Amanhã de manhã!
O enclausuramento também trouxe a redescoberta do outro. Há quem reaprendeu a valorizar, garimpar qualidades, descobrir portos seguros para ancorar suas emoções e novos caminhos para desbravar certos corações, por vezes duros e empedernidos.
Encontrar belezas e aprender o alfabeto das letras de carinho e entendimento. Como marinheiros em solo firme. Como nascem dois em um, a síntese, uma fusão que deve ser consentida e aprimorada. Respeito e compreensão num território fechado e pequeno, para a maioria dos mortais.
Na crônica Nada será como antes, os sentimentos e emoções despertas incentivam buscar novos horizontes nas mesmas embarcações. A música assim também reaviva, desperta, mobiliza, quando não cutuca e agudiza sentimentos letárgicos ou sonolentos.
A beleza (da outra ou do outro) não está lá fora (somente), pode e geralmente está muito mais próximo do que sentimos nas atribulações da vida competitiva.
[Amanhã de manhã / Vou pedir o café para nós dois / Te fazer um carinho e depois / Te envolver em meus braços / E em meus abraços / Na desordem do quarto esperar/
Lentamente você despertar / E te amar na manhã…]
Roberto Carlos? Sim. Com poesia e música dele e do Erasmo. Como tantas pérolas que embalam e tamborilam em corações por décadas. Nada será como antes na alegria ou na dor. Há a nossa escolha. Sairemos mutilados ou renascidos?
Há casais que encontram um equilíbrio em seu relacionamento com suas vidas estruturadas em locais diversos, diferentes. “Juntos, eles brigam como cão e gato” – dizia a amiga. Juntos eles podem e devem se redescobrir. O rio da vida, as águas da existência são rápidas e o tempo não arregla ou perdoa.
[…Amanhã de manhã / Nossa chama outra vez tão acesa / E o café esfriando na mesa /
Esquecemos de tudo / Sem me importar / Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora / Vou ficar por aqui…]
Amanhecer juntos. Escutar a respiração dela ainda sonolenta. O braço que abraça. A mão que acaricia e os dedos que se enroscam. Deixe o café esfriar. Deixe o tempo correr lá fora, pois ‘nosso amor não tem hora’. A vida que se esfumaça no tropel do ter muito mais do que se necessita, para logo ali ser pranteado por ausentes. E deixa-se isso passar?
[…Pensando bem, amanhã eu nem vou trabalhar / Além do mais temos tantas razões pra ficar / Amanhã de manhã / Eu não quero nenhum compromisso / Tanto tempo esperamos por isso / Desfrutemos de tudo / Quando mais tarde / Nos lembrarmos de abrir a cortina / Já é noite e o dia termina / Vou pedir o jantar…]
Estrelas. Lua. Sol. O tempo deixa de ser senhor e passa a nos servir. Pensando bem, trabalhar em casa aflorou sentimentos, que se cultivados com afeto e respeito, somente flores e bênçãos trarão. Um universo que não é tanto do trabalho, dos filhos e da família, do cão ou do gato. São partes importantes, mas há o núcleo duro, o cerne, onde tudo começou. Começou com os dois – a semente inicial. Há quem esqueça, postergue, adie ou renegue!
[…Nos lençóis macios / Amantes se dão / Travesseiros soltos / Roupas pelo chão / Braços que se abraçam / Bocas que murmuram / Palavras de amor enquanto se procuram…]
Está aqui dentro de nós a capacidade e a habilidade em encontrar a beleza e a Luz nas adversidades. Também está no nosso íntimo relegar aquilo próximo e vaguear buscando felicidade e o furor da paixão lá fora. Veja que ‘apaixonar-se’ há sentido duplo – alegria e dor!
O cronista não se arvora de guru ou mestre. Ele escreve primeiro para si. Sim, ele busca a sua visão, o seu entendimento dos meandros da vida e assim evoluir. Pelo menos, melhorar!
Somos cronistas e escritores das nossas vidas. ‘Amanhã de manhã’ – e você?
2020 – 11 – 17 Novembro – Amanhã de manhã
Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
nov 20, 2020 @ 19:26:32
Linda cronica . Gratidao .