O Rei de Pasárgada!

O Rei de Pasárgada!

Num poema de 1930, Manuel Bandeira eternizou Pasárgada para os brasileiros. Originalmente é uma cidade histórica da antiga Pérsia. Lá pelos nebulosos anos de 1812, na Alemanha, os irmãos Grimm publicaram uma coletânea de contos ou fábulas para crianças. Se você nunca os leu, recupere seu tempo. Leia para suas crianças e você. São textos diferentes, o de Bandeira não é para as nossas crianças. Seriam para as “novas crianças” que ousam implantar no Brasil?

O medo educativo, corretivo de trajetórias, aguçando visões e descobrindo a luz nas sombras da vida. Nas religiões, o medo está embalado nas punições mais ou menos diabólicas. Com os olhinhos arregalados e sem piscar acercam-se dos pais, tias, ou avós para escutar e imaginam um mundo em que o lobo mau é real e, como na vida, não deixa de ser mau apesar de mudar a oratória ou a roupagem. Uma rainha maligna que disputa uma corrente de artimanhas maléficas com a madrasta. Personagens que necessitam ser interpretados como numa sessão terapêutica no lar, uma análise importante que favorece e estimula a personalidade a ser autêntica e com menos possibilidade de ser dominada. Outros: bicho-papão, homem do saco, bruxas e duendes, lobisomem, Fredy Kruger, criaturas de capas pretas, etc.

Crônicas & Agudas!

A literatura explora outras vertentes em que o mal é mau, se me entende. Nesse cartel, vieram Drácula, Frankenstein, Coringa, Loki, zumbis e outros que você vai recordar. Entretanto, o mal somente viceja, evolui. Em confronto com o bem, que são os heróis que também são cultuados e salvadores. A luta é permanente e sem trincheiras. Enquanto o mal não tem nenhum prurido, não se submete a nenhum código moral ou ético, rasga qualquer norma, não existe fímbria de dignidade, o bem insiste em lutar dentro das regras, dentro das quatro linhas, sem transgredir.

“Vou-me embora pra Pasárgada! Lá sou amigo do rei.”

Essa cidade utópica, fantástica de Manuel Bandeira revela que tudo é possível para o “amigo do rei” – “tem alcaloide à vontade | tem prostitutas bonitas | terei a mulher que eu quero, na cama que escolherei |Lá sou amigo do rei”. Drogas. Devassidão. Nenhum respeito à mulher. Escolhas e ações imorais.

Crônicas & Agudas!

Numa Pasárgada nunca açoitada por furacões, jamais erupcionada por vulcões ou agredida por terremotos e tsunamis, há um “rei” que tudo pode e tudo faz. Sem nenhum viés ético ou resguardo das leis, da legalidade. Esse conto é real? Essa terra realmente existe? Ou estamos num transe, num looping maligno, um pesadelo que não conseguimos despertar? E todas as entidades que produzem medo e assombraram a humanidade se reuniram e tem uma cabeça executora? Iludidos acreditam que aquilo que é bom para alguns agora, será no futuro. Infeliz crença. O mal sempre será o mal, pela vontade do rei, pelo desejo de mais sangue do vampiro que suga as esperanças. O mal de capa preta revela as sombras e a escuridão onde vive, age, se vangloria e se nutre do medo e das desgraças.

Os vitoriosos de hoje são cavalos de batalha úteis para sua faina maligna. Ele se sente e agora é maior que todos os seus acólitos, príncipes e reizinhos. Jamais se permitirá uma coleira moral, ética, ao contrário, quem se insubordinar ou não satisfizer seus sombrios desejos conhecerá o garrote da caneta-punhal. Se “o poder corrompe”, o poder absoluto corrompe completamente. Nunca haverá dois rei ou dois imperadores na mesma Pasárgada. O máximo que será a criatura, que hoje se sente privilegiada e imbatível, é se conformar em liberar mais sangue ao vampiro e bater palmas ao rei real. Não há tribo com dois caciques. Sim ou não? Enfim, felizmente isso é na Pasárgada!

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2022.12.13 – O Rei de Pasárgada – Edson Olimpio Oliveira

Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

www.edsonolimpio.com.br

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Avatar de Carlos Daniel Jaeger Carlos Daniel Jaeger
    dez 21, 2022 @ 17:43:42

    Genial, brilhante e sábio texto!
    Abração meu Tio!

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