Estender a Mão!
Aguce a sua memória e comigo recordemos do teto da Capela Sistina, no Vaticano, com o afresco tão célebre quanto sagrado do gênio Michelangelo. Deus cercado pelos anjos estende seu braço direito e a ponta de seu dedo indicador busca os dedos do homem. Ou seria o contrário? A mão do homem buscando a salvação ou o perdão do Pai. Desconhecemos as reais intenções e sentimentos do autor, mas fica a imagem das mãos estendidas.
A Bíblia Sagrada contempla várias passagens sobre “estender a mão”. A sacralização do ato acompanha uns e persegue outros. Estender a mão é partilhar, é oferecer seu apoio, ajudar e ter compaixão. “De qualquer jeito?” – a mão estendida sem o fechamento agressivo do punho, antecipando ou oferecendo combate, defesa ou agressão. Tão dramático quanto cruel poderá ser “negar o braço amigo” e “recolher a mão”.
Crônicas & Agudas
É a mãe amorosa com a mão estendida abraçando seu filho; a avó enviando beijos a netinha num abano de amor que enxota as nuvens cinzentas da saudade; do noivo ao pegar a mão de sua amada e num altar erguido em seus corações lhe transmite o amor que alimentado e cuidado irá florescer toda a jornada; a namorada com a mão estendida no rosto de seu amado e com a suavidade da pluma de uma ave do paraíso afasta surpresos cravos e tumefatas espinhas; talvez uma singela mão espalmada sobre os supercílios e mirar no horizonte aquele vulto, que seus olhos idosos encantam-se em identificar – sua companheira de uma vida que no balanço das sacolas traz do mercadinho alimentos para o corpo e a alma. Todavia, aos erros dando “mão à palmatória”!
Crônicas & Agudas
Para muitas pessoas a vida é um circo e ali naquele anfiteatro de luzes e sombras, de música e risos, de sustos e de gargalhadas, seremos apresentadores, domadores, mágicos… Trapezistas? Ou somente retaguarda no espetáculo, nem plateia e nem ator, simplesmente os ‘peludos’ – trabalhadores humildes, que sem eles as coisas jamais acontecem.
A mão estendida do trapezista assemelha-se as mãos de Michelangelo? A tempo e no segundo fatal as mãos se encontram e impedem a queda, que seria fatídica sem a rede. Recordo assim a música Chão de Estrelas de Orestes Barbosa e Silvio Caldas na voz do gaúcho Nelson Gonçalves:
“[Minha vida era um palco iluminado | Eu vivia vestido de doirado | Palhaço das perdidas ilusões | Cheio dos guizos falsos da alegria ! Andei cantando minha fantasia | Entre palmas febris dos corações…]”
Crônicas & Agudas
“Estender a mão ao próximo”, geralmente facilita se o “próximo” estiver distante. Por vezes, bem distante mesmo. A mão do médico que examina/trata e do cirurgião que corrige; a mão do bombeiro que puxa a vítima da fumaça sufocante e do fogo que tudo consome; do salva-vidas que arranca das correntezas e dos perigos da água que afoga a criatura que se debate antevendo a vida que faltará; braços estendidos num abraço amoroso e protetor seja do gari ao poderoso entre os homens.
Ansiamos e necessitamos que braços estendidos, mãos amigas nos acolham, confortem e, talvez, salvem nossas vidas. Entretanto, a maioria das criaturas esquece de renovar a atitude num agradecimento ou até numa prece silenciosa no altar do coração pleno de gratidão.
Crônicas & Agudas
O cineasta Spielberg trouxe a pintura de Michelangelo e, com sua peculiar genialidade, no filme ET – o extraterrestre tocaram-se os braços estendidos do garoto e da criatura, mãos com seus dedos se tocando e a luz sendo feita. O braço estendido e o toque de luz. Seria essa a maior mensagem camuflada no gesto singelo?
Ouso lhe perguntar: já estendeu seu braço hoje? Já acariciou? Qual a sua motivação e como fez? Claro que aceito a pergunta de volta! Abraço, Você!
2021 – 08 – 30 Agosto – Estender a mão – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

