A Negra e a Cobra! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Setembro 2020. Reedição.

 

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A Negra e a Cobra!

 

                              O caso relatado a seguir pode ser considerado mais uma dessas histórias fantásticas que preenchem os vazios das conversas entre avós e netos. Ou que faz as horas dolentes de noites quentes terem muito mais conteúdo. E que o suor não seja apenas do calor, seja aquele suor frio que fazem, ou já fizeram, as pessoas espiarem os cantos do quarto e, com o coração aos sobressaltos, horrorizar-se com qualquer sombra sob a cama ou a mover-se sorrateiramente.

                                 

                     A vida era muito dura, para todos naquela fazenda. E seus trabalhadores e proprietários traziam no corpo e na alma as suas cicatrizes. Tanto da labuta sem férias ou qualquer descanso, quanto das feridas que teimavam em não cicatrizar pela Revolução de ‘23.  Ali trabalhava e vivia, desde seu nascimento, uma negra de nome Domiciana.

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Domiciana!

 Ao balanço de seus 20 anos, tornara-se uma mulher de poucas e necessárias palavras. Isso desde o trágico acidente que matara seu marido. Contam que durante uma doma, o bagual xucro como o vento pampiano, empinara e caíra de lombo, prensando o cavaleiro debaixo de si. Com a bacia quebrada e hemorragia interna, morrera lentamente com a cabeça no colo daquela mulher. Nunca a viram derramar uma lágrima. Diziam que as lágrimas tinham sido enterradas junto com o finado marido. Mas ele havia depositado em seu jovem ventre a semente daquele amor aquecido nos pelegos, nas noites em que o vento minuano era o milongueiro mais escutado nas revessas daquele pampa hostil e o amor bailava num sapateado naqueles corações apaixonados.

 

Ninguém engomava uma camisa como ela e os beijus que fazia na velha tafona eram inigualáveis.  Também era de suas mãos que saía um churrasco de charque com aipim assado nas brasas do fogo de chão, o prato predileta da Vó Quita, a matriarca da estância. 

clip_image006O Parto!

Ganhara o filho:

Solita, mas com Deus! – completava fazendo o sinal da cruz com os dedos da mão unidos num toque final nos lábios e os olhos virados para algum ponto do céu distante.

 

Partejara no casebre de madeira no meio do laranjal e na revessa das taquareiras. Com o sal da gamela e a água do poço, abençoou e banhou o filho. Assim como sempre escutara da falecida mãe que havia feito consigo. Da mesma forma a sua avó… Uma tradição familiar dessas mulheres acostumadas a lidar com a dor e a solidão. A solidão essa companheira inseparável de corpos e corações.

                   

clip_image007                                 Sebastião!

           O negrinho, forte e vivo, chamou-se Sebastião, em homenagem ao seu pai. Mas logo ganhou o carinhoso apelido de Gorgulho pela esposa e as filhas do estancieiro, onde disputava o colo e a atenção, mais que potrilho de campeão.

                                

                                Domiciana, sempre após o café dos patrões, tomava o seu canecão de café com leite e canela, onde mergulhava sete pregos enferrujados – uma simpatia da Vó Quita – para o leite ficar mais forte. E o Gorgulho estalava os “beicinhos” ao mamar e espremer aqueles formidáveis e túrgidos seios.

 

Por volta do 6º mês de idade, o negrinho parou de ganhar peso e ficou meio “murcho”. Domiciana amanhecia com os peitos quase vazios. De início achavam que estava “secando o leite”. Ela não sabia o porquê, pois ele até:

 

– Mamava de madrugada! – sustentava com olhar espantado.

 

Realmente, escutavam o negrinho chorar e após acalmar-se em certo período da noite.

 

A família estava preocupada. Tentaram benzeduras, chás, simpatias e… Nada uncionava. Só faltava chamar o “doutor do povo”. Certa noite, Domiciana recolheu-se ao seu rancho meio febril.  O patrão ordenou ao peão Crescêncio que a cuidasse, se ouvisse algo que fosse acudi-la.

 

Na madrugada, Gorgulho chorava sem parar. Crescêncio, que já havia dormido com o pala por cobertura, saiu à rua e espiando por uma fresta da janela de correr do casebre, sentiu o seu tarimbado coração quase explodir de pânico.  – “Acordem todo mundo”! Acordou o patrão e foram todos, sob sua orientação, pé ante pé, espiar o que se sucedia.

clip_image008                     

                               A cobra!

                               Uma cena capaz de arrepiar ao mais valente e destemido. A luz bruxuleante e fugidia do candeeiro de querosene fazia o réptil visível agigantar-se nas sombras. Uma cobra. Uma cobra preta. Enorme. Enrolada num canto do travesseiro de palha. A mãe em sono febril. Delirante. O animal mamando na teta da negra agitada. Ao choro do negrinho, a cobra colocava o rabo em sua boca. Ele chupava a cauda parando de chorar. Depois de certo tempo, ao não sair leite, voltava a chorar.

 

Nas sombras malignas, o horror aumentava.

 

Arrombem a porta! – berrou o patrão a plenos pulmões.

