Domingo na Orla (praia)
Parte 3 – Final
Série: Rir ainda é um bom remédio.
E nosso amigo Arigó da Faxina continua seu relato heroico!
“A sogra velha já tinha melhorado muito e estava faceira caminhando na água do mar. Foi aí que deu outro problema, a velha se lembrou da cadeira que tinha trazido. Eu nunca tomei fé dessas cadeiras de alumínio, são fracas. A velha embestou de botar a cadeira e sentar para as ondas baterem na erisipela. E não faltou aviso.
A minha nega armou a cadeira, a velha deu uma sungada no vestido e se agarrou no braço da cadeira para sentar. Sobrava bunda e faltava cadeira. Senti o drama. Quando a velha largou o peso a cadeira não aguentou e arriou. Meu amigo, a velha emborcou e virou os pés pra cima. Foi um Deus nos acuda. Juntou povo em volta. A velha braba que era uma fera, largou um monte de desaforos pra cadeira e pra quem estava rindo. Saí de perto, fui cuidar do churrasco. Até um metido à salva-vidas veio acudir a gritaria.
Alguém deve ter esquecido uma porta aberta, pois começou um vento encanado. Sabe o Nordestão? Era ele mesmo. O tempo estava bom demais, eu até já estava estranhando. Mas o sol se mantinha firme, valente lá em cima – parecia o Bolsonaro a cavalo.
É bom demais um churrasquinho assim. Até a velha acalmou os nervos e comeu umas tiras de vazio e roeu uma costela gorda de pingar a graxa e com arroz branco e muita Pepsi. Isso ela não rejeita de modo maneira. Até um cusco apareceu com o cheiro da carne levada pelo vento. Levou um osso também. Comemos muito bem. Tomei mais umas latinhas de cerveja e senti chegar aquele sono da tarde. Chegou de mansinho. Ainda deu para comer uma fatia de abacaxi com compota de pêssego que estava na sacola da sogrinha.
A nega acomodou as crianças na camionete e avisou que se fizessem barulho ia ter orelha arrancada. Me acomodei numa esteira e apaguei, amigo. Só me acordei com a nega gemendo que tinha dormido no sol e estava toda ardendo de queimada. Eu tinha uma duna dentro da boca e areia em tudo que era lugar e buraco. Coisas do Nordestão. Tu vê, a mulher também apagou e com a vontade de se bronzear, fritou no sol e no vento. Era um vermelhidão só. Ai-ai e ui-ui de tudo que era tamanho. Sol já tinha sumido e começara até a refrescar. Vantagem. Ainda bem que ela tinha levado uns óleos e outros cremes. Queria que passasse, mas sem botar a mão. Fiquei com remorso de estimular por causa da marquinha do biquíni, agora a nega estava ali que nem uma picanha mal passada.
Enquanto eu, a sogra e as crianças recolhíamos aquela tralha toda, a nega estava ali de braços e compasso aberto gemendo. E eu que antes de dormir ainda planejava um passeio e uma namorada nos cômoros, como nos antigos tempos buscando ninho de rinchão! Olha meu, coisa bem feia. Roupa nem pensar. Coloquei um lençol por cima e encaixei ela no banco e viemos embora. De tão atucanado terminei esquecendo dos espetos e da minha faca carneadeira presente do velho meu pai lá na praia. Só pra encurtar o drama que ainda tenho que dar outras voltas, passamos no plantão do hospital e quase que a nega teve que baixar. A volta? Outro dia te conto. Tchau. Abraço no Duda, meu devogado!”
Nota do Cronista!
Tradicionalmente, há quase 30 anos de jornal, publicamos durante o verão praiano crônicas de bom humor. De tristezas basta a política, a peste chinesa e tantas outras ‘intempéries’ que nos assolam. Desde o início da pandemia evitamos essa linha literária. Com tratamentos diversos, vacinas sequenciais, rezas e benzimentos, álcool e máscaras, cada criatura vai lutando conforme pode e sua liberdade norteia. E respeitamos sempre. Ninguém duvida que o melhor humor ativa, aumenta e evolui as defesas imunitárias do ser humano. Vamos vencer!
2022.02.08 – Domingo na Orla 3 – Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão