A Cabea do Bacalhau! – Edson Olimpio – 26 Abril 2022

A Cabeça do Bacalhau!

Escrevo essa crônica num sábado de Páscoa. Amanhã o Coelho Pascal distribuirá ovinhos e ovões, conforme o poderio monetário da criatura “ovacionada” (cruel essa!). Por que coelho na Páscoa? Se provocar o Google surgirão origens mil. Como a representação da fertilidade, tanto pelo número de crias quanto pelas várias gravidezes anuais da dona coelha. No entanto classificar um homem de “coelho” (caolho – “no bronca”) será ofensiva e deprimente na sua sexualidade.

Há mitos pagãos sobre o coelho comemorar o final do inverno. Orelhas grandes significam inteligência escassa para o jumento e assemelhados. E para o coelho? Ovo de chocolate num mamífero? Era difícil enfrentar as perguntas dos filhos e depois dos netos. Tentava escapar pela tangente, pelos olhares estava claro para eles: “O vovô tá enrolado e não sabe nada de coelho.” Enfim, o espírito pascal se ancora num porto repleto de ensinamentos, percepções e entendimentos que para nós cristãos são fundamentos de nossa existência.

Crônicas & Agudas!

Há dias em que os neurônios se rebelam. Nesses dias em que o peixe, por milenar tradição, está à mesa pronto para ser degustado nas mais diversas e apetitosas configurações. Um paciente, nos tempos de Capivari do Sul, trouxe-me um “ovo de avestruz” (leia-se: ema) e bateu de peito de pé: “Tô criando uns coelhos macanudos e já tão botando ovo de Páscoa. Vô forrar o poncho de tantos pilas”. Colocou pólvora no estrogonofe de camarão.

Até o humor do gaúcho é assim meio abagualado e xucro uma beirada. Aqui o xiru fica palitando os dentes com a ponta da adaga enquanto conta os deitados na peleia e tira proveito até da desgraça para fazer um amigo sorrir e não arriar os ombros nas intempéries da vida. Com essa largada do amigo paciente, quase me caíram os butiás dos bolsos, mas num relance aprumamos uma risada.

Crônicas & Agudas!

Conhece Chester? Não, não é o mordomo do FHC. Chester, aquele bombado frango de Natal. Deve ser um frango de academia, puxador de ferro, um “halterofrangofilista”. Sabe que os pacientes gostam de aplicar nos seus médicos? Sempre tem uma pegadinha. Uma piada de plantão. Um causo sabido e até descabido. Pois é, nesse balanço da carreta sem as abóboras se ajeitarem, o paciente sacou e atirou mirando com o olho esquerdo tipo japonês – de fresta!. “Edinho, tenho uma conhecida que está criando Chester com o marido e vendendo os ovos dele.” – entre um sorriso de político safado. E contou uma estória.

Alguém de “vozes” já viu um Chester no pátio, ciscando e comendo minhocas ou arrastando a asa para uma franga numa cantada funk? Eu nunca vi! Ou alguém ter uma criação de Chester ou desses parrudos assemelhados como fábrica de Hércules e clones do Arnold Schwarzenegger? “Jamé l’amour” – no verbo do Arigó do Lago da Tarumã, em bom francês viamonense.

Crônicas & Agudas!

Bacalhau! Não aquele que se usa no conserto do pneu (manchão). Não o jogador de futebol que joga a meia-boca, nem fede muito e nem cheira demais, entre San Juan e Mendoza, pega um bom contrato e se aposenta – no Colorado tem uma tropa. Nem outros de dicionário espremido – bacalhau, o peixe ícone da culinária portuguesa com certeza e de “nosotros” do outro lado do mar. Salgado ou sem sal. Pensa nuns bolinhos de bacalhau com um vinho ou uma cerveja gelada. Bacalhau à Gomes de Sá ou nas mais variadas versões e diversões, sabores deliciosos e até de comer ajoelhado.

Pois é, onde está a cabeça do bacalhau? Tem que ter. Não é parente da minhoca. O gato não comeu. Esse é outro desses mistérios que me corroem a mente nesse sábado de aleluia e sem um baile para ir. Cadê a cabeça do bacalhau? Quedê? Alguém, algum iluminado ministro do STF já viu e agarrou a cabeça do bacalhau? Embananou de vez. Lascou total.

