O velho Maneca Ibraim e seu cão! Parte2 – Final.
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piso do armazém era de tijolos de barro da boca do forno. Explicando: Os grandes fornos para queimar os tijolos em seu interior tem uma porta de acesso, a boca do forno, quando a carga de tijolos é encerrada em seu interior essa boca é fechada com outros tijolos. Esses tijolos de fechamento tornam-se extremamente duros, intensa rigidez. Também são muito usados para fazer as paredes de poços que buscam a água nas entranhas da terra. Já a parte da casa tinha assoalho de madeira. Tanto o assoalho como o piso estavam sempre limpos ao extremo. Escovados e lavados com sabão caseiro. Como alguém com a perna e o joelho mutilados fazia essa permanente limpeza? Pois é! Era assim mesmo. Da mesma façanha, tudo no comércio e na casa.
Ainda tinha um “Negrinho”! Assim era seu nome na casa e para os tropeiros. Desse se sabia a origem. Órfão de uma mãe, nunca teve um pai, criado pela avó num fundo de estância das Mostardas. Quando a avó faleceu, se acolherou numa comitiva e foi desvendar ou conhecer um mundo novo. Primeiro se afeiçoou ao Cão. Depois com carinho da Negra e com o consentimento do velho Maneca Efraim ficou. E ficou com satisfação. Assoviava muito mais do que falava. “Pau pra toda obra”, nunca teve difícil ou ruim. Faziam frente no balcão como com os tropeiros. Meu falecido pai Aldo Cabeleira dizia: “Deus faz, o Diabo separa e eles, por si mesmo, se juntam”.
A vida é como um fandango sem fim. A página musical pode estar escrita, mas cada um dança do seu jeito e gosto. Ou desgosto! O dono do salão faz as regras e proclama as diretrizes básicas. O gaiteiro toca, varia as músicas, mas não te obriga a dançar ou escolher o par. E cada vivente é dono do seu nariz e do seu destino. A vida não é uma estrada reta e plana. Tem perau, precipício quase sem fundo. Curva de cotovelo. O clima e as intempéries da mãe natureza e numa dessas manhãs tristes, de chuva fina e gelada, do vento Minuano açoitando mais que língua de sogra, o velho Manoel Efraim não arredou da cama. Uma forte “dor por dentro, ali onde o peito faz fronteira com a barriga”. A negra Avilina preparou um chá quente com uma homeopatia que tinha no armazém. Um suor gelado escorria entre a barba. Os olhos se encovaram. Dentes cerrados. Não se permitia gemer. O Negrinho pegou o cavalo e buscou recursos no vizinho mais próximo.
A premência faz as pessoas solidárias. Principalmente entre os de coração agradecido. De Viamão para a Santa Casa. Conta-se que um fazendeiro custeou sua cirurgia e tratamento. “Abriram e fecharam. Mandaram pra casa”! Voltou para sua humilde casa. O palheiro apetecido dormia no canto da mesa, ladeado por um pedaço de “fumirrama” e uma faca feita por ele. O Cão deitado aos pés da tarimba, não lhe tirava os olhos e raramente saía para as necessidades. Não comia como seu amigo. Amigos chegando e depois de um “Oooo de casa” se acomodam num banco encostado na parede. As mulheres se unem em oração e o pároco da Matriz foi ali levado numa camionete Ford Modelo A com a carroceria de madeira que o velho tinha reparado para o fazendeiro. Nunca tinha sido um homem de lides religiosas, mas sempre um respeitador e partilhava o seu pouco com os mais desabonados, com os teatinos e errantes como cão sem dono.
O vento Minuano arrefeceu seu ímpeto, refreou sua bravura e o céu abriu uma janela entre as nuvens invernosas. O sol de fim de tarde esgueirou-se e lançou seus raios, suas setas luminosas que vararam as vidraças a banharam a tarimba com o velho coberto por vasto pelego. Suave como viveu. Sem nenhum alarido, deu seu derradeiro suspiro com a mão sobre a cabeça do Cão e as mãos do Negrinho e da Avilina em sua cabeça. Não havia dor ou réstia de sofrimento em seus olhos. A face serenou. Lágrimas silenciosas foram vertidas com respeito e amor. Desconhecia-se sua origem. Nunca foi necessário saber. Sabe-se, com certeza, seu destino, sua alma imortal se encontrará com o Pai Celestial e lá estará um pequeno comércio, um armazém ou um bolicho para receber com carinho e respeito. Sepultado no cemitério da região.
Poucos dias após o sepultamento, a negra Avilina encontrou o Cão dormindo o sono eterno no mesmo local aos pés do leito de morte do amigo. Conta-se que o Negrinho e a negra Avilina acompanharam uma comitiva de tropeiros e lá pelas bandas do Alegrete encontraram casa e trabalho numa estância cujo filho do dono os conheceu na casa do Velho Maneca Ibraim. As goiabeiras continuaram produzindo os mais belos e saborosos frutos da região, mas a casa degradou-se. E como tapera sucumbiu.
Num mundo de poderosos e ânsia por mais e mais poder. De dominação do homem pelo homem. Do homem sobre os animais e demais membros da natureza. De pessoas infladas de orgulho doentio. De criaturas roubando compulsivamente os bens materiais e a vida dos outros. De seres acumulando riquezas sem fim numa voracidade criminosa e patológica. Há pessoas como o velho Maneca Ibraim, a negra Avilina, o Negrinho e o Cão e as pessoas de espírito fraterno que tornam a vida digna e o horizonte que abrirá uma janela para o sol da divindade penetrar e nos banhar e alimentar.
2020 – 05 – 12 Maio – O velho Maneca Ibraim e seu cão – parte 2 Final – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião






