Saco de Gatos!
“Há gatos e gatos; há, também, uns mais gatos que outros!” – enunciava o Filósofo do Apocalipse. Quanto aos felinos, havia (?) uma prática absurda e criminosa com os gatos, assim observei na infância e juventude. E ainda escutei como médico no confessionário das quatro paredes do consultório.
“Qual seria?” – você pergunta. As casas preferiam cães e gatos machos, pois as atribulações do cio dos animais feria a educação, o conforto e até a espiritualidade de muitas pessoas. Havia constrangimento de, por exemplo, cadela e cão acasalados com a cachorrada acuando e os guris jogando baldes de água.
O acasalamento dos felinos era mais sutil, não menos barulhenta a orgia noturna, com proles eram consideráveis. A prática cruel consistia em ensacar os gatos e jogá-los dentro de um rio ou no Lago da Tarumã, aqui no centro histórico de Viamão, a Primeira Capital de Todos os Gaúchos.
Cr & Ag
Ninguém sabia ou desejava explicar a origem de tal crueldade e, para piorar, a mantinham como uma tradição. Não há filho sem pai ou sem mãe; não há obra sem planejador e construtor. A pesquisa nos remete à terrível Inquisição patrocinada pela Igreja Católica à caça dos hereges e potencialmente nefastos ao cristianismo. Aqui se cruza a Peste Negra, que pela Rota da Seda e das Especiarias, desde a China e confins da Ásia, varou terras e mares e instalou-se na Europa. Varrendo-a mortalmente.
O vetor era a pulga do rato negro albergando a bactéria Yersínia pestis – na época se desconhecia. Sabe-se que o gato é um predador e inimigo natural do rato. Aqui trombamos com o mito ou a realidade parcial ou total. Conta-se que o papa Gregório IX, pelos anos de 1232, emitiu uma bula papal condenando os gatos negros da Alemanha, inicialmente, com agentes do mal e associados à bruxaria, feitiçaria e diversas práticas pagãs.
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A peste exterminou mais da metade da população e até 2/3 em certas regiões. Como também se atribuía castigo divino às enfermidades, a Inquisição e seus acólitos exterminavam rapidamente os seus desafetos.
Os acusados eram ferozmente torturados até confessarem qualquer coisa, sobreviventes da tortura eram queimados em fogueiras. Ter gatos em casa, nem precisava ser preto, já servia como pretexto de denúncia e incriminação. Na civilização dos faraós o gato era um “semideus”, vivia entre os dois mundos – da vida e da morte.
Em outros povos, semelhante. Os gatos sempre temeram a água, daí a prática de condená-los à morte e expurgar o “demônio” – ensacar e jogar em lagos e rios. Não havia espaço para dissidência no poder inquisitório, não se satisfaziam somente com a matança, necessitavam da matança com o maior sofrimento possível de pessoas e animais. Observaram que o viés do “negro” ou “preto” se associa com escuridão e com o mal nesse entendimento? Estaria aí, também, agravada a separação das raças por sua cor?
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“A vida é como um carrossel, mudam os cavalinhos e quem os monta, mas fica tudo parecido ou na mesma…” – outra do Filósofo.
Há países que albergam seus ratos e pulgas negras infectadas de um peste inquisitorial que se arrasta há décadas, pelo menos, matando e adoecendo estruturas e pessoas. Seus acólitos e obsidiados, seus sacos sem fundo, fariam suar gelado o “velho do saco” (lenda popular). Vivem um devaneio de luxo, poder e ostentação, não toleram a mínima contestação. São como a peste, como o flagelo que pune com a “fogueira legal”.
A inquisição medieval se perpetua nesse tribunal sombrio e alheio à vida e à dignidade das pessoas que trabalham, do povo que vegeta, são portentosos nos privilégios aos criminosos e perpétuos na sua autoproteção.
“E o corona?” – pensou. Esse será limitado pela Medicina, como outras pestes. Essa outra, não tem prazo para acabar e muito dependerá de cada um dos eleitores desses países vampirizados pela impunidade.
2021 – 07 – 27 Julho – Saco de Gatos – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
Agradecimento.
Muito obrigado pelas mensagens recebidas pelo Dia do Médico Cirurgião, na data de ontem (30 Julho). Esse ano recebi a titulação de Médico Cirurgião Jubilado pelas minhas Entidades de Classe, como a SOCIGERS – Sociedade de Cirurgia Geral do RS, AMRIGS – Associação Médica do RS, CREMERS – Conselho Regional de Medicina do RS, AMB – Associação Médica Brasileira. São 50 Anos de Medicina e contribuição/participação ininterrupta nas nossas Entidades.

