A Parteira Tereza Sicca – 2024.10.08

A Parteira Tereza Sicca!

Em 1976, quando me graduei em Medicina ainda havia várias parteiras na cidade e no interior de Viamão. Imaginem em 1951, quando esse médico e amigo de vocês abriu os olhos e deu o primeiro brado para essa existência, talvez estimulado por uma palmada nos glúteos. A parteira Dona Tereza era de uma tradicional família viamonense, de origem italiana, incumbiu-se de dois partos de minha mãe Dorinha.

Lembro-me daquela senhora muito clara, quase loura, corpulenta, de escassas palavras e enérgica, residia a algumas dezenas de metros da casa onde nasci. Realizou incontáveis partos e, apesar de não ter filhos próprios, permaneceu solteira, entendia-se como “mãe” ou uma segunda mãe de cada criança que trazia ao mundo. Peregrinava pelas casas, visitando e acompanhando seus “filhos”. Presença constante em muitos aniversários e casamentos de suas “crianças”. Minha mãe contava que ela inclusive ensinou-me a usar o peniquinho e a deixar das fraldas.

Crônicas & Agudas!

Sua família foi proprietária de um dos antigos e tradicionais hotéis da cidade, o Hotel Sicca, que ainda hoje, resquícios do prédio original, emoldura o Largo Adonis dos Santos ou a praça da Caixa D’ Água, como costumeiramente é chamada pelos moradores locais, aqui no Centro histórico de Viamão.

Dona Tereza trazia em sua face uma marca indelével. Um dos olhos necessitava ser secado frequentemente com um lenço, pois vazava em sua cegueira. Sim, tinha um olho cego. O acontecimento que gerou essa lesão grave revela muito da alma e fibra dessa mulher. Certa noite de inverno gaúcho, as pessoas e os animais açoitados pela chuva fria e pelo vento Minuano, recolhidos à proteção das casas, bateram à sua porta. Era um homem desesperado. A esposa em trabalho de parto, em alguma grota da zona rural, corria risco de vida com o filho por nascer. A parteira do local esgotara seu repertório técnico.

Crônicas & Agudas!

A parteira que a atendia não sabia mais o que fazer e achavam que morreriam mãe e filho. Assim o esposo correu em desespero à vila de Viamão para buscar uma pessoa mais habilitada.

Embarcaram numa carroça. O homem, em gritos e chicoteando o cavalo, exigia do animal tudo aquilo que a vida por um triz pode exigir. Eis que uma dessas chicotadas, um desses “relhaços” explodiu no rosto da parteira e dona Tereza teve seu olho ferido. “Vazou o olho”, dizia-se. Mesmo com intensa dor, sangrando em brutal sofrimento, com a visão seriamente afetada ela chegou à casa e realizou o parto com sucesso. E mãe e filho saudáveis encaravam a jornada de vida revelada nesse episódio.

Quantas pessoas conseguiriam exercer seu ofício, realizar sua missão e ter pleno sucesso depois de uma grave lesão? E jamais ficou, mesmo depois desse acontecimento, acamada ou deixou de atender quando solicitada. E assim foi a sua existência longa e nobre.

Esse cronista traz histórias reais da vida que teve, presenciou ou foi lhe contada com desvelo e ancorada nos sentimentos de gratidão e muito respeito, com reconhecimento às pessoas que marcaram a sua vida, com os desígnios das suas missões. A população, as criaturas crescem numa onda geométrica, lotando todos os locais e esgotando a mãe natureza que os partejou em pleno amor. Lamentavelmente, tristemente, a qualidade ou as boas e nobres qualidades do ser humana não evoluíram proporcionalmente.

2024.10.08 – A parteira Tereza Sicca – Eds Olimpio

Crônicas & Agudas!

Jornal Opinião de Viamão

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Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico. Cirurgião. Escritor. Artes.

CREMERS 07720

RQE 4007

. * .

Médico Cirurgião Jubilado

Sociedade de Cirurgia Geral do Rio Grande do Sul – SOCIGERS

Conselho Regional de Medicina RGS – CREMERS

Associação Médica do RGS – AMRIGS

Associação Médica Brasileira – AMB

Viamão – RS

1971 a 2023 – 53 Anos de Medicina

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Autor dos livros:

Crônicas & Agudas

Crônicas & PontiAgudas

Trinity! A Saga continua.

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