 

Invadiram o rancho, matando a cobra. Após, em alarido, a peonada se reuniu na mangueira vendo aquele enorme réptil pendurado nos varais do alambrado. Escorria sangue, pouco e leite, muito, de sua cabeça parcialmente esmagada.

                   

                 Daí, em diante, a saúde voltou para Domiciana e Gorgulho.

 

 

           A lenda. O causo. E o acontecido mais uma estória se tornou. Para muitos, somente uma lenda. Para quem viveu aqueles momentos, uma marca eterna, como a vida e os mistérios da natureza. Ainda hoje está enterrado na figueira secular daquela estância um facão com Gorgulho gravado no chifre da sua empunhadura. A árvore cresceu e abocanhou a lâmina profundamente. Ali está proteger as crianças e suas mães das serpentes.

 

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A negra e a cobra!

Criação original.

Autor – Edson Olimpio Silva de Oliveira

Publicação no Jornal Opinião de Viamão e

na Trilogia Crônicas & Agudas.

 

 

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Mentiras & Falsidades! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 04 Setembro 2018.

 

Mentiras & Falsidades!

“É normal o político mentir, falsear e enrolar os eleitores, pois a política é a arte da mentira que seduz”!

A

ssistimos e pagamos com o nosso trabalho ao festival de mentiras que nos assolam em horário eleitoral e na propaganda que dorme e acorda a boiada (boi dormir?). Sem essa de horário político gratuito, as empresas recebem babilônicas montanhas de dinheiro que chamam de “verbas eleitorais”, na realidade está ali o dinheiro suado do trabalhador que trabalha. O mesmo dinheiro que falta na sua casa, na segurança, na infraestrutura e nos pobres da saúde pública. Os socialistas alegam que se deve “tirar do rico para dar ao pobre”. Ingênuos e idiotas aplaudem. Vejam, por exemplo, quem ganha R$ 1.000,oo por mês. Ao final de um ano, ele vai representar cerca de R$2.500,oo por mês para quem lhe paga, seja a professora-patroa ou a empresa. Então quem está ganhando a diferença de R$1.500,oo? Resposta óbvia: governo, governantes e políticos de todos os naipes e a turma descoberta e punida pela Lava-Jato. Aquela pessoa assalariada poderia e deveria estar ganhando no mínimo R$ 2.000,oo por mês, enquanto o governo devoraria R$500,oo. Estaria melhor, bem melhor ou muito melhor se dobrasse o salário do trabalhador que trabalha? Quem está perdendo dinheiro, sendo sangrado, carneado a frio e sem anestesia é o empregador ou o empregado? O empregador paga igual, agora é o dinheiro do trabalhador que trabalha (e não é o rico!) que é abocanhado, que deixa de ir para seu bolso e para sua família e que sustenta criminosos, assassinos e estupradores, além de toda a sanha de vagabundos e privilegiados. Você acredita que esse dinheiro que você não está recebendo do seu empregador voltará algum dia para você ou em algum benefício?

Crônicas & Agudas

“O fulano não gosta de negros. O sicrano não gosta de homossexuais. O beltrano não gosta disso e daquilo. O outro é fascista”.

A situação está tão caótica que não basta para certos socialistas armados de foices e de martelos para o combate que o cidadão respeite, somente respeite, quem é diferente de seus conceitos, princípios, formação moral e religiosa. Para eles não basta. Respeitar é insuficiente e o cidadão será rotulado e taxado de alguma obscenidade, pois querem que haja apoio irrestrito de corpo e alma. Total apoio e marchar colados. Fazer proselitismo com denodo e fé. É a sociedade malignamente dividida entre “nós e eles”. “Se não está conosco, está contra nós” – levantam a foice radical. O cidadão pode ser Colorado ou Gremista e tratar com respeito outras afinidades. Ou não querer ser de um ou de outro. Ou de nenhum! É a sua liberdade, a sagrada liberdade que só viceja, cresce, frutifica na democracia, jamais numa Venezuela, numa Cuba ou numa Coréia do Norte.

Cr & Ag

O advogado criminalista terá o recurso de alegar insanidade temporária ou permanente para seu cliente assassino, estuprador, pedófilo ou criminoso cruel e assim abrandar sua pena. Mesmo que todas as evidências demonstrem o crime, o criminoso poderá sempre alegar a sua inocência. O político e o homem público criminoso, ladrão, corrupto ou qualquer outro enquadramento legal, geralmente alega “a mais pura e cristalina inocência” e “vítima de alguma perseguição”. Ainda é comum “não saber de absolutamente nada” e ter todas as “contas aprovadas pela justiça eleitoral”. Aqueles que não fazem um “acordo” com a justiça para relaxar a punição e devolver os milhões e bilhões roubados, assim assumindo seus crimes, alegarão “inocência” e muitos estarão aí na TV prometendo-mentindo com a certeza de que sentado olhando estará um idiota de 1 a 10 ou o crédulo absoluto com logaritmo e fórmula de baskara que justifique e apoie com seu voto ou pelo menos com a sua dúvida. Lamentável!

