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Cavalo de Mostardas!
Mostardas é um município do Rio Grande do Sul, jovem pela emancipação, entretanto nasceu antes de meados do século XVIII. Inicialmente colonizado por militares e açorianos (como Porto Alegre). Situa-se numa península com o Oceano Atlântico ao nascer do sol e a Lagoa dos Patos no poente. Essa estreita faixa de terra arenosa, com banhados é assolada por fortes ventos, como o tão famoso Nordestão – clima hostil. Com uma população amiga de cerca de 15 mil pessoas. Tradicional produtor de bovinos e ovelhas, com o arroz e a cebola.
Nas suas barbas está a espetacular Lagoa do Peixe com as milhares aves migratórias se reabastecendo para outro tiro em suas longas viagens pelo planeta. O povo mostardeiro representa a luta e o contínuo enfrentamento do homem contra as adversidades da natureza. Perseverança, coragem e resiliência. O artesanato com a lã das ovelhas fez história nos leitos de nascimento e vida (cobertor mostardeiro), como nos cavalos e no vestuário. Essas são pinceladas de abertura de uma região que admiro e guardo belas recordações, assim rumam ao título da crônica.
Crônicas & Agudas
Poderosos fazendeiros de Mostardas e de Viamão exercitavam suas amizades e poder. Conta-se que o velho Serapião Goulart enviou mensageiro para o mais rico mostardeiro com a seguinte mensagem: “Vendi uma tropa de boi brasino pro Norte, daí bota preço nas tuas terras que eu mando o dinheiro”. A resposta vinha em galope suado: “Pois vendi ainda essa semana uma leva de ovelhas meio desdentadas e quero comprar tuas fazendas”.
Os Campos do Viamão e os Caminhos do Viamão levavam tropas de cavalos e bovinos nessas rotas que subiam a serra em direção à Lages, Santa Catarina; depois de Lapa, Paraná, para os mercados de Sorocaba, São Paulo. E daí para Minas Gerais e o resto do Brasil. A cidade de Rio Grande, antigamente era um presídio e forte militar (Jesus, Maria e José) que foi abandonado pelo “governador” ante a iminência da tomada pelo castelhanos, ainda assim há que a trate de primeira capital do Estado.
Crônicas & Agudas
Com um caldinho fétido descendo perna abaixo esses “ilustres e corajosos” fugiram pela lagoa e pela península, escondendo-se nas dunas e enxotando ratão tuco-tuco. Ao chegarem em Mostardas, ganharam cavalos acostumados às piores adversidades. “Quanto custa o cavalo?” – alguém perguntava. “Quanto vale o teu couro?” – outro respondia. “Façam o seguinte quando chegarem a Viamão – soltem os cavalos que eles voltam para cá em Mostardas”. Lenda rural ou realidade.
Realidade: Viamão foi a primeira capital política e moral, reunindo nosso povo contra a invasão castelhana. Os tempos mudam. As pessoas mudam. Até os cavalos mudam. Mas os cavalos voltavam. Inclusive aqueles para o norte, algum tropeiro se distraía e o cavalo fugitivo retornava para seu torrão mostardeiro. Aqueles que não podiam retornar para Mostardas, pastavam com a cabeça sempre virada para seu berço, em qualquer intempérie ou em qualquer campo.
Crônicas & Agudas
Essa sabedoria era apregoada na minha casa. O gaúcho é sempre saudoso do pampa. Outra constatação: a criatura nasceu aqui no Rio Grande espoliado do Sul, vai para outro Estado ou país e… Vira gaúcho até de bombacha e cuia na mão, se reúne num CTG e dança vanerão e bugio até em baile da carnaval. Churrasco então! Começa a puxar pelo sotaque e aprimora o semblante. O vocabulário fica gaudério uma barbaridade.
Alguns cantam Teixeirinha e Baitaca e desencantam uma gaita modelo Borghetinho. Olhem aí os “cavalos de mostardas”, no melhor, amplo e sensacional sentido.
Até me sinto “cavalo de mostardas” quando viajo – na ida, tempo para tudo. Na volta – louco de vontade chegar em casa e dormir na minha cama e olhar minha terra.
E tu vivente?
2021 – 02 – 23 Fevereiro
Cavalo de Mostardas
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
Mostardas – a Península Selvagem!
. . Um vídeo ilustrativo da Região.
https://www.youtube.com/watch?v=DI7WZAnr3nI