Dor de Dente!

Dor de Dente!

Há um consenso entre guerreiros que duas dores e situações dominam a valentia e numa delas o índio guapo barbaridade arria as bombachas e se acoca: disenteria e dor de dente. Um clássico dos filmes e estórias de torturas é abrir o dente da criatura e deixar o nervo exposto e aí fazer a dor varar os limites da coragem. No século XXI vivemos e consolidamos as experiências sem dor. Entendemos que conceitos como “parir com dor” ou “as dores do parto” podem e devem ser minimizadas ou abolidas.

Aqui em Viamão City, a Primeira Capital de Todos os Gaúchos, nas imediações da Escola Adventista, no centro histórico da cidade, há uma ancestral figueira. “Esgualepada” pelos maus tratos. Ali, escutava na minha longínqua infância, um homem enforcou-se, morrendo dessa forma como alívio de uma dor de dentes. Rezavam conversas que em certas noites o pessoal que ali morava na chamada Rua dos Cachorros, fundo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, escutava o lamento de dor e ao olharem para a velha figueira viam uma pessoa balançando em seus galho já em silêncio sepulcral.

Crônicas & Agudas!

Em seus livros e palestras, Amyr Klink relata que numa de suas viagens solo, creio que para a Antártida, teve que trepanar um dente e tratar-se de uma dor que nenhum analgésico aliviava. Estava encurralado na pequena cabina de seu veleiro pelo oceano feroz e geleiras.

Outro causo viamonense aconteceu com um célebre dentista prático da zona rural – ou seria um dentista diplomado pelo costado do Centro histórico? A criatura chegou acompanhado por um cortejo. Gritava aos sete ventos: “Doutor do céu, me tira essa dor. Se não puder, me mate!” – imagine o desespero. O pequeno consultório, sala de espera e a calçada ficou repleta dos parentes. O intrépido dentista se pôs a tentar achar qual era o dente que doía. “Dói tudo, seu doutor. Não sei qual é o que dói. Pelamor de Deus, me ajude”. – os limitadíssimos recursos da época, tempos da grande guerra, exigiam atitudes heroicas e muita coragem.

O velho doutor armou-se de sua espada, digo, boticão e sacou o primeiro dente. Não aliviou nada. Sacou o segundo dente e dor somente piorava. Derramava bicas de suor. Respingava sangue para todos os lados. Algumas mulheres já ameaçavam ou tinham um vago (desmaio) e alguns valentes já botavam os guizados para fora (vômitos). Aprumou-se e rebocou com muito custo o terceiro dente.

Crônicas & Agudas!

O paciente cuspia sangue e o doutor limpava seus óculos. Entre na cena! “Doutor, acho que tem dente doendo em cima também!” – Deus do céu, piorou. As dores reflexas, em outra região, acontecem. Já tinha saído uma presa (dente canino ou aquele do vampiro). O doutor se atracou no último queixal (dente molar). “Segurem a cabeça e os ombros dele, tu aí bota as duas mãos nos carrinhos (ATM – articulação têmporo-mandibular) para não descarrilhar (luxação) e agora tem que resolver.” – berrou o doutor. “É agora ou desce!” – acordou-se do desmaio a esposa. E o dentista calçou o joelho no peito do paciente e sacou o dentão com mais raízes que a figueira da praça.

Cuspindo sangue, o homem aplaudiu e se abraçou no doutor: “Tô curado, sem dor. Salvou a minha vida” – abraçado no dentista. Escutaram-se palmas e gritos eufóricos na rua. Com a boca cheia de buchas de algodão para parar o sangramento subiu na carroça e ganhou a estrada de casa com seu povo a reboque. Isso contado e acontecido não era raro acontecer – vai extraindo enquanto doer. Daí a quantidade imensa de bocas sem nenhum dente e com próteses (chapas e dentaduras). Outra curiosidade épica: alguns pais extraiam dentes que podiam doer das filhas antes de casar, para entregar ao marido sem esses possíveis e assustadores problemas.

E há quem reclame do mundo de hoje!

2022.06.07 – Dor de dente – Edson Olimpio Oliveira

Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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