A Negra dos Sonhos!
A honra, o respeito, o trabalho digno, o orgulho de ser quem é e ser importante para a vida até de desconhecidos. Nesses tempos sombrios de peste por vírus e por criaturas desnutridas de dignidade, há que recordar e enaltecer tantas pessoas com vidas exemplares.
Sou o escritor viamonense que mais escreveu sobre brasileiros negros. Orgulho das origens da maioria de nosso povo, maioria de nós! Relembramos fragmentos luminosos das vivências com o querido “Negão do Picolé” entre tantas. Ao contrário do jornalismo cínico que mostra negros para sexo ou rodas de música improdutivas num mundo que avança e premia o mérito digno das conquistas suadas em bancos de escola ou no árduo trabalho do dia a dia.
“Olha o sonho! Olha o pão quentinho”!
Do meio ao final da tarde, aquela carroça despontava na Rua 2 da centenária praia da Cidreira, no litoral gaúcho de areia no rosto e vento Nordestão. A batida do cabo do relho contra as paredes de madeira da carroça e o grito que atiçava e cativava a todos – “Olha o sonho! Olha o pão quentinho!”. “Olha o sonho da Nega!”. Lá se vão quase 50 anos de praia!
As mães já a aguardavam com cestinhas e pratos para comprar um sonho bonito na aparência como outros, mas especial na energia vital do amor do seu nascimento ao degustar. O cavalo velho tinha piloto automático. Explico: estacionava próximo das casas, enquanto buscava alguma grama.
A Negra dos Sonhos descobria o pano alvo, extremamente branco e com um sútil perfume de anil dos tecidos quarados com aptidão em gramados. Vezes, sua filha ou filho ficava na carroça com as rédeas soltas do cavalo, enquanto ela levava seu balaio de casa em casa. “Tá bom o meu sonho, vizinha?”, perguntava. “A senhora prefere com mais canela e açúcar ou assim tá bom?”, entre sorrisos e cortesia ímpar.
“E as crianças?”
Esses fazem a orquestra. São os membros principais dessa sinfonia. A piazada (crianças) saltitando em torno da carroça: “Cuidado com o cavalo Duda”! – gritava a mãe ansiosa. No entanto, o cavalo (seria égua?) era bem mais cuidadoso que as crianças em ebulição. Seus olhinhos saltavam das órbitas suadas e via-se no colarinho do pescoço suado o engolir de goles de saliva. Um filme em suas cabecinhas, sentindo aquela massa divina enrolar-se na língua, rolar na boca, lamber os lábios depois do cheirinho de huuum. “Posso comer mais um mãe? – claro que podia. Sempre podia. Uma alegria para a mãe e para a Negra dos Sonhos.
Muitas mães sabiam que os esposos estariam esperando o “sonho da Negra” para o café da tarde, após a tradicional soneca praiana pós-almoço. Muitas vezes se adiantava à mãe e chamava a criança: “Vem aqui lindinha e pegue esse sonho gostoso que eu fiz para ti e leva outro pro maninho”! De início, comemos com os olhos, os olhinhos saltavam e a boquinha salivava. Sentar com os amiguinhos em silêncio quebrado pelos suspiros e “tá muito bom isso”.
As Lembranças e as Certezas!
A lembrança é pessoal e coletiva. As recordações flutuam e até divergem na mesma situação. A nossa saudosa secretária Nara Regina e o Gilcério são os pais da Gislaine, uma bela moça, querida por todos seus alunos e amigos. A Gislaine recordou para mim a sua infância na praia com a sua “Negra dos Sonhos”. Seria a mesma?
Na crônica do Negão do Picolé, recebi várias mensagens recordando e revivendo essas criaturas iluminadas pelo amor e dignificadas pelo trabalho e que conviveram conosco. Há quem não se aperceba, mas é da vida. Gratidão! Outras certezas – Respeito e Amor!
Uma oração para eles e para nossa “mãe preta” – Dona Zulmira Andrade. Quase um século, 100 anos de amor às crianças e várias gerações de viamonenses. Sobrevivendo à pandemia e ajudando aos colegas da casa de idosos. Creio que existem anjos sem asas, com a centelha divina em seus corações e a missão de nos privilegiar com as suas existências.
A Negra dos Sonhos
Eds Olimpio
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
fev 08, 2021 @ 07:03:20
Gratidao