A Vida por um fio!
Croché ou crochê? Minha mãe Dora dominava essa arte com maestria e seus trabalhos eram bem considerados. Costureira e dona de casa. Fazia croché para amigos, pois nunca vendeu, e para a sua fé que estampava na segunda grande igreja dessa terra riograndense. Nos últimos anos, nossa bela igreja tornou-se uma sombra, uma pálida imagem, arremedo da sua beleza anterior. Isso acontece quando o orgulho se transforma em dor.
Uma agulha curta com um gancho, como uma fisga na sua extremidade mais afilada, pesca os fios da linha e somando pontos vai moldando os arranjos variados e belos. Sua imagem com a linha e a agulha bailando entre seus dedos no avarandado de nossa casa beira-mar na Cidreira após o café da tarde sempre tão sortido de suas especiarias culinárias, vive no meu coração. Dote, habilidade que minha irmã Shirley aperfeiçoou e multiplicou.
A doença e uma teia de erros médicos deixaram minha mãe com menos de cinquenta anos com a vida por um fio. E o fio se rompeu. Essa expressão “a vida por um fio” tornou-se uma constante na vida do homem médico e cirurgião. Hoje, mais distante da frente de combate mortal, as imagens de enfermos ligados a fios e um tubo que penetra seu corpo para levar o oxigênio vital, invade nossos sentimentos e fere nossos sentidos.
Crônicas & Agudas
Quem já perdeu sabe avaliar e aquilatar a dor e o sofrimento alheio. Donde veio essa expressão que tanto traduz e assusta – a vida por um fio? Na mitologia grega, o início era o Caos absoluto, trevas e escuridão e numa sequência, que espelha outras filosofias e religiões, os deuses primordiais criaram e evoluíram, inclusive formando novas e poderosas divindades.
Ali estava Nix, a deusa primordial da noite e dela nasceram três filhas que “teceriam” o destino de humanos e deuses – Cloto, Láquesis e Átropos, as moiras. Manuseavam um tear, a Roda da Fortuna, composto de oito teares acoplados e em consonância. Cada uma delas tinha três auxiliares, divindades menores, e suas tarefas eram divididas – trabalho de equipe. Até Zeus, o poderoso “rei” dos deuses do Olimpio, era submisso às moiras (Parcas para os romanos).
Cr & Ag
Ali trançavam, teciam, elaboravam a trama vital da humanidade. Cada fio representava um ser, homem ou deus. No topo desse tear místico, a Roda da Fortuna, havia sereias que emitiam sons, sonoridades, cânticos que permeavam vibrando essa trama do tecido em que as vidas, as existências se cruzavam.
Lembra Ulisses e as sereias? Outras seguiam em paralelo, muitas distantes que em certo momento o fio era trazido para um local ao gosto delas. Vezes representadas como velhas horrorosas, outras como jovens belíssimas e eternamente virgens, dotadas do poder que ainda permeia as mulheres. Um fio adelgaçado – uma vida fraca e doentia. Um fio encorpado – opulência, riqueza. Um fio comprime outros – império e poder sobre outras pessoas. Um fio envelhecido – a vida que se esvai. Um fio que se rompe ou é cortado – morte!
Cr & Ag
Há semelhanças em todas as religiões da Terra. Místicos, médiuns e iniciados observam, sentem, visualizam cada corpo emanando uma energia única e há um elo, como um fio etéreo, pleno de energia e vibração que perpassa corpos. Origina-se de cada ser vivo. Cita-se que se destinam, tanto isolados como acoplados num cabo, muitos fios, de infinitas cores, a algum lugar superior (ou inferior).
A luz retorna à luz ou que se perde nas trevas e sucumbe nos planos inferiores da degradação das virtudes. Um fio! Um fio de vida! O fio ancestral. O novelo (fio da meada, o nó!) primordial comprimido e espalhado com a grande divisão universal (Big Bang?), persistindo fios que nos aproximam (amor e ódio).
Liames espirituais ou de energia (quântica?) mantém essa teia ou tecido sendo desenvolvido num tear infinito. Com ou sem as moiras, com ou sem livre arbítrio, mas nas encruzilhadas da vida, da existência…
O fio da vida e… A vida por um fio!
2020 – 09 – 29 Setembro – A Vida por um Fio – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br