O doutor Cabeça, meu meio-irmão, passaporte português, cidadania lusitana, escalou-se para clarear o mistério da cabeça do bacalhau. Enquanto isso, aceita mais um bolinho de bacalhau?

2022.04.26 – A Cabeça do Bacalhau – Edson Olimpio Oliveira

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Dia da CONTABILIDADE/ CONTABILISTA

Reconhecimento.Respeito. Gratidão!

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Cantando na Chuva! Edson Olimpio Oliveira – Crnicas & Agudas de 19 Abril 2022.

Cantando na Chuva!

Há lembranças que varam as décadas e, amorosamente instaladas num sofá especial da mente, afloram intensamente de quando em vez. O netinho Ítalo da Clarice, minha secretária, encanta-se com o cheiro da terra molhada, quando os primeiros pingos de chuva desafiam e enfrentam a poeira das ruas. “Que cheirinho bom esse de terra molhada, vovó!” – sapeca o verbo no topo dos seus 5 anos de idade.

Nos áureos tempos de estudante e depois de médico no Hospital da Criança Santo Antônio, os veteranos mestres nos alertavam para as diferenças de imunidade e desenvolvimento corporal e mental de crianças engaioladas nos espigões do centro de Porto Alegre em contraste com as crianças de periferia e sua liberdade de brincar nas ruas, nos campinhos, no sol e na chuva.

Em 1952, uns 70 anos bem passados, estreava a película Singin’ in the Rain (Cantando na chuva) com Gene Kelly dançando e cantando num cenário de forte chuva. Lembra-se?

[Estou cantando na chuva | Apenas cantando na chuva | Que sensação gloriosa | estou feliz novamente | Estou rindo das nuvens | Tão escuras,
lá no alto | O sol está no meu coração | E estou pronto para o amor]

O cheiro de terra molhada. A água, como ouro caído do céu, vai batucando com seus pingos a face. Os olhos, de início, se protegem. As pálpebras fecham-se num reflexo ancestral, primitivo de proteção, mas logo se abrem num iluminar a alma que se alegra. Somos crianças. Somos crianças em qualquer idade que a bem-aventurança floresce em nossos corações. Outras crianças recebem esse chamado e as mães, ainda temerosas de uma gripe ou uma dor de garganta, tentam frear os impulsos. Impulsos! Uma leve parada no acostamento da crônica: um dos piores suicídios é cortar os IMpulsos do coração.

Retornando! Formam-se poças de água. A lama vermelha, como a cor do sangue da humanidade de todos os horizontes, amacia e sova os pés descalços. Chutar uma poça de água! Chutar a água barrenta seja no cão amigo fiel, na irmã, nos irmãos, nos amigos ou simplesmente para que os respingos atinjam a si próprio. Logo aparece alguém com uma bola e a pelada está formada. E o circo está armado e ativo.

[Deixe as nuvens carregadas espantarem | Todos de seus lugares | Venha com a chuva | Coloque um sorriso no meu rosto | Vou seguir esse caminho | Com um refrão feliz | Apenas cantando | E cantando na chuva!] – Gene Kelly

Embrutecemos como humanidade. A natureza bela e fluida é nossa amiga e companheira. Geniosa? Cada um com sua personalidade, seu espírito, sua luz e sua sombra, suas lágrimas e seus risos. A chuva é uma bênção, um presente dos céus. Também ensinamento e freio para nossos desvios e atrevimentos.

Nos idos e longos tempos na sela das Morganas, nossas motocicletas, escutava-se muito sobre a sensação de liberdade do vento no rosto. Sempre pensei na chuva, principalmente, a chuva que te exige uma pilotagem mais segura, mas que lava o corpo e ilumina a alma. E assim bailamos na chuva. Permita-se recordar. Solte-se e repita, refloresça sentimentos, liberte a beleza, compartilhe – brinque e dance. E cante na chuva!

2022.04.19 – Cantando na Chuva – Edson Olimpio Oliveira

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Impunidade! Teu nome é Brasil?

Impunidade!

Teu nome é Brasil?

Em verso e prosa, a maioria cantarola que o Brasil é a “terra do futebol”. Nosso futebol sempre encantou pela beleza cênica, pela arte incomparável de seus jogadores que um drible vertia lágrimas ou ondas de riso e palmas. Entretanto perdemos o pouco da objetividade que tínhamos e sepultamos a glória do Pelé de todos os tempos e aqui no garrão cascudo da Pátria de um Falcão ou de um Ronaldinho.

