A peleia no lupanar Meu Cantinho!
A histórica Viamão dos Farrapos acolheu bailões que fizeram história e estórias mil, como o Bailão do Reci e o Bailão do Waldeci. Entretanto a luxúria transitou firme e forte, galopeando emoções dos lençóis ao chão seboso. E ainda às macegas! Você lembra dos “filhos da macega”? O motel era ausente naquela época. O médico nos plantões do Hospital de Caridade de Viamão atendia as criaturas estropiadas das brigas e as moçoilas engravidadas (“emprenhadas”) “por descuido”.
“Meu Cantinho” era o nome de um bordel no bairro Tarumã. Território muito frequentado e palco de peleias homéricas entre relinchos de regozijo e guampadas de traição. Em época de eleição, sempre reunia políticos e suas comitivas. Tratada como zona neutra, se comparada com os palanques de impropérios e agressões. Lendas urbanas falavam da iniciação sexual da moçada, como alunos da ETA, Escola Técnica de Agricultura, e seminaristas com excesso de testosterona nos canos.
Crônicas & Agudas!
Um “chofer de carro de praça” (hoje taxista) contou-me que a alegre casa recebeu uma castelhana para entonar uns tangos a bailar sobre um tijolo e seria “rifada” ao fim do show. A dama da noite era mui versada nas artes lúdicas da sexualidade selvagem. A fina flor da macheza viamonense aprontou-se. Um gordo e rico fazendeiro ofereceria até uma ponta de gado. O início da noite testemunhava a chegada dos sedentos e “apaixonados”. Poucos em seus próprios carros para “evitar falação dos adversários”. Para aumentar o rendimento trouxeram uma dançarina que fazia fama e furor no Vale dos Sinos entre a “alemoada” faminta e inebriada pela cerveja.
Chegavam com bafo de Vermute e Underberg, logo cerveja, caninha e whisky. O porteiro era um mulato de quase 2 metros de quadrado, um animal de tão grande e com um dentão de ouro alumiando na boca. Recebeu o reforço de um brigadiano (Pedro e Paulo na época), o Paulão 2 socos – ninguém aguentava um segundo soco, “disque”. A cafetina, tapada de joias douradas (ouro 18) surfava entre as mesas, direcionando os garçons e suas meninas. Os três músicos floreavam os dedos extraindo músicas que não abafavam os… ruídos, “parecia baile de bruxa” – dizia o taxista. Um vesgo dedilhava a acordeona, enquanto um quase albino dormia no violino encaixado no vazio do pescoço.
Crônicas & Agudas!
A castelhana entrou e saiu sob intensa ovação, no mais amplo sentido e furor. Logo foi “arrematada” pelo estancieiro, rico como cardeal francês. Entretanto, a polaca, ruiva e sardenta, considerou-se ofendida. Era a preferida antes da rifa. O bate boca foi curto como braço de motorista de kombi e o pau comeu. E sempre que desanda se generaliza. Os motoras assistiam de camarote. Tentando apartar, o mulato recebeu um pé de mesa no pescoço e dobrou as pernas, caiu “friozinho” na granitina. O brigadiano, mais esperto do que valente, correu chamar a Brigada. Os taxistas traziam os feridos de corpo e os lanhados de moral ao “nauseocômio”, onde o plantonista e a enfermagem corriam entre as macas e cadeiras. Alguns “feridos” escorriam um caldo marrom e fedorento pelas pernas. A castelhana abriu uma “free-way” nas costas da polaca, depois de levar um talho de navalha na zona morta entre o beiço e a venta. Isso aí levou umas 3 horas de “pega-pra-capar”, contou o taxista.
Eis que chega a viatura da Brigada com o Paulão 2 socos e três colegas de farda, os papo-amarelos, já de cacetete numa mão e o tresoitão na outra. Calçavam a criatura com o berro (revólver) e desciam a madeira no lombo do boneco. Miravam a cabeça para não estragar ainda mais o couro. E foi agora que a briga realmente começou, antes foi aquecimento. Uns direto para o HPS em Porto Alegre, evitaram os impropérios políticos e as esposas furiosas.
Ah! Quase esqueço. A turma e até a cafetina deixaram de brigar entre si e moeram os brigadianos a pau e laço. Legítimo “nós contra eles”! Nota do Cronista: aliviamos os termos da época e os sucedidos para evitar maiores melindres. Ver a peleia no bordel, eu não vi ou conhecer o lupanar com seu bar espelhado e… Me contaram! Outro médico atendia chamados “domiciliares” no “palácio da luz vermelha”. Também me contaram!
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2023.11.28 – A peleia no lupanar Meu Cantinho! Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão