Momento ideal!
“A música suave acalenta as lágrimas que rolam pela face, enquanto a mão busca um pequeno lenço na bolsa. As luzes se concentram no alvo da homenagem derradeira e pétalas de rosa se desprendem do alto. Ave Maria é a mensagem da partitura. O veículo de passagem, lacrado desde o hospital, ascende, enquanto cortinas diáfanas o envolvem como um manto celestial. Somos poucos. Infinitamente menos que ali estariam noutra situação. Abraços fugazes e votos de consolo. Os rostos cobertos trazem máscaras úmidas do pranto continuado…”
Outra melodia do cotidiano nos diz: “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor…” Nossa humanidade nos impele para postergar, deixar para depois, transferir para outra oportunidade. Alguns mais e outros menos. A peste chinesa, chamada de pandemia, se associou ao pandemônio e a fatalidade abriu suas portas, estendeu seu longos e gélidos braços, como tentáculos sinistros, trazendo para seu seio os planos, projetos, aspirações e ideais de tantos amigos e amigas, como de irmãos desconhecidos.
Crônicas & Agudas
O Tempo é um companheiro, tanto um amigo como um cobrador implacável. As divindades que habitam mitos e religiões não investem contra o tempo. Nem o desafiam. O tempo, se fosse um ser vivo, seria ancestral de todas as coisas. Podemos, tentamos ou até queremos regatear, negociar com Deus. Também com Lúcifer! Assim fazemos promessas e calculamos nossas atitudes e pensamentos, medimos nos preces e oferendas para num tempo recebermos nossos benefícios e propósitos. Entretanto, jamais alguém conseguiu pechinchar ou “vamos sentar para acertar nossos relógios” ou “o negócio é o seguinte, dá uma segurada que não quero morrer agora, pois ainda não fiz a viagem para Veneza”, por exemplo, com o Tempo. Talvez assim: “Tchê Tempo, vamos dar um tempo aí que blábláblá”. O tempo não arreda pé do seu… Tempo. Sua balada é firme. Seu trote, que ousamos medir em tic-tacs ou em sombras de relógios, é inexorável.
Crônicas & Agudas
Alguns, talvez perfeccionistas ou postergadores mórbidos, buscam o momento certo, o momento ideal para suas realizações e concretizar seus objetivos e intenções. Evidente que tudo irá se revestir, se blindar numa série consagradora de argumentos que visam sossegar o eu interior. Que luta, esperneia e berra – “pode não dar teeempooo”! Pois é, é mais ou menos assim que essa sinfonia, tantas vezes destrambelhada, se chama de vida. “A vida é curta” – para nós mortais. Para quem busca o momento ideal de trocar de casa-roupa-alimentação-cidade-carro-religião, para ilustrar ou começar, a vida jamais iria sucumbir a um vírus ou ao político corrupto de plantão ou condenado. Acreditava que “quando chegar a hora certa, eu resolvo, eu faço”. Não resolveu e não fez. Sempre lastimamos. Sempre sofremos. A dor busca a solidariedade no coração humano, no afeto ilimitado do cão ou na divina e constante magia da restauração da natureza.
Crônicas & Agudas
O mais belo e puro ser que deambulou nas pedras e poeira desse planeta jamais nos mostrou que estamos aqui para sofrer, penar e causar a dor das pessoas que amamos ou até desconhecemos. Estamos aqui para evoluir na disciplina, no amor, na humildade e na gratidão. Somos livres para escolher nossos caminhos e curtir as incertezas das encruzilhadas. É a caminhada pelo entendimento e evolução. A jornada pessoal torna-se na jornada da vida de todos. O teu ou o meu momento ideal se concretize no agora. Deixar as belezas da existência ou abandonar as enfermidades do espírito para um tempo futuro, para um tempo que não nos pertence, para uma época ou um momento em que poderemos ser pranteados por partirmos muito antes daquilo que projetamos e arquitetamos?
Meu filho Eduardo traçou a essência dessa crônica pela sua percepção do “momento ideal” que vivemos ou que perdemos. E você, qual a sua impressão ou intuição?
2020 – 09 – 22 Setembro – Momento ideal – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
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