Acostumamos com o parasitismo nos e dos clubes de futebol, a paixão novamente vence a razão. Se dentro das quatro linhas do gramado e no perímetro dos lençóis suados tudo vale pelo amor, o brasileiro aceita e elege aquilo que é o seu espelho. É a sua imagem refletida nos seus sabores e dissabores. Competência e merecimento são desprezíveis e não há nenhum latejar da consciência nas biscas e nas excrecências que nos dirigem, guardam e governam.

Crônicas & Agudas!

Brincar, gozar com o outro, tirar sarro, ou qualquer outra dessas pregações deveria se lastrear e encarar pelo respeito à pessoa. Se humana é bem melhor! Um criminoso acobertado pelo poder sinistro da turba arremessa a pedra que fere dentro do ônibus um jogador de futebol. Observe o arguto leitor que isso é um fato repetido em todas as suas variantes.

A pedra aqui é a bala contra um ônibus de eleitores ou políticos. É o mesmo ônibus incendiado pelos criminosos em algum tipo de “protesto”, ou algum alucinado imagina incendiar um ônibus lotado de pessoas para protestar contra qualquer coisa? “Ah, mas foi ato de torcedor adversário!” – memória obtusa, Torcedores (criminosos) invadem e agridem pessoas de seus próprios times.

Crônicas & Agudas!

A impunidade começa na complacência dos pais que permitem e apoiam diferentemente o filho homem em detrimento da filha menina. Um tribunal que julga pela cor e ideologia, remete àquela semente plantada lá naquele lar de elite ou no casebre. Um lar se ergue nos exemplos de seus membros, na história de seus ancestrais e caminha pelas escolhas que fizeram durante suas provas.

Não desejo que você concorde comigo, incito que você abra seu coração e gerencie com a sua razão. Qualquer povo de qualquer nação ou época é a continuação de seus lares e das pessoas que neles foram forjados. Nas últimas décadas temos aperfeiçoado a arte de formar e nutrir tudo aquilo que qualquer desavisado sabe que vai dar errado. E dá!

Crônicas & Agudas!

“Um dia Deus vai colocar o dedo na tua moleira!” – antiga sabedoria popular. “Moleira” é a fontanela em Medicina, i.é, região do crânio onde a armadura óssea ainda não fechou completamente, sendo área de risco nas crianças. Observe que que cada criatura que deseja evoluir e fazer a sua terra, pátria, nação, povo crescer precisa colocar o dedo em sua moleira. O município é a casa do eleitor, o país é o seu quintal (modifique, se desejar!) suas escolhas refletem onde? Indague-se!

Muito dessa escória nominada que nos governa e, principalmente, nos desgoverna está aí porque foram colocados e confirmados por alguém. O Divino Espírito Santo não os desceu dos céus. Aquilo que iniciou num lar, passou pelas péssimas escolas e piores universidades, forneceu conhecimento, aperfeiçoou monstruosidades – o Google seria uma estrada mais curta – e… Caráter?

A impunidade de um criminoso se condecora, ganha garbo e mesuras com uma caneta de ministro. Lá na base, na ponta da corda, tem a autoridade policial e o jornalismo do coitadismo e das “vítimas da sociedade”. Atores desse teatro macabro que nenhum dinheiro é suficiente para sustentar, nem quando a morte varre suas entranhas de país e as verbas eleitorais persistem. Do futebol, do lar, da delegacia, da política, …

A lista é longa! Dedo na moleira e assumir a responsabilidade! O indiferente é tão culpado quanto o resultado das más escolhas “dos outros”.

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*2022.04.12 – Impunidade – Teu nome é Brasil – Edson Olimpio Oliveira*

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Feliz Páscoa! A arte e sensibilidade do formidável artista 🎨 Aldo Locatelli.

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Tempos de Páscoa! Sexta-feira Santa!

Tempos de Páscoa!

Sexta-feira Santa!

Reflexão e melhor entendimento. Se eu estivesse na Terra Santa, em Jerusalém, naqueles tempos, o que eu teria feito por Ele? Como eu teria agido? Qual o sentimento que aquelas pessoas carregam consigo? Eu, hoje, me comporto de que maneira?

São algumas perguntas que me faço.

Há duas humanidades, uma antes e outra depois Dele!

Que o abraço teu e meu seja o abraço Dele!

