“O Ataque das Bixas!” -1-
Sabe-se que na “flora ou bioma intestinal” habitam mais bactérias, vírus e fungos que a soma de todas as células do corpo humano. A importância que se revela a cada novos estudos, demonstra a necessidade vital dessa associação para a saúde humana. Daí ser considerado o bioma intestinal o maior “órgão” do corpo humano. Se a idade nos traz reumatismos e outras adversidades, traz também um legado de vivências e experiências formidáveis. E vamos lá contar algumas!
No presente, sou o decano da Medicina viamonense e durante meu ofício no Capão da Porteira convivi com algumas situações que nos dias atuais seriam bizarras. “Te segure firme no celular!” – caro leitor. Sala de espera sempre lotada e pessoas aguardando no entorno. Eis que chega um cliente/paciente com um penico na mão – ou urinol. Tapado por um pano. Sempre um cortejo familiar abrindo caminho. As secretárias “passavam na frente” com a anuência dos demais – “são casos graves”. No santuário do consultório, o penico era descoberto (destapado!) e ali se encontravam vermes – lombrigas ou longas fitas de solitária (tênia). O enfermo tinha, após sofrimento, expelido aquilo tudo e certamente o “grosso da tropa” ainda estava “lá dentro” (nos intestinos). Certa feita, um “gozador” sugeriu usar as lombrigas como “minhoca no anzol para pegar umas traíras”. Virou ofensa e deu agarra-agarra, quase pauleira.
Isso não era raro, como eventualmente o verme entalava na saída (ou entrada?) e tinha que ser retirado a “reboque com os dedos”. O uso de vermífugos era natural como aqueles aplicados nos animais e a farmácia tinha que estar sempre bem abastecida.
Cr & Ag!
Os distúrbios do comportamento, as alterações do humor e um sequência de queixas psicológicas ou mentais eram atribuídas aos vermes. “Na lua cheia o bicharedo se alvorota, eles vão tudo pra dentro das tripas para cruzar (sexo)” – crença. “Vou tomar o remédio das bixas na lua minguante, que aí mata mais” – outra crença sedimentada. “Doutor do Céu, me dá um remédio que desmanche a vermalhada ou pelo menos que saiam tudo morto. Chego a botar um pano nos olhos pra não ver o que vai sair!” – ouvia com frequência.
Para um simples entendimento, usamos os termos genéricos de ‘bixas e vermes’ para uma infinidade de parasitoses, principalmente aqui para os intestinais. Observe que esses parasitas não habitam somente o intestino humano ou de animais. Seu ciclo de vida peregrina por vários órgãos do corpo. Exemplos, da lombriga que passa pelo pulmão e esôfago; da solitária que se encista até no cérebro. E isso está longe de ser “coisa de pobre”, a “vida pet” que se aboletou nos lares humanos não cria fronteiras reais e de convivência higiênica entre humanos e animais.
Cr & Ag!
O Complexo Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre foi o melhor hospital-escola de Medicina do Rio Grande do Sul e duvido que não esteja entre os três melhores do Brasil. Ali o doutorando assimilava ensinamentos que perpassavam outras formações e assim carregava uma bagagem formidável para toda a sua vida pessoal e profissional. Eu como cirurgião tenho gratidão à Santa Casa e aos Mestres. O exame de fezes (EPF – Exame Parasitológico de Fezes) era obrigatório na rotina. A ausência de vermes no exame, não garante a ausência no corpo. O médico arguto e atencioso ao paciente e na anamnese e exame físico sabe o que buscar. Vermífugos antes de cirurgias de abdômen-intestinos era regra de ouro, pois além da queda da imunidade pela enfermidade e cirurgia há vermes que migram (tropismo positivo) para áreas de sutura intestinal. O sangue atrai. Aumenta o risco de graves complicações.
Você está sendo tocado por essa crônica? Desconhecia muito do aqui exposto? Conte-me e aguarde que virá mais!
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2024.04.02 – O Ataque das Bixas 1! Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão