Alegrias de uns.
Tristezas de outros!
A primeira e dolorosa, para mim, observação e entendimento real do significado e conteúdo do título da crônica aconteceu durante a enfermidade e desenlace fatal da minha mãe Dora, aos seus 49 anos de idade. Eu já era um estudante de Medicina. Após uma cirurgia, uma cascata de complicações e novas cirurgias veio o desenlace da minha mãe.
Permitiram-nos a derradeira visita ao seu leito na UTI. Estávamos, meu pai Aldo, minha noiva e esposa hoje, a Cledi, e eu no corredor do hospital junto à porta da UTI. Quase defronte era o berçário do hospital com a tradicional e ampla janela de vidro. Pais e familiares dos recém-nascidos acotovelavam-se em alarido e euforia com a visualização dos novos membros daquelas famílias. Uma alegria contagiante. Festa sim! Chegada de novos e amados membros!
Nós três em abraços de conforto e resignação vertíamos as lágrimas semelhantes às daqueles que já sofreram essas perdas de rasgar o coração da gente. Do chão que parece sumir sob nossos pés. As recordações vívidas da mãe, esposa e sogra que sempre foi o eixo, o esteio, o motor de uma família desde sua juventude – fazendo pela sua mãe, pelos irmãos sem pai e continuamente por todos nós e pela sociedade que ela vivia. Nosso caso, a partida de amado membro!
Crônicas & Agudas!
Esse dualismo tão formidável como doloroso está na nossa essência como humanidade. E creio que na espiritualidade assim também se conforma. O mal não é somente a ausência do bem. O mal é uma entidade própria e voraz, predatória e incansável. Somamos ou, por vezes, intercalamos na mesma “casa, no mesmo banco e no mesmo jardim” a dor e a alegria. Boas notícias podem pelear com desgraças criando uma ambiguidade culposa. Exemplo? Como se comportar se uma criança falece no dia do aniversário de seu pai? Uma criança que nasce em tempos de morte na mesma família? Pense e cite outros exemplos que você conhece.
A realidade nos atropela e nos força a aceitação e ao entendimento precoce ou tardio. Quantas vezes nossa atividade profissional se confunde com a nossa missão de vida e abdicamos de momentos de intensa alegria compartilhada com os filhos, por exemplo, em prol de alguém que se entregou aos nossos cuidados e ao melhor de nosso ofício? Quantas vezes uma professora está ali numa sala de aula com crianças que lhe percebem como um misto de divindade e mãe temporária e em sua casa um filho está enfermo, algum familiar em grave situação, uma dificuldade que lhe trucida o íntimo?
Crônicas & Agudas!
Por sermos seres nascidos de um amor inigualável e divino, carimbamos um passaporte para viagens de dor. E pior – culpa! Será isso uma marca da nossa cristandade? Outras religiosidades entendem e praticam formas diferentes de lidar com perdas e danos contra/ao lado de felicidades e alegrias. Como você convive com a conjuminância da felicidade com a tristeza? Nos grupos de amizades virtuais, há a presença da alegria de uns e as tristezas e decepções de outros. Como isso lhe impacta?
Nosso metabolismo afetivo e espiritual é único, pessoal, inerente ao nosso ser. Entretanto, mudanças acontecem, tanto para evoluir como para regredir. O entendimento e a percepção de hoje não é, necessariamente, a mesma em outro tempo. Observe que somente existe real e palpável o Aqui e o Agora – gêmeos univitelinos. Sempre! E sempre te expondo e te testando para novas situações de alegria ou de adversidade. Para alguns, a crônica e seu tema é denso. Sempre será ao tocar em pontos de dor.
O cronista não busca a tua aceitação cordata. Busco te incitar a raciocinar e evoluir, como busco para mim, desvendando essas equações de uma matemática que vem da alma. Minha e tua. Nossas almas!
2022.06.21 – Alegrias de uns. Tristezas de outros! – Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira
Médico. Cirurgião. Escritor
CREMERS 07720
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Médico Cirurgião Jubilado
Sociedade de Cirurgia Geral do Rio Grande do Sul – SOCIGERS
Conselho Regional de Medicina RGS – CREMERS
Associação Médica do RGS – AMRIGS
Associação Médica Brasileira – AMB
Viamão – RS
1971 a 2022 – 51 Anos de Medicina
http://www.edsonolimpio.com.br
Autor dos livros:
Crônicas & Agudas
Crônicas & PontiAgudas
Trinity! A Saga continua.
30 Anos de Jornalismo
Cronista Jornal Opinião de Viamão