“O passo maior que as pernas”
É outro exemplo da sabedoria popular que se derrama em nosso cotidiano com ensinamentos primordiais para a harmonia da vida. Algumas formas de completar a expressão: “vai cair se der um passo maior que as pernas permitem” ou “a calça rasga nos fundilhos se der um passo maior que as pernas podem dar”. Ainda: “Se lascou esgaçado!”
O significado navega pelo momento da utilização. Por exemplo: assumir um compromisso acima de suas possibilidades – “estourei meu cartão de crédito e caí no SPC”. Outro: querer fazer tudo ao mesmo tempo, termina não fazendo nem uma coisa e nem outra a contento. Há quem acrescente: “Meti os pés pelas mãos”, ou vice-versa.
Observe, atento amigo, que isso serve para pessoas, como para empresas ou instituições públicas, pois todas são geridas, em última análise, por pessoas que muitas vezes desprezam as suas responsabilidades com o dinheiro alheio (do cidadão e contribuinte) ou com a ética e bons costumes.
Crônicas & Agudas!
Qual é o limite? O limite começa pela individualidade, pela capacidade da pessoa de executar a missão proposta ou de reunir-se com outros para uma melhor realização e final. Quando “a calça rasga no fundilho” significa que a criatura ficará exposta nas suas fraquezas e territórios mais frágeis (?). Desnudado. Exposto. Descoberto. Despido ou nu! Como queira e sentir melhor. Observe que o perdulário é uma vítima de si próprio – um mão-aberta, mão-furada, gastador que dilapida seu patrimônio, de sua família ou da instituição. Observe o poder público! Quantas vezes além de perdulário é um facínora que se aproveita de variadas falcatruas nas obras, licitações, do clipe de papel ao porto e aeroporto.
Crônicas & Agudas!
Há casos da criatura ser movida por uma necessidade quase irresistível, nascida de seu interior, de fazer algo pouco lógico ou desnudando irracionalidade. Podemos nos confrontar com uma atitude e conduta patológica, compulsiva, necessitando suporte e tratamento adequado. A pandemia pode ter agravado e, eventualmente, desabrochado essas situações. Muitas pessoas, pelo temor da morte ou de permanente incapacidade, resolveram viver a vida intensamente sob diversos aspectos. Antecipar aquilo já programado? Temor de deixar para outrem tudo que conquistou e se privou? Observe as vendas avassaladoras pela internet, como de veículos mais sofisticados que chegaram a faltar.
Todos tem noção de sua finitude aqui nessa terra brasilis saqueada e violentada. Quantos negam essa regra básica e inapelável da existência – ninguém escapa indefinidamente da morte? Entretanto saqueiam os cofres públicos (e privados) como se vivessem centenas ou milhares de anos e ainda levassem para sua tumba faraônica seus espólios, riquezas de roubo, pilhagem, da pior pirataria.
Talvez não haja girafa com pernas maiores que os falcatruas aboletados no poder. Cada vez seus passos são maiores, talvez pela noção de que não pagarão a conta. Outros terão de pagar como contribuintes vampirizados. Quantos devem sentir a proteção vacinal de alguma justiça tão lenta quanto necessária e tão direta e protetora quanto necessária também. Na terra em que a impunidade dá lucros, dividendos e estrelato dogmático, os passos continuam, infelizmente, maiores que as pernas.
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2022.09.20 – O passo maior que as pernas – Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão