Gratidão!
Parte 1 – John e Bogga.
John é seu nome. Único sobrevivente de um acidente de avião na África que vitimou seus pais. Voltou para as terras altas da Escócia, mas na adolescência, depois de visitar seu tio paterno, em alguma região do Vale do Rift, encantou-se ainda mais e permaneceu na África. No gigantesco parque há uma unidade de saúde e escola com voluntários de todo planeta, semelhante ao MSF – Médicos sem Fronteiras. Durante uma expedição a uma aldeia distante, encontrou uma leoa morta por caçadores clandestinos e seu filhote prestes a ser despedaçado e devorado por hienas. Salvou o filhote e o tratou dos ferimentos. O leãozinho integrou-se à pequena comunidade. Mamava na cadela Bogga e brincava com seus filhotes. Recebia mamadeiras de leite de búfala pela manhã, antes de sair ao trabalho, e à noite quando retornava pelo John. Cresceu acompanhando as equipes de saúde e o John pelo parque.
O poder da testosterona do jovem macho se manifestava com certas irritabilidades. Durante uma excursão, sentiu-se atraído por uma família de leões. Ali despediu-se de seu pai e amigo humano. John sabia que o jovem leão teria que ganhar seu espaço e fazer sua família com o poder de sua natureza. É da vida!
Anos depois, John estava encurralado numa borda montanhosa durante terrível tempestade. Raios rasgavam o manto negro do firmamento, enquanto a chuva torrencial arrastava tudo ao seu caminho. Mesmo um homem cunhado na adversidade africana pode acidentar-se. John viu o solo ceder aos seus pés e rolou entre as pedras do barranco.
Imagens bailando desordenadas em sua mente ferida. Seu pai e sua mãe lhe surgiam em halos de luz que eram engolfados pela escuridão. Um leão enfrentando hienas em feroz e mortal combate. Novamente escuridão. O tempo escorria pelo vale. Eis que seus olhos sentem as agulhadas dos raios do sol africano e logo seu calor alfineta todo seu corpo. Perna quebrada. Fratura feia. Sangue coagulado em sua face e mãos. Cabeça ferida e entende o dilúvio de imagens que a concussão aportou. Início lentamente vai se apalpando e identificando seu ferimentos traduzidos e localizados pelas dores intensas.
Todo seu ser explode num temor ancestral, primitivo como naqueles homens da aurora dos tempos da humanidade sendo acossados e devorados por feras e predadores. Um gigantesco e impassível leão está deitado a poucos metros dos seus pés. O cenário se abre num flash e identifica hienas mortas e uma agonizante. Busca desesperado seu rifle, arrasta-se. A faca salta da sua cintura num reflexo desesperado. O enorme leão assiste enquanto lambe seus ferimentos de combate.
John encara a face do leão e estarrece ao notar que o leão tem a pálpebra esquerda semiaberta. Igual ao do filhote que ele salvou das hienas. Igual ao jovem que viveu com ele e as pessoas e animais da unidade no parque. Ele havia ficado com o nome de “filho da Bogga, a cadela”. Depois de sua morte, perpetuou nele o nome de Bogga.
– Bogga?! Repetiu várias vezes. O poderoso animal levanta-se e lentamente se aproxima dele. Deita-se ao seu lado oferecendo a cabeça para o carinho que recebia. Afaga com um carinho dos corações libertos. Entende a situação. O leão manteve-o vivo, protegido de ser devorado pelas terríveis hienas. O rádio está perdido. Bebe a água empoçada nas pedras. Alcança o rifle e marca um perímetro que se violado pelas hienas ele atiraria. A noite se aproxima e o riso macabro e a dança das hienas se aproximando. Somente ele e Bogga. Seu amigo ruge. Ruge para os céus. Logo rugidos de leões surgem no horizonte. Vários leões se aproximam. Sua família chegou para o combate final. Sem mais munição para o rifle, com a faca esgoelada entre os dedos assiste uma cena inaudita. Entre as pedras, com o barranco às suas costas, Bogga e outros leões à sua frente. Uma barreira a lhe proteger. Os leões vencem. Os outros membros da família de Bogga surgem. Seus filhotes vem brincar com ele. John chora e ri. Sua mãe e seu pai voltam aos seus sentidos.
Quando a equipe de resgate o encontra, a cena inacreditável. John cercado por uma família de leões, filhotes nos seus braços e diversas hienas dilaceradas na arena de batalha.
John despede-se do amigo com lágrimas rolando de sua face e uma gratidão que somente a luz identifica.
Observação: Essa crônica continua na próxima edição do melhor jornal da região – Jornal Opinião de Viamão. A versão estendida do Autor estará no próximo livro.
2020 – 10 – 06 Outubro – Gratidão! John e Bogga – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
out 10, 2020 @ 09:59:59
Gratidao