Alma calma na cama! Edson Olimpio. 05 Fevereiro 2024

Alma calma na cama!

Contava-me o Tião Patrola, índio grosso uma barbaridade, que o “gaúcho que se presa já nasce peleando, com respeito à prenda amada que o pariu e lhe dará o sagrado leite, caso não seja guacho”. Dava uma cuspida naquele corredor de dentes, daquelas de quase afogar o cusco caramelo. E, dava outra tapeada no chapéu e abotoava o verbo: “Edinho, se o Cabeleira, teu pai, ainda estivesse vivo, me daria razão pois era um xiru bem aprumado e não arriava a crista nem nas piores empreitadas”.

Pegava o palheiro descansando no costado da orelha, dava uma ajeitada na palha, passava uma língua bem ensalivada e grudava com jeito para não desperdiçar o fumo: “Pois é, a criatura nasce na cama. A alma do piá vem cumprimentar o mundão de Deus num berro de caudilho antes da carga de lança. Mas logo que corta o cabresto do cordão, se aninha nos braços da mãe. E logo o pai orgulhoso como estancieiro em quermesse de igreja, dá um muito obrigado para a parteira ou pro doutor parteiro e com os avós vem fazer coro de verter as lágrimas mornas da gratidão. Na minha terra já nascia com sua outra mãe celestial. Além de Maria, Nossa Senhora Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, tinha a santa da devoção. Sei da tua história que quando pequeno foste desenganado dos médicos e mandado morrer em casa, mas a Santa Terezinha ouviu as preces da Dorinha, tua mãe, e ainda andas pelo mundo de Deus, mas acossado pelo Demo, como médico do povo.

Crônicas & Agudas!

A gente nasce na cama e morre na cama. Alguém pode aventar que a criatura morreu de um pontaço de adaga numa peleia de cancha reta ou no jogo do osso. Um colega morreu esmagado pela caçamba da tombadeira. Outro companheiro morreu num desfile de 20 de setembro. Jogaram foguetes nos cavalos, o pingo dele era um bagual meio alucinado das ventas e a cavalhada começou a trombar uns nos outros. O piso da rua era de calçamento de granito, o animal enveredou na direção das crianças e aí ele calçou o freio , o bicho empinou e caiu de lombo com ele por baixo. Tu vais lembrar do caso, Edinho. Até saiu no jornal. Pois é, mas fizeram um enterro de governador, caixão com ferragem dourada que reluzia como ouro no sol e ele ali naquela última cama com o semblante de muita paz. Nem parecia que tava morto. Edinho, minha crença é de o Espírito Santo te traz e te leva se tu tiver por merecer”.

O Tião Patrola é um desses viamonenses adotados. Se aquerenciou na terrinha. Casou com moça daqui – a Terezinha do Ernesto. Os dois já tinham dobrado o Cabo da Boa Esperança, se me entende. Ela, a Terezinha, ficou solteira. Esteve noiva com enxoval pronto e casamento marcado. O noivo morreu de morte bruta e sanguínea, era motorista de táxi e foi assaltado e assassinado. O Tião (Sebastião) era funcionário do DAER (Depto. Autônomo de Estradas de Rodagem), do governo do Estado. Era meio andarilho, quase cigano, até se acidentar numa obra na fronteira, perto de onde nascera de mãe castelhana e pai teatino. Era uma pedra que nunca tinha criado limo de tanto rolar – até conhecer a Terezinha.

Quase todo mundo faz do caixão de defunto a derradeira cama. Até os reis e os faraós do Egito. Eu vi isso num filme lá em Lagoa Vermelha. Ninguém fica pra semente. Todo mundo vem do barro e volta pro pó – tá na Bíblia, Edinho!” Quando ele pega o rumo, a razão e o coração concorda-se com o Tião. “E não adianta gritar, espernear, ai-ai-ai, avisa que depois eu vou, tenho um compromisso, bate na outra porta, agora eu não posso ir – vai o valente e o borrado na bombacha. Ninguém escapa quando chega a hora. E tem que andar reto, direito pois só Ele (ergueu as duas mãos ao céu) sabe a nossa hora.”

Na despedida: “Avisa pro teu filho, o doutor Eduardo, que o precatório que ele fez pra mim, a moeda deu para reformar o rancho, vou trocar a viatura e vamos conhecer Camboriú. Agradeço e rezo por vocês. Dá um abraço na Cledizinha, fui amigo do velho Waldeliro, pai dela”.

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2024.02.05 – Alma calma na cama! Edson Olimpio Oliveira

Crônicas & Agudas!

Jornal Opinião de Viamão

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Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico. Cirurgião. Escritor. Artes.

CREMERS 07720

RQE 4007

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Médico Cirurgião Jubilado

Sociedade de Cirurgia Geral do Rio Grande do Sul – SOCIGERS

Conselho Regional de Medicina RGS – CREMERS

Associação Médica do RGS – AMRIGS

Associação Médica Brasileira – AMB

Viamão – RS

1971 a 2023 – 53 Anos de Medicina

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Autor dos livros:

Crônicas & Agudas

Crônicas & PontiAgudas

Trinity! A Saga continua.

+30 Anos de Jornalismo

Cronista Jornal Opinião de Viamão

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