Especial a repercussão da crônica sobre o “Velho Tutu”. Amigos contaram episódios similares envolvendo a espiritualidade. Há quem creia nos fatos como meras lendas ou estórias da singeleza de um povo. De alguma maneira muitos sentiram-se tocados. O relato seguinte foi de um Professor de Cirurgia nos idos (e longínquos) tempos de Santa Casa de Misericórdia de P. Alegre. O título e as conclusões são desse cronista como sua adaptação ao relato.
A Morte nunca volta de mãos abanando!
Uma cidade pequena do interior gaúcho, nalgum confim do pampa sem fronteiras. Uma casa simples como a alma desse povo. Um médio criador de gado, ovelhas e agricultor. Idoso. Naquela casa havia nascido e passaria para as próximas gerações de campeiros. Doente de longa data – a poeira das tropeadas impregnada da picumã dos cigarros palheiros de “fumirrama”, o velho coração com o trote descompassado de potro manco insistia em mantê-lo vivo. Diversas hospitalizações no hospital da cidadezinha com aquele médico que mais que um “doutor” era seu amigo e amigo da família. Por suas mãos, partejou um bando de filhos, netos e bisnetos que agora arrodeavam a casa e os galpões na angústia da perda anunciada.
Um dos filhos arrancou da camionete para buscar o doutor. Seu pai estava muito mal. Respirava com muita dificuldade. De uma tampa de panela ou de caixa de papelão era abanado em rodízio. Recusava ser levado para o hospital da cidade. Balbuciava que estava nas derradeiras e queria morrer na sua cama, com sua família e seus cuscos. Voltando no tempo: na madrugada saíram em busca dos amigos e familiares. O idoso já estava de vela na mão. Havia recebido a extrema-unção do padre mais de uma vez, dispensaria outra. Por um homem honesto, justo e mui bem quisto todos derramavam lágrimas e relembravam a sua vida e elogiavam seus feitos.
O filho arrebatou o médico ainda em sua casa e foram velozmente pelas estradas empoeiradas abrindo porteiras. Desce o doutor e a sua maleta. Examinou o idoso com acurada atenção e detalhe, como era seu hábito. Sacou da maleta ampolas de remédios e uma seringa de vidro cuidadosamente enrolada dentro de uma caixinha de aço. Seu paciente lhe pediu: “Não me leve para o hospital dessa vez, meu doutor. Me alivia, mas me deixa aqui na minha cama, na minha casa”. O avançado da idade, o conhecimento das várias complicações do paciente e o respeito à sua vontade e da esposa e dos filhos, manteve-o ali.
Fez uma lista de medicamentos, soro, até um “balão de oxigênio” entre outras requisições. Orientou que fosse no hospital que lhe forneceriam tudo aquilo. Aumentara o povo no entorno da casa. Os mais próximos, os mais chegados ao homem passavam pelo leito de morte para receber a sua última bênção. Eram muitos os afilhados! Chegando, descarregaram a camionete e o médico instalou o oxigênio, soro e aplicou diversas medicações na veia. E avisou que ficaria mais um tempo com ele, depois iria até o hospital e retornaria.
O idoso melhorou os batimentos cardíacos e a pressão, respirava muito melhor. O médico achou ser o momento para ir à cidade. Breve despedida e várias orientações. Um jardim florido fronteava a casa. Ao abrir a cancela para sair do jardim, o doutor caiu ao solo. Acharam de início que havia tropeçado. Qual nada – estava morto! Nem um ai! Nada prévio. Talvez um enfarto fulminante. O ceifador ou a dama de preto cobriu-o com sua mortalha.
Morreu o médico! Não morreu, dessa feita, o idoso moribundo. Veio a falecer vários meses depois. A morte estava ali rondando e aguardando para levar alguém? E levou! Esse foi o entendimento do sucedido? Seria a realidade ou mera conjectura? Ou “ninguém vai quando não é a sua hora”!
2022.03.29 – A Morte nunca volta de mãos abanando – Edson Olimpio
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão