A Negra Anastácia e um Viamão esquecido! Parte 2 Final
Nesse redemoinho de memórias afloradas pela brisa do tempo, uma faz gancho com a outra e um véu é descerrado mostrando cenas, imagens, sons, odores e tudo quanto nossos sentidos podem prescrutar e se deliciar. Enquanto o pessoal da zona rural apreciava os pães de padaria, eu gostava dos pães da Tia Anastácia, pois lembrava sempre os da minha avó Adiles e que a Cledi aprendeu e desenvolve com maestria usando aipim, batata doce, milho e mais uma profusão de novas farinhas que se oferecem para nosso regalo nas gôndolas dos supermercados ou nas lojas de “produtos naturais”.
O pão cozido com a massa sovada por mãos hábeis numa mesa de madeira com lanços de farinha enquanto o forno de tijolos vai pegando a temperatura ideal ou talvez no forno do fogão de rabo ou campeiro com o fogo lambendo e devorando com apetite a madeira seca, como velhos moirões de alambrados. O picumã decorando o cano da chaminé e partes do forro olha para o chão de tijolos gastos por pés de gente que faz a vida acontecer e se perpetuar na alma de uma criança.
Crônicas & Agudas!
Muitas semelhanças com o santuário da minha avó Adiles. Um café da tarde era tradição e a criançada sentava-se em torno da mesa troçando uns com os outros, principalmente quem pescou o maior peixe e quem ficou somente com lambaris. Num tempo que vaca era vaca, bebia-se um leite gordo e quente com café preto num grande bule que luzia de tão “ariado”. Havia uns biscoitos grandes de levar na mochila para o banhado nas pescarias. Um mata-fome de verdade.
Nunca a cor da pele separou ou agrediu. Como o Governador Colares dizia: “Vem aqui pro Negrão”! Já descrevi em outras crônicas a vida no “bairro” Mendanha, que hoje seria classificado como quilombo. Infelizmente há um oceano turbulento com monstruosidades furiosas e famintas separando as pessoas, alimentado pelos furacões e tornados da ideologia maligna e da religião que não cria, mas afasta, separa e até mata. “Sempre foi assim!” – você pode estar matutando. Então para que serviu toda a nossa evolução em tantos setores e áreas do conhecimento. Para o médico que é Médico, jamais a cor da pele teve alguma relevância além das enfermidades mais comuns em uma etnia do que em outra.
Crônicas & Agudas!
Essa região do Banhado Grande teve uma imensa mudança quando dragas gigantescas traçaram o caminho novo do Rio Gravataí e os banhados se tornaram campos que se andava de fusca. Época que se desconhecia princípios da natureza/ecologia.
“E o negão Puruca?” – está curioso em saber mais uma desse nosso amigo? Haveria um Grenal decisivo, daqueles de suar sangue e cuspir grama. O Puruca veio para nossa casa para ir com o Seu Aldo ao jogo. Não recordo com certeza se foi nos Eucaliptos (antigo estádio do Colorado) ou no Olímpico. Mas daria na mesma, já que foram para o meio da torcida do Inter. Ali onde os torcedores fanáticos chegam horas antes de abrirem os portões e se instalam com as charangas e a turma da pesada. Ah! Teve que deixar em casa a sua “inseparável” faca. Lá está o Seu Aldo, o Puruca e mais um de pouco paciência. O jogo estava encardido, principalmente para os colorados. Os colorados urravam e a ‘gremistada’ aplaudia.
Conta-se que tinha torcedor mastigando as telas do alambrado e nem a turma do “Segura a bronca/Calma leão/Olha o derrame” acalmava. Eis que numa troca de bola do ataque do Grêmio, o estádio explodiu com o gol do Grêmio. E não foi que o Puruca vibrou junto. Não se conteve. Não conseguiu segurar o berro. Aí fedeu! Uma turma, desses do tipo de guindastes do porto cercaram o Puruca e já partiram para o abraço e a capação. Seu Aldo conseguiu dizer que ele era de outro estado e não conhecia os times daqui e vibrou sem saber. O Puruca – “touro em cancha alheia faz qualquer coisa para salvar as bolas” – gritava: “Sou realista. Gremista não. Só achei bonito!”
2024.11.19 – A Negra Anastácia e um Viamão esquecido! Parte 2 Final – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas!
Jornal Opinião de Viamão









