“Velho Tutu!” – Arthur José Gattino.
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Há histórias e estórias. Várias se transformam em lendas urbanas ou rurais e com o distanciamento na estrada inexorável do tempo, as testemunhas oculares cumprem seu papel na época e logo estarão num outro plano existencial. Nos últimos 30 anos, nesse púlpito de jornalismo, relatei diversas histórias e causos. Inclusive há quem aproveitou e sem relatar a primeira fonte, a vertente original, sem saber separar o conto da realidade, usam com “lendas de Viamão”. Como se não tivessem autor definido e incontestável.
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A velha Viamão Setembrina dos Farrapos, carecia de médicos e de um hospital. Saúde praticada por farmacêuticos, práticos dentistas e homeopatas. Quando a doença encaroçava e a “coisa ficava preta”, enfermo mal mas sem encarreirar na “bossoroca” (momentos finais), buscavam-se atendimentos com os mais afamados médicos e hospitais na capital de Porto Alegre.
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Crônicas & Agudas!
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No cerne de uma tradicional e respeitada família viamonense está o “Velho Tutu”. Apelido carinhoso e eivado do maior respeito e admiração pelo afeto, cuidados e dedicação com seus enfermos. Recebi esse relato pelo meu pai Aldo ‘Cabeleira’ Oliveira. Um adendo aos desprevenidos da realidade – a espiritualidade é estudada nas universidades, tema de congressos, como em Cardiologia, exercitada por médicos e demais oficiais de saúde.
O “Velho Tutu” possuía essas habilidades especiais que são geridas com respeito e dedicação por aqueles que não conseguiram cursar uma universidade. Tratava seus enfermos com homeopatias e sempre orientava a manter seus tratamentos médicos.
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Crônicas & Agudas!
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Uma criança enferma já havia trilhado os médicos de Viamão. A família gastara o que tinha e aquilo que outros familiares e amigos auxiliaram. A melhora não apontava no horizonte sombrio. Seu corpinho definhava. Os diagnósticos se entremeavam numa trança sem pontas. A família jamais poupou esforços. Eis que um dia aconteceu algo que sempre se chamou assim ao enfermo “incurável” – estava “desenganado”! Ao “desenganado” restava se recolher ao seio de sua família, cercar-se de orações, promessas, missas e tudo o mais que pudesse trazer algum conforto na desesperança quase geral. Contou-me que o “Velho Tutu” jamais desistiu e afundava a estrada medicando e amparando a criança. Dias e noites – ali estava ele!
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Crônicas & Agudas!
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À noite, tum-tum-tum – alguém batia à porta da casa do “Velho Tutu”. Acendeu-se um candeeiro e foi atender. Talvez mais algum doente buscando seu tratamento, pensaram. Era um homem bem vestido, de avental branco e idade avançada. Logo viram que não era de Viamão. Educadamente solicitou ingresso na casa. Concedido, sentou-se numa cadeira à mesa. Outros familiares achegaram-se. O homem disse ser um médico já falecido e que clinicara em algum estado do nordeste do Brasil. Estupefatos, todos se apertavam no costado do “Velho Tutu”. O homem continuava_: – Nós observamos seu trabalho a muito tempo. Sabemos da angústia da família e dos que o tratam. Sou encarregado de te auxiliar no tratamento e a criança ficará curada. _Conversaram pela madrugada. Quase ao raiar do sol, o médico despediu-se, varou a porta e no jardim começou a elevar-se ao céu, acenou se despedindo e desapareceu. As orientações foram executadas e a criança curou-se plenamente e o próprio enfermo, já adulto, contava o fato.
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Corações plenos de humanidade, assim se fazia Medicina e assim se cuidava de enfermos. Nesses tempos ardilosos, com uma pandemia de vírus e de escassez de dignidade e amor, enfermos sucumbem, outros não são tratados por um falso zelo de cunho ideológico, para muitos resta o desamor e a desesperança!
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Médico e Cronista: aqui abraço meu caro amigo de infância Artur Gattino, neto do “Velho Tutu”, Vereador de Viamão por 16 anos e funcionário destacado da Assembleia Legislativa do RGS.
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2022.03.15 – O “Velho Tutu” – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão