Cantando na Chuva! Edson Olimpio Oliveira – Crnicas & Agudas de 19 Abril 2022.

Cantando na Chuva!

Há lembranças que varam as décadas e, amorosamente instaladas num sofá especial da mente, afloram intensamente de quando em vez. O netinho Ítalo da Clarice, minha secretária, encanta-se com o cheiro da terra molhada, quando os primeiros pingos de chuva desafiam e enfrentam a poeira das ruas. “Que cheirinho bom esse de terra molhada, vovó!” – sapeca o verbo no topo dos seus 5 anos de idade.

Nos áureos tempos de estudante e depois de médico no Hospital da Criança Santo Antônio, os veteranos mestres nos alertavam para as diferenças de imunidade e desenvolvimento corporal e mental de crianças engaioladas nos espigões do centro de Porto Alegre em contraste com as crianças de periferia e sua liberdade de brincar nas ruas, nos campinhos, no sol e na chuva.

Em 1952, uns 70 anos bem passados, estreava a película Singin’ in the Rain (Cantando na chuva) com Gene Kelly dançando e cantando num cenário de forte chuva. Lembra-se?

[Estou cantando na chuva | Apenas cantando na chuva | Que sensação gloriosa | estou feliz novamente | Estou rindo das nuvens | Tão escuras,
lá no alto | O sol está no meu coração | E estou pronto para o amor]

O cheiro de terra molhada. A água, como ouro caído do céu, vai batucando com seus pingos a face. Os olhos, de início, se protegem. As pálpebras fecham-se num reflexo ancestral, primitivo de proteção, mas logo se abrem num iluminar a alma que se alegra. Somos crianças. Somos crianças em qualquer idade que a bem-aventurança floresce em nossos corações. Outras crianças recebem esse chamado e as mães, ainda temerosas de uma gripe ou uma dor de garganta, tentam frear os impulsos. Impulsos! Uma leve parada no acostamento da crônica: um dos piores suicídios é cortar os IMpulsos do coração.

Retornando! Formam-se poças de água. A lama vermelha, como a cor do sangue da humanidade de todos os horizontes, amacia e sova os pés descalços. Chutar uma poça de água! Chutar a água barrenta seja no cão amigo fiel, na irmã, nos irmãos, nos amigos ou simplesmente para que os respingos atinjam a si próprio. Logo aparece alguém com uma bola e a pelada está formada. E o circo está armado e ativo.

[Deixe as nuvens carregadas espantarem | Todos de seus lugares | Venha com a chuva | Coloque um sorriso no meu rosto | Vou seguir esse caminho | Com um refrão feliz | Apenas cantando | E cantando na chuva!] – Gene Kelly

Embrutecemos como humanidade. A natureza bela e fluida é nossa amiga e companheira. Geniosa? Cada um com sua personalidade, seu espírito, sua luz e sua sombra, suas lágrimas e seus risos. A chuva é uma bênção, um presente dos céus. Também ensinamento e freio para nossos desvios e atrevimentos.

Nos idos e longos tempos na sela das Morganas, nossas motocicletas, escutava-se muito sobre a sensação de liberdade do vento no rosto. Sempre pensei na chuva, principalmente, a chuva que te exige uma pilotagem mais segura, mas que lava o corpo e ilumina a alma. E assim bailamos na chuva. Permita-se recordar. Solte-se e repita, refloresça sentimentos, liberte a beleza, compartilhe – brinque e dance. E cante na chuva!

2022.04.19 – Cantando na Chuva – Edson Olimpio Oliveira

Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

www.edsonolimpio.com.br

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