O velho Maneca Ibraim e seu cão! Parte 2 Final. Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 12 Maio 2020.

 

O velho Maneca Ibraim e seu cão! Parte2 – Final.

O

 piso do armazém era de tijolos de barro da boca do forno. Explicando: Os grandes fornos para queimar os tijolos em seu interior tem uma porta de acesso, a boca do forno, quando a carga de tijolos é encerrada em seu interior essa boca é fechada com outros tijolos. Esses tijolos de fechamento tornam-se extremamente duros, intensa rigidez. Também são muito usados para fazer as paredes de poços que buscam a água nas entranhas da terra. Já a parte da casa tinha assoalho de madeira. Tanto o assoalho como o piso estavam sempre limpos ao extremo. Escovados e lavados com sabão caseiro. Como alguém com a perna e o joelho mutilados fazia essa permanente limpeza? Pois é! Era assim mesmo. Da mesma façanha, tudo no comércio e na casa.

Ainda tinha um “Negrinho”! Assim era seu nome na casa e para os tropeiros. Desse se sabia a origem. Órfão de uma mãe, nunca teve um pai, criado pela avó num fundo de estância das Mostardas. Quando a avó faleceu, se acolherou numa comitiva e foi desvendar ou conhecer um mundo novo. Primeiro se afeiçoou ao Cão. Depois com carinho da Negra e com o consentimento do velho Maneca Efraim ficou. E ficou com satisfação. Assoviava muito mais do que falava. “Pau pra toda obra”, nunca teve difícil ou ruim. Faziam frente no balcão como com os tropeiros. Meu falecido pai Aldo Cabeleira dizia: “Deus faz, o Diabo separa e eles, por si mesmo, se juntam”.

A vida é como um fandango sem fim. A página musical pode estar escrita, mas cada um dança do seu jeito e gosto. Ou desgosto! O dono do salão faz as regras e proclama as diretrizes básicas. O gaiteiro toca, varia as músicas, mas não te obriga a dançar ou escolher o par. E cada vivente é dono do seu nariz e do seu destino. A vida não é uma estrada reta e plana. Tem perau, precipício quase sem fundo. Curva de cotovelo. O clima e as intempéries da mãe natureza e numa dessas manhãs tristes, de chuva fina e gelada, do vento Minuano açoitando mais que língua de sogra, o velho Manoel Efraim não arredou da cama. Uma forte “dor por dentro, ali onde o peito faz fronteira com a barriga”. A negra Avilina preparou um chá quente com uma homeopatia que tinha no armazém. Um suor gelado escorria entre a barba. Os olhos se encovaram. Dentes cerrados. Não se permitia gemer. O Negrinho pegou o cavalo e buscou recursos no vizinho mais próximo.

A premência faz as pessoas solidárias. Principalmente entre os de coração agradecido. De Viamão para a Santa Casa. Conta-se que um fazendeiro custeou sua cirurgia e tratamento. “Abriram e fecharam. Mandaram pra casa”! Voltou para sua humilde casa. O palheiro apetecido dormia no canto da mesa, ladeado por um pedaço de “fumirrama” e uma faca feita por ele. O Cão deitado aos pés da tarimba, não lhe tirava os olhos e raramente saía para as necessidades. Não comia como seu amigo. Amigos chegando e depois de um “Oooo de casa” se acomodam num banco encostado na parede. As mulheres se unem em oração e o pároco da Matriz foi ali levado numa camionete Ford Modelo A com a carroceria de madeira que o velho tinha reparado para o fazendeiro. Nunca tinha sido um homem de lides religiosas, mas sempre um respeitador e partilhava o seu pouco com os mais desabonados, com os teatinos e errantes como cão sem dono.

O vento Minuano arrefeceu seu ímpeto, refreou sua bravura e o céu abriu uma janela entre as nuvens invernosas. O sol de fim de tarde esgueirou-se e lançou seus raios, suas setas luminosas que vararam as vidraças a banharam a tarimba com o velho coberto por vasto pelego. Suave como viveu. Sem nenhum alarido, deu seu derradeiro suspiro com a mão sobre a cabeça do Cão e as mãos do Negrinho e da Avilina em sua cabeça. Não havia dor ou réstia de sofrimento em seus olhos. A face serenou. Lágrimas silenciosas foram vertidas com respeito e amor. Desconhecia-se sua origem. Nunca foi necessário saber. Sabe-se, com certeza, seu destino, sua alma imortal se encontrará com o Pai Celestial e lá estará um pequeno comércio, um armazém ou um bolicho para receber com carinho e respeito. Sepultado no cemitério da região.

Poucos dias após o sepultamento, a negra Avilina encontrou o Cão dormindo o sono eterno no mesmo local aos pés do leito de morte do amigo. Conta-se que o Negrinho e a negra Avilina acompanharam uma comitiva de tropeiros e lá pelas bandas do Alegrete encontraram casa e trabalho numa estância cujo filho do dono os conheceu na casa do Velho Maneca Ibraim. As goiabeiras continuaram produzindo os mais belos e saborosos frutos da região, mas a casa degradou-se. E como tapera sucumbiu.

Num mundo de poderosos e ânsia por mais e mais poder. De dominação do homem pelo homem. Do homem sobre os animais e demais membros da natureza. De pessoas infladas de orgulho doentio. De criaturas roubando compulsivamente os bens materiais e a vida dos outros. De seres acumulando riquezas sem fim numa voracidade criminosa e patológica. Há pessoas como o velho Maneca Ibraim, a negra Avilina, o Negrinho e o Cão e as pessoas de espírito fraterno que tornam a vida digna e o horizonte que abrirá uma janela para o sol da divindade penetrar e nos banhar e alimentar.

2020 – 05 – 12 Maio – O velho Maneca Ibraim e seu cão – parte 2 Final – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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Dia Internacional da Enfermagem!

 

Dia do Enfermeiro e Dia da Enfermeira!

DIA INTERNACIONAL DA ENFERMAGEM – do Enfermeiro e da Enfermeira!

Nosso Respeito e Admiração e real Reconhecimento e Gratidão.

Imagens que assim traduzem e expressam:

 

Medicina com Cristo 3Medicina com Cristo 4Medicina com Cristo 6Medicina com Cristo 7

A Medicina já foi assim 95A Medicina já foi assim 101A Medicina já foi assim 102

DIA MUNDIAL DA ASMA * MÉDICO PNEUMOLOGISTA

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DIA DO MÉDICO OFTALMOLOGISTA

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O velho Maneca Ibraim e seu cão! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 05 Maio 2020.

 

Atendendo as solicitações de leitores dessa vanguarda, capitaneada pelo Pedro “Pedrão” Negeliskii e esculpida a duras digitações por esse cronista, vamos recuperar fragmentos de um passado distante da Primeira Capital de Todos os Gaúchos!

O velho Maneca Ibraim e seu cão! – Parte 1

A

li pela região da Ponta do Aterro, próximo ao ancestral armazém do Tico Laranjeira na ‘bocada’ de acesso à região da Pimenta, talvez entre hoje as terras dos Flores e  dos Veiga teve um pequeno comércio do tal de Maneca Ibraim. Sabe aquelas pessoas que parecem ter nascido velhas. Sempre estiveram velhas. Ninguém as conheceu jovens. Pois o Maneca Ibraim era uma dessas criaturas que na Grécia Antiga seriam seres mitológicos. Havia quem falasse ser parente do meu bisavô Maneca Laurindo e terem vindo no mesmo navio desde Portugal. Talvez o fato de serem de pele muito clara, cabelos de claros a loiros e nariz adunco teve isso motivado. Sabe-se lá! Vamos dizer que o Maneca Ibraim apareceu e se estabeleceu. O seu comércio era parada de tropeiros que por ali cruzavam com a ‘gadaria’. Fez fama seu café cujo aroma era ‘sentido a léguas de distância’ e sempre quente, muito quente no fogão campeiro (ou fogão de rabo) e um chaleirão de ferro com água tinindo. Chimarrão e café. E charque! O velho Maneca Ibraim carneava novilhas antes da entrada do inverno e as varas de charque esperavam os tropeiros de duras e penosas jornadas. Havia aqueles que traziam as tropas desde Mostardas e as levavam aos matadouros de porto Alegre.

A singela morada era cercada por goiabeiras, acreditavam que ele as trouxesse na mochila desde Portugal. A certeza era de goiabas maiores que um punho cerrado. Não havia nenhuma outra com aquele tamanho e as pessoas podiam apanhar e comer com a tranquilidade dos livres de corpo e alma. Interessante era que alguns cavaleiros davam goiabas com a mão em concha para suas montarias e como elas apreciavam. Comiam com o prazer que deviam dar as frutas do Éden. Sim, somente no Paraíso as frutas seriam tão puras e saborosas, claro que antes do holocausto da serpente que encantou a Eva..

“E o cão”? Pois o cão também apareceu assim aparecendo. Me entende? Talvez acompanhasse alguma tropa ou algum cavaleiro deserdado da vida. Talvez alguma criatura sem rumo, desses que vagam sem rumo ou destino. O certo é que sempre o cão escolhe o seu amigo homem. Até pode chamar de dono! O cão era outro desconhecido, anônimo mesmo, que acampou e ficou. Parecia ter a mesma idade do Maneca Ibraim. Velho uma barbaridade. O Cão, sim esse era seu nome que o velho lhe deu, tinha alguma cruza sanguínea com os buldogues campeiros. Daqueles com a coragem e força suficientes para encarar o mais feroz touro e fazê-lo se ajoelhar com as ventas em sangue. Faltava um pedaço do rabo. Seria sequela de alguma peleia braba e feia? Mas agitava aquele meio rabo fazendo festa ao velho quando esse o chamava (Cão) pela troca ritmada de olhares. Não latia. Jamais acuava ou se mostrava impaciente. Somente permitia que um adulto lhe tocasse se o velho assim permitisse, às vezes somente com um meneio de cabeça ou um olhar. Mas com as crianças, sim com as crianças, deitava-se com as patas para o céu e fechava os olhos para receber carinho e até alguma capetagem.

A faca que o gaúcho sempre porta é de primeira utilidade, seja para trabalho ou para combate. O Cão era uma sombra permanente do velho e se alguma alma desenfreada ousasse somente em pensamento, ele desembainhava enormes dentes. Uma armadura e equipamento de lutar de tremer até os desatinados. Somado ao seu tamanho, quase uma bezerra, trazia tranquilidade ao armazém.

“Era somente o velho Maneca Ibraim e o Cão”? Não. Essa parceria cão e homem que iniciou com os lobos há centenas de milhares de anos sempre me cativa. Me encanta contar e visualizar, nem que seja somente com os olhos amorosos do coração. Havia uma negra! Apareceu e ficou também. Talvez não tão idoso quanto o homem, mas as marcas no corpo denotavam uma jornada sofrida. Sempre com um lenço cobrindo a cabeleira rente ao crâneo. Manquejava da perna esquerda. Diziam que tinha uma grande cicatriz próxima ao joelho. O longo vestido não permitia conferir e as palavras que eram escassas e somente as mais necessárias.  (Conclui na próxima semana. Aguarde!)

2020 – 05 – 05 Maio – O Velho Maneca Ibraim e seu cão – 1! Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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