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico – Cirurgião

Escritor – Jornalismo

CREMERS 07720

Médico e Cirurgião Jubilado

SOCIERGS – Sociedade de Cirurgia Geral do RGS

AMRIGS – Associação Médica do RGS

CREMERS – Conselho Regional de Medicina do RGS

AMB – Associação Médica Brasileira

Autor dos livros:

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Crônicas & PontiAgudas

Trinity! A Saga continua

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Ele está junto de Nós!

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12 Abril – Dia do MÉDICO OBSTETRA

Reconhecimento.

Respeito.

Gratidão!

A Voz do Coração! – Edson Olimpio Oliveira

A Voz do Coração!

Tenho amigos que conversam com suas plantas e inclusive com as plantas de natureza selvagem. Estranho? Pode ser diferente, senão suspeito, para outros, mas a humanidade aprendeu com a dor e o sofrimento da sobrevivência a ler, interpretar e se comunicar com os demais seres da criação.

É simples e corriqueiro o entendimento da senhorinha com sua cão de estimação ou “parte da família”. Para alguns, nada que fuja do rigor cartesiano da regras impostas e assumidas para peneirar e filtrar sentimentos ou medicamentos são válidos e úteis. Refratários discordam da influência da Lua na natureza terrestre. Quanto mais conversar com uma flor – a vegetal. Já a idílica Dona Flor de seus dois maridos e muitas outras confusões – ‘no problem’!

Uma amiga especial tem em sua casa um mini jardim botânico, um pequeno santuário florido em seu terraço. Suas flores, suas plantas lhe encantam e motivam. Formidável!

Crônicas & Agudas!

Muitas pessoas têm a dificuldade terrível de emancipar, libertar seus mais doces sentimentos e transformá-los num abraço ou numa palavra de carinho, talvez numa frase simples e amorosa. Por que? Somos seres reprimidos e temerosos de expormos aquilo que somos, desejamos ou amamos. Por que? Porque nosso eu interior teme sofrer. Teme abrir-se e não ser correspondido como gostaria e necessitaria. Sentimos, mas calamos. Necessitamos, mas não fazemos.

O exercício, essa fisioterapia afetiva com plantas e animais selam mais a comunicação para alguns, no entanto, para outros é um caminho, uma porta, uma abertura para se comunicar e exteriorizar seu afeto e sentimentos. Nossa humanidade necessita e implora sermos mais humanos. Daí que transformo e lhe digo que “o bom homem chora, diz um verso e não vai embora”! Entende-me?

Crônicas & Agudas!

“Ela (ou ele) sabe o que eu sinto por ela (ou ele).” Certamente, escutaram e escutarão o eco dessa frase, sua reverberação em diversas pessoas. Faça a sua parte – diga seu sentimento: “Eu te amo!” – singelo, tradicional, vulgarizado, mil adjetivos. Nenhum importa ou será maior que olhos nos olhos e falado com a voz do coração.

A voz do coração nasce na alma imortal, se digladia na razão da mente racional e se eterniza no seu pulsar. Quantas flores recebem a água necessária, os raios vitais do sol, nutrientes em suas folhas e para suas raízes, proteção do excesso de vento, um pouco de sombra e eis que ali está ela caída. Sem viço. Com a energia a lhe escapar e as fotossínteses já carecem de algo mais. Outras flores vizinhas até lhe chamam – “Ria conosco, veja que sol mais lindo e primaveril”. Ela continua sofrida. Aquela minha dileta amiga chega e toca-lhe suavemente. Testa a humidade da terra no vaso. Troca sua posição olhando para o céu e sentindo a orientação da brisa e da luz…

Crônicas & Agudas!

“Querida, o que você tem? Por que está tristinha? Estava com saudades de mim? Eu estou com muitas saudades de vocês. Foi pouco tempo, mas pensei em vocês todos os dias. E tu, minha pequeninha, vai se animar e voltar a ficar ainda mais bonita, minha princesa. As amiguinhas querem te ver alegre e perfumada”.

Com a magia do carinho vertido, algumas horas depois, ao final do dia, o olhar acurado nota diferenças. E com o balanço dos dias, a princesinha alegra-se e revive perfumada e colorida. Creio que ao sairmos do Paraíso, uma parte do Éden não saiu de dentro de nós. Ele está ali. Um pingo de luz? Espera pacientemente o desarme, a libertação e o retorno. Seja real e jamais permita que a mentira envenene a sua vida e de quem você ama.

Todos estamos na escola da vida. Todos temos um mestre interior. Que as aulas sejam proveitosas. Que a vida seja útil para todos. Tempos de Páscoa são tempos de reflexão e entendimento. De mudança para melhor e levar junto tantos quantos quiserem e se sensibilizarem.

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2022.04.05 – A Voz do Coração – Edson Olimpio Oliveira

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A Morte nunca volta de mos abanando! Edson Olimpio Oliveira

Especial a repercussão da crônica sobre o “Velho Tutu”. Amigos contaram episódios similares envolvendo a espiritualidade. Há quem creia nos fatos como meras lendas ou estórias da singeleza de um povo. De alguma maneira muitos sentiram-se tocados. O relato seguinte foi de um Professor de Cirurgia nos idos (e longínquos) tempos de Santa Casa de Misericórdia de P. Alegre. O título e as conclusões são desse cronista como sua adaptação ao relato.

A Morte nunca volta de mãos abanando!

Uma cidade pequena do interior gaúcho, nalgum confim do pampa sem fronteiras. Uma casa simples como a alma desse povo. Um médio criador de gado, ovelhas e agricultor. Idoso. Naquela casa havia nascido e passaria para as próximas gerações de campeiros. Doente de longa data – a poeira das tropeadas impregnada da picumã dos cigarros palheiros de “fumirrama”, o velho coração com o trote descompassado de potro manco insistia em mantê-lo vivo. Diversas hospitalizações no hospital da cidadezinha com aquele médico que mais que um “doutor” era seu amigo e amigo da família. Por suas mãos, partejou um bando de filhos, netos e bisnetos que agora arrodeavam a casa e os galpões na angústia da perda anunciada.

Um dos filhos arrancou da camionete para buscar o doutor. Seu pai estava muito mal. Respirava com muita dificuldade. De uma tampa de panela ou de caixa de papelão era abanado em rodízio. Recusava ser levado para o hospital da cidade. Balbuciava que estava nas derradeiras e queria morrer na sua cama, com sua família e seus cuscos. Voltando no tempo: na madrugada saíram em busca dos amigos e familiares. O idoso já estava de vela na mão. Havia recebido a extrema-unção do padre mais de uma vez, dispensaria outra. Por um homem honesto, justo e mui bem quisto todos derramavam lágrimas e relembravam a sua vida e elogiavam seus feitos.

O filho arrebatou o médico ainda em sua casa e foram velozmente pelas estradas empoeiradas abrindo porteiras. Desce o doutor e a sua maleta. Examinou o idoso com acurada atenção e detalhe, como era seu hábito. Sacou da maleta ampolas de remédios e uma seringa de vidro cuidadosamente enrolada dentro de uma caixinha de aço. Seu paciente lhe pediu: “Não me leve para o hospital dessa vez, meu doutor. Me alivia, mas me deixa aqui na minha cama, na minha casa”. O avançado da idade, o conhecimento das várias complicações do paciente e o respeito à sua vontade e da esposa e dos filhos, manteve-o ali.

Fez uma lista de medicamentos, soro, até um “balão de oxigênio” entre outras requisições. Orientou que fosse no hospital que lhe forneceriam tudo aquilo. Aumentara o povo no entorno da casa. Os mais próximos, os mais chegados ao homem passavam pelo leito de morte para receber a sua última bênção. Eram muitos os afilhados! Chegando, descarregaram a camionete e o médico instalou o oxigênio, soro e aplicou diversas medicações na veia. E avisou que ficaria mais um tempo com ele, depois iria até o hospital e retornaria.

O idoso melhorou os batimentos cardíacos e a pressão, respirava muito melhor. O médico achou ser o momento para ir à cidade. Breve despedida e várias orientações. Um jardim florido fronteava a casa. Ao abrir a cancela para sair do jardim, o doutor caiu ao solo. Acharam de início que havia tropeçado. Qual nada – estava morto! Nem um ai! Nada prévio. Talvez um enfarto fulminante. O ceifador ou a dama de preto cobriu-o com sua mortalha.

Morreu o médico! Não morreu, dessa feita, o idoso moribundo. Veio a falecer vários meses depois. A morte estava ali rondando e aguardando para levar alguém? E levou! Esse foi o entendimento do sucedido? Seria a realidade ou mera conjectura? Ou “ninguém vai quando não é a sua hora”!

2022.03.29 – A Morte nunca volta de mãos abanando – Edson Olimpio

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