissuadir o paciente, somente reduziu para dois dentes molares e uns filetes de ouro em outros dentes. Assim sorria, gargalhava puxando os cantos da boca para relampejar os dentes de ouro. Continuando com o telefonema: “Edinho de Deus, desde não sei quando é a primeira Páscoa que eu e a Nega Velha passamos sólitos e Deus. Tamos tudo confinado aqui em casa. Nos proibiram de quase tudo. Ainda tomamos mate no pátio com as galinhas, os gatos e os cachorros. A família vimos só de longe quando vem trazer rancho e o leite que o Ernesto (filho) tira na chácara”. Velho Gusmão e dona Ernestina tiveram oito filhos. São quinze netos e nove bisnetos. “Por enquanto”! – Ele assovia faceiro com a enorme família em quadros na casa.

Crônicas & Agudas

“Então me arresolvi fazer o churrasco ali no pátio mesmo. Dispensei a churrasqueira. Bem que os filhos é que tem assado faz tempo mesmo. O Waldemar até encrencou: “Pai pra que esse trabalho, trago churrasco pra ti e pra mãe. A Eucina faz a salada de maionese com milho que tu gosta e asso a costela do jeito maneira que a mãe aprecia”. “Foi assim que a Nega Velha e eu começamos nossa vida. Só nos dois. Aí peguei um tanque de lavar roupa antigo. Daqueles de cimento. Botei a lenha e prendi fogo. Tava meia úmida, chorou um pouco, fumaceou e se veio o fogo. Lavei os espetos. Já tinha baixado as carnes do frízer – salsichão de porco, uma galinha campeira da nossa criação, uma costela de Angus do mercado do Gringo e um vazio lindo barbaridade. E fui paleteando nos espetos. Somente sal grosso. Nada dessas frescuras de colocar mato na carne. Fico apaixonado vendo a Nega com lenço no cabelo e desdobrando as batatas pra maionese. Maionese com ovos das nossas galinhas. Daqueles que vez ou outra te levo no consultório e dou pra Clarice (secretária)”.

Cr & Ag

O Velho Gusmão Porpício é desses homens que Deus perdeu a forma ou guardou para fazer algum anjo. O coração do tamanho do seu abraço. E sempre com uma risada faceira encantando qualquer lugar. Faz amizade assim num bom dia-boa tarde. E já desdobra uma conversa e num opa já fica íntimo de qualquer um. Sempre com um gracejo, mas respeitoso e humilde. Ele evita falar, mas veio com a mulher e alguns filhos a reboque da fronteira. A família era calçada nos pilas e dona de terras largas. Foi entrevero grave de família – conta-se. Caso de peleia e morte. Respeita-se que não fala por conta própria. Não “se deve enfiar o dedo na goela da criatura” por curiosidade desnecessária. Um tempo passado, a doutora Varlete e o doutor Eduardo (filho) resolveram uma partilha que recebeu como herança. Não foi na sua região e passou tudo direto para os filhos. “Os detalhes”? – Sigilo profissional dos advogados e muito respeito pessoal pela família.

CR & Ag

“E aí Edinho, fiquei ali domando o fogo e gineteando a carne. Te falei que coloquei farinha nas costelas de porco. A Nega gosta muito das costelinhas enfarinhadas e bem tostadas. Desdobrei o salsichão com pão feito em casa e na farinha. Farinha grossa! A Nega me trouxe uma Polar (cerveja). Sei do limite que o doutor me deu. Tomamos juntos. Ela gosta da espuma e sorve com satisfação. Sabe Edinho, tamos velhos, mas minha mulher é flor de bonita. Precisa ver quando era novinha nos fandangos. Dançava e rodopiava. Leve como uma pluma. Ligeira como beija-flor na primavera. Cozinhou um aipim manteiga e fez uma salada verde com ovos cortados. Arroz soltinho como bandido da política. Comida especial. Aconteceu um probleminha. Quando fui sacar a galinha do espeto, escorregou na gamela rasa e caiu no pátio, foi só o tempo que o Brazino abocanhou e correu pra casa dele. Esse cachorro é ruim de negócio. Perdemos a galinha. Vamos em frente que é a Páscoa do bicho também e tinha muita carne e comida para nós dois. A patroa nem ligou muito, tava encantada com as costelinhas de porco enfarinhadas e tostadas”.

Cr & Ag

“Liguei para te dar um abraço e votos de boa Páscoa. E pra toda a família. Diz pra doutora Cledi que dentistas em Viamão era ela e o doutor Emílio Turco. E se cuide doutor que tamos muito usados, veteranos uma barbaridade, quase velhos (risos). Que o Pai Velho lá do Céu e sua Mãe, Nossa Senhora, livre nossa terra e nossa gente dessa Peste Chinesa. Já fizemos uma promessa pra nossa família e pros amigos. A Ernestina (quando a coisa é mais formal, ele evita o apelido afetuoso) está mandando abraço e um beijo e quando passar o confinamento ela vai no consultório abraçar a Clarice e deixar um mimo. Fica com Deus, meu amigo.” São tempos sombrios, de apreensão, de dor da enfermidade e do ódio no coração de muitos. Mas também são tempos em que os amigos lembram dos amigos e os corações se tocam pelo telefone ou pela internet. Lembre-se de tocar alguém!

2020 – 04 – 14 Abril – Uma Pascoa diferente – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

http://www.edsonolimpio.com.br

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Avatar de pe3488 pe3488
    abr 22, 2020 @ 15:04:23

    Gratidao.

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