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Adereços & Roupagens! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 28 Agosto 2018.

 

Adereços & Roupagens!

A

 natureza dá a roupagem com cores e ornamentos que nos encantam e causam espanto. Assim se distinguem espécies e dentro de cada variedade também os machos e as fêmeas. Desde os tempos primitivos os homens, incluem-se as mulheres, buscam embelezar-se com pinturas, pedras e toda a sorte de objetos colhidos na natureza ou produzidos com essa finalidade. Finalidade? Além de ser tornar mais belo e atraente, todos buscar chamar a atenção e cativar o sexo oposto (hoje seria o sexo proposto?). Muda a ornamentação de região para região e de época para época. Aquilo que a criatura se acha mais cativante ou mais bela, pode significar e muitas vezes significa uma anomalia, um absurdo e um despropósito para outra pessoa. Crê-se que o sentido humano mais inicial, primordial, seja o olfato. Aí está todo um arsenal de perfumes e infinitos aromas para amainar a higiene escassa ou para ativar feromônios.

Crônicas & Agudas

Uma moça tão bonita e arruinou o rosto com aquele monte de argolas – nariz, sobrancelha, lábio e orelhas! – Comentava uma jovem senhora. Os conceitos e propósitos de beleza são muito pessoais e tribais, do grupo onde a criatura vive. Talvez o esmalte das suas unhas e o belo batom de seus lábios possa causar diferença para outrem. Além dos riscos de doenças infecciosas (HIV, sífilis, hepatite, etc) aquela ornamentação da face trará mutilações e sequelas para uma vida futura em que os gostos serão talvez desgostos. Os lobos das orelhas vazados por argolas tamanho de uma moeda não terão o formato ou as características anteriores. Os padrões de normalidade e beleza são cada vez mais discutíveis e mutáveis.

Cr & Ag

E as tatuagens? Há uns vinte anos assisti a explosão de tatuadores e rabiscadores corporais nos encontros de motocicletas. Até por essa época, a tatuagem era algo marginal, insinuado nas populações portuárias ou presidiárias e os tatuados ocupavam espaço de “avis raras” sendo curtidos ou criticados. Generalizou. Como não tenho nenhuma tatuagem depois de tanto tempo no lombo de uma moto sou uma exceção talvez. Observa-se uma compulsão depois da primeira tatuagem. Dizia-me um amigo que é algo como a síndrome do pichador corporal. Novamente os riscos de doenças pela manipulação vencendo as barreiras do corpo e a maioria esquece da contaminação das tintas por agentes infecciosos e metais pesados, no mínimo.

Cr & Ag

E as roupas? Há roupas e trapos. Muitos trapos. “Olhem como eu sou uma pessoa simples e não ostento”! – Alegou uma boneca global em rede pouco social. Realmente um jeans de mais de mil reais todo rasgado e com cor de burro quando foge não é (?) ostentação. A enfermidade social do populismo caviar se expande não somente na política rasteira e rapinante como nos mais abonados. Já foi belo e legal a pessoa ter uma roupa melhor para ir à missa, a um evento como aniversário ou formatura, talvez um baile. Havia até a “roupa de morrer” que era a melhor roupa e guardada para ser sepultado com ela. A criatura estaria melhor apresentável para São Pedro. Observe que há mendigos que se vestem melhor e com mais dignidade do que os falsos, pseudos-simples e humildes.

Energias negativas, auras opressivas e atrações de entidades das sombras permeiam, atraem-se por roupas e ornamentos despropositados no estágio civilizatório das pessoas”. Acredite, aceite ou não, mas filosofias e entendimentos espiritualizados versam sobre o efeito para-raios (somente atrai coisas ruins) nos extremos ou nos abusos que são cometidos. Seria o “chamou, levou”?

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Amigos de Crônicas & Agudas! 09 Agosto 2018.

 

Gabriel Lisboa - APSEN - 2018-08-09

GABRIEL LISBOA – REPRESENTANTE APSEN

Gabriel Lisboa e Juliana Virginio - 2018-08-09

GABRIEL LISBOA E JULIANA VIRGINIO

Juliana Virginio - MOMENTA - 2018-08-09

JULIANA VIRGINIO – REPRESENTANTE MOMENTA

Estarei envelhecendo? Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 26.

 

 

 

ESTAREI  ENVELHECENDO?

 

 

                       Diante do retumbante a avassalador sucesso de uma pesquisa realizada entre motociclistas e seres afins, vamos apresentá-la ao intrépido leitor.

 

  1. Você já fez seu exame de próstata este ano?
  2. Sua esposa chama-o de “pai” ou “meu velho” em vez de “querido – meu bem”?
  3. Os temas sobre Viagra ou medicamentos semelhantes lhe interessam?
  4. Você está usando a camisa preferencialmente por fora das calças?
  5. Você está na fase em que “trabalho não dá prazer e prazer dá trabalho”?
  6. Você já trocou a cancha ou o campo de futebol pela arquibancada? Moto por triciclo?
  7. Você acha que noites em clubes de serviço, associações ou a política são melhores que sexo?
  8. “Loira suada” é quase que somente uma cerveja gelada?
  9. Sua esposa usa ironicamente a expressão que você “é um avião na cama”?
  10. Você escuta com freqüência a expressão “saí um troquinho aí tio”?
  11. Você trata as garotas como “minha filha”?
  12. Você se sente atraído para ler o obituário dos jornais?
  13. Você costuma usar as expressões “no meu tempo ou eu fazia assim”?
  14. Você gosta de contar estórias de seu “passado glorioso”?
  15. Você quando chega ao motel se preocupa em saber os equipamentos disponíveis, tipo frigobar, etc?
  16. Você nega que a dor nas juntas seja reumatismo, explica ser “um menisco rompido”?
  17. Você está gastando mais com Grecin do que com corte de cabelo?
  18. Você sempre explica que a calvície é “coisa de família e meu irmão com 18 anos está com menos cabelo que eu”?
  19. Na praia, em vez da sunga você prefere os largos e imensos calções?
  20. Em época de Natal, “saco murcho” significa algo mais que o Papai Noel em crise?
  21. Após uma noite de festa você precisa de vários dias para se recuperar?
  22. Ao viajar você tem que carregar uma bolsa com remédios?
  23. Quando lhe perguntam como foi sua primeira relação sexual e você não consegue lembrar nem da última?
  24.  O braço está curto para você ler esta crônica?
  25. Colesterol, pressão alta, impotência sexual (disfunção erétil) são problemas dos outros?
  26. Motocicleta esportiva é “coisa de garoto”?

 

Caro amigo leitor, até 10 respostas SIM, você ainda é um impávido jovem. De 11 a 18 respostas SIM, você com certeza está envelhecendo. Com mais de 19 respostas SIM, não se preocupe, a terceira idade é fase da vida em que o homem amadurece e cresce espiritualmente (outras coisas não se elevam mais), tem-se bons geriatras e “ser idoso é somente coisa do corpo” pois a “alma jamais envelhece” e com toda certeza hoje você se “sente melhor do que quando tinha 25 anos” e esses “guris novos não sabem dar o prazer que um homem experiente sabe dar para as mulheres” e “de mais a mais é dos carecas que elas gostam mais”. Assim como ser VOVÔ é somente porque você foi pai muito cedo.

 

 

Republicada em 16 Julho 2018.

Crônicas & Agudas

Moto! Paixão Eterna

Crônica 26

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 Moto - Paixão Eterna - 26 - 2017 - Motoencontros

Toninho Bola Curta! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. 04 Julho 2018.

 

 

“SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU”.

 

 

TONINHO BOLA CURTA!

 

 

Acredito que malandro, mas malandro mesmo é o parafuso, já que é o único a nascer de cabelo repartido ao meio e de camiseta listrada. No motociclismo tem umas criaturas que nem é preciso conhecer mais de perto para sentir que tem algum parafuso especial. Ou sobrando. Ou até faltando. E o Toninho é uma dessas criaturas fantásticas. A sua vida é um filme de Spielberg. Já foi um pouco de tudo e quase nada de qualquer coisa. Mas é muito boa gente. É um cara impossível de se conviver permanentemente, daí a sua troca constante de mulheres, motos, triciclos e de grupos. Também é impossível brigar com ele, por mais brabo que alguém esteja sempre acaba em escancaradas risadas e boas cervejas ou refris.

 

Mas como você já está curioso pelo significado do apelido, vamos explicar. Geralmente o cara “bola curta” é assim chamado porque é um mau jogador de futebol, como aqueles que o Internacional contrata e vem fazer turismo em Porto Alegre. Essas são outras bolas. Os problemas do Toninho eram suas outras bolas. Os testículos. Quando estava naquela fase de idade em que o garoto quer abandonar a meninice e ainda engatinha na adolescência, os hormônios estão em alto giro, em que os garotos fazem torneios masturbatórios, em que alguns excedem até a fraqueza imperar e outros criam cabelos nas mãos, o Toninho reparou, apercebeu-se que tinha somente um testículo no escroto.

 

O outro testículo estava na virilha, não havia descido completamente. Depois do pânico inicial, veio a cirurgia corretiva e a cura. Mas tinha que explicar para todo mundo que teve um problema de “bola curta”: — Mas agora tá tudo legal.  – dizia.

 

E essa foi a sua fase de iniciação sexual e de iniciação sobre rodas. Do triciclo passou para a bicicleta de quatro rodas, logo retirando as rodinhas acessórias. Teve a fase do patinete e do carrinho de lomba. Várias bicicletas passaram até que certo dia veio experimentar uma moto. Aí seu coração ficou cativado. Definitivamente. Sonhos em profusão intercalavam-se com longas noites acordadas traçando planos de como adquirir a sua. E tudo isso foi por andar na carona de um pretendente a cunhado. O cara queria fazer uma amizade com o Toninho para tentar ‘ganhar’ sua irmã. Mas essa já é outra história.

 

E a primeira moto foi uma Honda Turuna. Isto é, os papéis diziam ser uma Turuna. Sabem quando os ferros-velhos adquirem os refugos do Detram. Pois foi assim, a primeira moto que foi trocada por uma guitarra. Juntou a coisa na caçamba da camionete do Tuca do Ó e depositou num galinheiro desativado nos fundos do quintal da namorada, a Verinha Signal – que sorriso! Boca 1001!). E ali foi remontando a fera, como a chamava:

 

 – Essa fera tem espírito cara, ela até conversa comigo, esse dias eu tava passando uma flanela no guidon e ela escapou um jato de óleo na minha perna.

 

Parece que agora o homem não dormia mais. A qualquer hora da madrugada, escutavam a sua voz conversando com a “Fera Ferida”, assim batizada com um banho de cerveja gelada, e a luz sempre acesa. Até a Verinha Signal já estava com ciúme do ‘love’. Certo dia, o Toninho Bola Curta chegou com um banco novinho, lustroso, cintilante, ganho numa cancha de jogo do osso.

 

 – Verinha, minha gata, aqui está o sofá que em que vamos embalar o nosso amor. E não deu outra. Dali em diante, ela lhe entregava o salário inteirinho para concluir a reforma da Fera Ferida. A reforma avançava: chicote elétrico, carburador emprestado, um tanque recuperado recebeu uma pintura personalizada, um farol de CB400 (precisaria de luz boa à noite), bateria nova. Nova mesmo! Foi um presente de noivado da sogra e dos vizinhos. A velha que já estava louca de vontade que ele terminasse o conserto da moto e desencalhasse a Verinha.  E dos vizinhos que perdiam o sono com o motor da Fera Ferida sendo afinado. E dos gemidos esganiçados de amor da Verinha Signal.

 

Os amigos colaboravam. Uma corrente estava formada. Toda a região aguardava o grande dia. Tinha até político faturando nas reuniões. O grande dia chegou. Criançada correndo. A turma do pagode. A turma do futebol. Os companheiros do Quase Fumo Motoclube. E do motoclube rival – o Fumo & Vortemo MC. Foguetes. Buzinas e sirenas abertas. O Toninho estreava um capacete tipo pinico de nazista e a Verinha com um capacete fechado, pois a dentadura nova tinha atrasado no protético. Pose para foto. De novo apareceu político para a foto. Trepou novamente na Fera Ferida. Deu uma batida com o coturno de pára-quedista no areião. Puxou o afogador, de leve para não afogar. E deu a primeira pedalada. A segunda. Terceira e quarta. Nada. ‘Um puta que pariu’ escutou-se no silêncio. Ajeitou o pedal com a mão procurando achar o melhor ponto. Preparou o coturno e mandou ver. A fera tossiu, arrotou, espirrou, deu algumas engasgadas e após fechar o punho a lenta equalizou. Era só o toc-toc-toc daquele coração renovado. A platéia aplaudia e urrava. Testou o farol: luz alta, luz baixa, tudo OK. Piscas: direita, esquerda, OK. Luz de freio: OK. Buzina, uma Fiann de três cornetas: OK. A plebe pedia: — Anda! Anda! Anda! A turma da Loira Suada Motoclube pedia: Experimenta! Experimenta! Experimenta!

 

Chamou a Verinha para a garupa. Aconchegado pelas duas amadas, puxou o manete da embreagem, com o coturno cravou uma primeira. Acelerava para a turma sentir o berro do escapamento da Fera Ferida. Então soltou a embreagem. A desgraça. Deveria ter feito esse teste antes. A Fera Ferida deu um salto. Só que um salto para trás. Por mais incrível que possa parecer, aconteceu e aquele povão estava de testemunha, a moto veio em marcha à ré. Até atropelou um pastor que ali dava a bênção. O resto nem preciso lhes contar, vocês podem imaginar.

 

E o Toninho? Pessoal, o golpe foi tamanho que ainda está se recuperando do choque. Quase ficou o Toninho Sem…

 

Crônica 25 – Série: Moto! Paixão Eterna

Republicada 04 Julho 2018.

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 Moto - Paixão Eterna - 25 - 2017 - 1a moto Transamazônica

Quanto custa essa moto? – Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Moto! Paixão Eterna. Série 24.

 

 

 

QUANTO CUSTA ESSA MOTO?

 

É sempre bom lembrar que para uns e outros há uma importante diferença entre motoqueiro e motociclista. Motoqueiro é o tipo pejorativo, que pilota comprometendo a sua segurança e dos outros. Motociclista é o sujeito que pilotando motocicleta respeita as leis, os companheiros de adversidade (pilotos e motoristas que padecem nas estradas e ruas brasileiras) e principalmente a si mesmo. Não é questão de tamanho de moto ou o seu preço. O indivíduo pode estar pilotando uma moto de oitenta mil reais e ser um motoqueiro e ao contrário, sendo um motoboy numa 125cc e ser um motociclista. Essa é uma lembrança que para o leigo ou “não-iniciado” pode ser importante para puxar assunto com um piloto de motocicleta. Alguns podem se ofender. Tem gente com escamas demais. Outros de menos. Acredito que todos nós já fomos motoqueiros em algum tempo. Seria como a fase anal ou oral. Ou mais simples ainda – o jardim de infância do motociclismo. A tendência é evoluir sublimando características.

 

O sujeito viajar de carro é muito diferente de viajar de moto. O carro está automaticamente de isolando do mundo. No carro tu vês a natureza. Na motocicleta tu fazes parte da natureza. A liberdade explode no motociclismo. Principalmente no turismo de motocicleta. Mas a visão se turva pelas regras da sociedade em separar as pessoas pelo poder aquisitivo. Quando viajava em motocicleta de média ou pequena cilindrada, principalmente em dias de chuva ou com muito frio, as pessoas no interior dos automóveis aquecidos nos olhavam com ar de compaixão. Sempre que paramos em postos de gasolina ou restaurantes a margem de estradas, pessoas olham aquele casal com a moto coberta de bagagem e vem alguém conversar: donde estão vindo? Para onde vão? São de que cidade? Viamão? Onde fica isso? Não é perigoso? Eu jamais andaria de moto assim? Cruz credo! Com esse tempo viajar de moto? O que, 3500 km? Estão doidos! Aí adiante teve um acidente que morreu dois motoqueiros debaixo de uma jamanta de Uberlândia? Vocês trabalham em que? Por que não viajam de carro, é promessa vir aqui em Aparecida?

 

E assim vai. A situação melhora quando observam o grisalho de meus cabelos. Melhora mais ainda quando tu dizes a tua profissão, em nosso caso que sou médico e cirurgião e minha esposa é cirurgiã-dentista. Aí outros assuntos surgem. Novas portas se abrem, pois a tendência de muitos é ver o motociclista como um marginal. Aí encontram alguém que faz do motociclismo um grande amor a ser compartilhado. Simpatias afloram e com freqüência traçam-se paralelos e encontra-se algum tipo de vínculo ou conhecimento mútuo.

 

É inevitável uma série de perguntas sobre a viagem e principalmente sobre a moto. Atualmente a nossa companheira é uma Kawasaki Vulcam Nomad 1500 cc, carinhosamente chamada de Morgana, um misto de fada-deusa-feiticeira. A sua cor verde perolizada é altamente chamativa. Seu porte avantajado com bancos que são verdadeiras poltronas, suas malas acopladas, remetem a um mundo de sonhos. Mas vem sempre a indefectível pergunta: — quanto custa essa moto? Até para quem sente o ego inflar em mostrar seu “poder econômico”, pode ser um bom momento. Mas não é assim para nós e a maioria dos motociclistas. Dinheiro é importante, mas o espírito é muito mais. E motociclismo é um estado de espírito. E se hoje temos o merecimento de pilotar essa máquina fantástica, lembramo-nos de primeira Honda ML 125 1980 e todas as outras que se sucederam. Assim como dos anos em que ficamos sem moto por problemas ou dificuldades outras. Mas sempre persistindo no desejo e no amor.

 

A resposta que tenho oferecido é a seguinte: quanto custa um sonho? Quanto custa uma paixão? Quanto custa um amor? Quanto custa a liberdade? Quanto custa estar rodando por uma estrada sentindo os odores em profusão? Quanto custa o frescor de uma manhã em que acordas e voas com os pássaros? Quanto custa ter a mulher amada em tua garupa abraçada compartilhando a vida? Quanto custa estar aqui conversando com novas pessoas, como tu ou vocês, que se não fosse pela moto talvez jamais se aproximariam? E assim vamos… Se a criatura não desiste do intento e insiste em saber o valor somente, então dizemos aquilo que ele espera ouvir. Ah, em dólar!

 

 

 

2018 – 30 maio.

Republicação para Site e Facebook.

Moto! Paixão Eterna

Série – 24

Moto - Paixão Eterna - 24 - 2017 - Robert Edison Fulton Jr

Perfeccionismo & o Diabo e o Nariz do Filho! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Eterna 22.

 

Perfeccionismo

&

o Diabo e o Nariz do Filho!

 

                        Existem criaturas tão meticulosas naquilo que fazem que nos causam preocupação. Um amigo de um amigo meu cultiva um bigode, isto é, um projeto de bigode já que ele pertence a um grupo de homens em que os cabelos escassos tentam encontrar os cabelos inexistentes. Disse que nunca seria cliente do fantástico Panca, o barbeiro, porque ele não tem bigode e logo não saberia cuidar do seu. Os fios são aparados com régua milimétrica e tem o mesmo número de cada lado.

 

Tenho um outro amigo motociclista que quando se dispõe a lavar a moto é como se acontecesse o juízo final. Tem que se apresentar o mais limpo e puro possível. E ele se dispõe freqüentemente porque ninguém lava como ele.

 

— E ainda esses lavadores são todos descuidados, jogam água dentro do escapamento e no carburador, passam pano sujo, sentam no banco e outras promiscuidades. – dizia. Imaginem alguém limpando uma moto de cotonetes, pois então estão vendo o homem. Se alguém achar uma molécula de poeira, ganha a escolher: uma cesta básica ou um Chevette ’76.

 

 

                        Mas contam os iniciados que na aurora dos tempos, isto é, no começo do mundo, o diabo também morava no paraíso. E ainda não havia as brigas com o Criador. O mundo era mais pacato e harmônico, pois a Eva ainda não era nem projeto. Continuando, o diabo, certo dia, estava na varanda de sua mansão infernal tomando um bom chimarrão com erva mate sem agrotóxico e conversando em alegre bate-papo com outros diabos.  A criançada, digo, os diabinhos estavam brincando: uns de triciclo, outros de faz-de-conta sendo políticos no Brasil, outros de pivetes, outros ainda como diabos-de-guarda de políticos, etc.

 

Então que o diabo velho-chefe observou o nariz de seu filho predileto. E não achou um nariz condizente com a importância e a origem do diabinho. Determinou a um cupincha que levasse o nariz e o filho para o hospital e o internasse. Mesmo com a crise infernal do hospital com emergência lotada, SUS, macas nos corredores e falta de dotação orçamentária, convênios caloteiros, o prestígio e autoridade do chefe prevaleceram e o menino foi internado numa suíte presidencial. Convocou um anestesista demoníaco e como não confiasse nos cirurgiões-diabos-plásticos infernais, resolveu ele mesmo operar.

 

Planejou no computador todos os traços que julgava perfeitos para o dileto rebento. E se bancou a operar. Foi a primeira cirurgia plástica da história. A segunda foi o esquema da costela do Adão que foi transformada em mulher e que ainda tem gente até hoje tentando repetir o feito… E o diabo continuava operando. Era bisturi para tudo que era lado. Até transfusão de sangue. Volta e meia ele parava e observava a sua obra e ainda insatisfeito com o resultado, reiniciava tudo de novo. A platéia observava sem expressar qualquer desaprovação, ao contrário, eram palmas e foguetes. Apesar de todos, até os cegos, verem que o resultado era cada vez pior, a luta, digo, a cirurgia continuava. E quanto mais mexia, pior ficava. E assim foi… Pior?

 

E que isso tenha serventia para todos nós.

 

 

                        E assim temos companheiros motociclistas que fazem verdadeiras cirurgias plásticas em suas motos. Alguns são verdadeiros artistas. Mas como o conceito de beleza é algo muito pessoal, o resultado das suas operações pode causar risos e constrangimentos. Tem irmão de custon que pilota verdadeira árvore de Natal. Outros, geralmente jaspion ou speed, pintam suas rodas com as cores mais infernais. O pessoal das 250 às 500cc monta rabetas, aerofólios e “pinturas especiais”.

 

 

                          A Emoção é uma ditadora implacável em nossas vidas, deixando sua irmã Razão, geralmente, na poeira da estrada. (T.J.)                  

Moto - Paixão Eterna - 22 - 2017 - Egito

O Gênio Inventor! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 21 – abril 2018.

 

           

"SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU".

 

 

 

O GÊNIO INVENTOR.

           

                                              

                                              Existiu em Viamão City um misto de motociclista e gênio. Leonardo da Vinci perto dele seria um aprendiz. Foi forjado a sangue, suor e graxa. Discípulo dos famosos mecânicos Pazzetto e Paulinho da Vimoto. Virava noites descobrindo os segredos desta namorada única, a MOTO.

 

  Foi campeão de moto-velocidade em Tarumã. O melhor piloto da região metropolitana da Grande Viamão, território compreendido entre Chuí-Vacaria-Pinhal-Uruguaiana. Criador da 1ª moto com aerofólio e suspensão tri-amortecida, com três garfos, além do garfo da mochila. Certa feita, só não participou da Procissão de Navegantes por implicância e perseguição dos Bombeiros que não permitiram sua MOTO-ANFÍBIA… Mas tudo isso fica para outra vez.

 

Ah! O nome da figura? É conhecido pelo apelido de COLHUDO NOVO. Seu pai é o…  VELHO. Gaúcho de quatro costados. Então o NOVO terminou de preparar um híbrido, um mutante. Uma moto transgênica. Um misto de XLX 350+Intruder 1400+Zanella. Por sinal, a Zanelona foi presente do Zavarize, recuerdos da sua juventude, e a Intruder uma doação do Linhares.

 

A motona estava linda que nem ceva gelada em dia quente, admirava o pessoal no Bar Point. E o COLHUDO NOVO trepou nela com vontade e saiu rasgando com todo gás aberto. Desceu o Fiúza, enveredou pelo Passo da Areia e fez uma primeira parada no Bailão do Valdeci onde se abasteceu. Explico: abasteceu-se com três loiras suadas. E deitou o cabelo de novo. Capacete só usava como ferramenta de trabalho em baile de chope – CANECO. Depois de muito passear e namorar no Lami e em Itapuã, viu a noite chegando. Resolveu voltar para Viamão City cortando caminho pelos campos da Varzinha. E vinha frouxo como rédea de cavalo de circo várzea à fora numa noite linda, de lua cheia e céu estrelado. Dessas noites de correr égua nas coxilhas e desentocar rinchão a pauladas. De repente, a INTRUXLXELA 1850 1/4 começou a tossir, arrotar, espirrar, engasgando e se traqueando toda. E o motorzão apagou de vez.

 

 

Abasteceu o seu tanque de cerveja e esqueceu a gasolina da moto. Abriu torneira reserva, mas a gasolina durou pouco. E aí? No meio do campo, de noite! Olhou para os lados e viu uma luzinha fraca do tambo de leite do compadre Abreu.                                                                 Deixou a moto e foi a pé. Lá chegando, bem recebido, encontrou o Abreu ordenhando as vacas. A Rural Willys sem uma gota de gasolina, o trator sem óleo e os candeeiros quase sem querosene. O que fazer? Como era homem cumpridor dos tratos, pegou emprestado um tarro com uns 20 litros de leite e levou à moto. Desceu a sacola de ferramentas que sempre carrega consigo e começou a trabalhar na máquina. Nem precisava de luz de tão clara que estava a noite. Depois de mais ou menos 3 h, derramou o leite no tanque e… Bateu pedal. Nada!

 

 

Sangrou o carburador. Outra regulada e uma prece para São Cristóvão, homem de fé, ex-coroinha do Padre Bernardo Machado. Bateu pedal a fusel e a bichona estremeceu, rugiu e pegou. O motorzão não estava muito redondo, pois faltavam umas ferramentas especiais. Montou e saiu contente várzea a fora. Depois de alguns quilômetros notou um ruído estranho, esquisito mesmo: schepp . . . schleppp. . . schleeppp. Como a noite era muito enluarada, pensou primeiro em assombração. Fantasma. Gaúcho corajoso não se intimidou.

 

Olhando para os lados, viu atrás de si um rastro no caminho da motona. Um risco amarelado brilhando na grama escura e refletindo-se no luar. Parou. Pensou consigo e disse em voz alta: — mas tem que ser. Passou o dedo naquela coisa que saía pelo escapamento e riscava a grama. Levou o dedo à boca: — MANTEIGA! MANTEIGA!

 

Ainda disse que o gosto não era todo normal, pois se misturou com restos de gasolina. Aproveitou enchendo um saco plástico para vender no Bar do Napoleão…

 

Acredite, se quiser!

 

 

 

Crônica 21 – Reeditada em Abril 2018 na Série: Moto! Paixão Eterna.

www.edsonolimpio.com.br

Moto - Paixão Eterna - 21 - 2017 - Sibéria

O Acidente! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Total. Crônica 19. 29 março 2018

 

 

Saibam todos que lerem estas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas motocicletas que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do céu!

 

 

 

O Acidente!

 

Há muito tempo, as minhas viagens têm uma característica especial: a chuva. O tempo pode estar bom com o céu sem nenhuma nuvem, mas no dia marcado para sairmos a indefectível acompanhante ali está de plantão – a chuva. Estou me tornando um especialista em turismo motociclístico com chuva. É chuva de tudo que é jeito e feitio. Acredito que só falta o granizo de meio quilo. Vamos bater na madeira (molhada da chuva). Quando na ida temos uma chuva torrencial, muitas vezes temos sorte no retorno, a chuva é mais leve, light, soft. Como se diz em Viamão: — chuvinha de fazer lordo (parafraseando, lodo=barro, lama com lordo=bunda, poupança, na terminologia viamonense).

 

 Tempo carrancudo. Fechado mesmo. Muito mal encarado. Até parecendo militante do MST-MC (1). A BR 101 tal e quais enormes cobras negras deslizando em sentidos opostos, carregando em seu dorso uma infinidade de caminhões. Jamantas, carretas imensas e carregadas. E entre elas, disputando o pequeno espaço restante estavam os automóveis, camionetas e, por incrível que possa parecer, as motocicletas. As nossas motos.

 

A minha moto chama-se Morgana VII(2). Após a praia de Camboriú a chuva resolveu compensar a sua falta no Nordeste. Era muita água. Os caminhões levantando um spray de óleo-água-barro tornavam as viseiras dos capacetes borradas. O dedo indicador esquerdo serve de limpador de viseira. Dentro dos carros, as pessoas assistiam estarrecidas, abismadas, como casais de motocicleta estavam enfrentando aquele tempo e naquela estrada. Mas de moto não se deve parar, deve-se tocar para vencer o clima ruim. Logo virá estrada melhor. Assim esperamos. Assim se pilota, diminui a velocidade e aumenta a adrenalina e os cuidados. As motos iam superando os demais veículos, principalmente serra acima. Serra abaixo, os veículos pesados até nos ultrapassavam. Infelizmente, a rotina da 101 começou a aparecer: acidente. Uma imensa carreta Volvo não conseguindo vencer uma curva em descida, encontrou um barranco salvador. Sim o barraco segurou o impacto da carga tombada antes de um precipício que a névoa com chuva impedia de enxergar-se o fundo. Talvez nem fundo tivesse! Ali já estava a Polícia Rodoviária. Cones listrados desviando o trânsito para meia pista. Estrada esgoelada. A tensão e a atenção devem redobrar em acidentes.

 

Nossas motos se alternavam em diagonal. Distância segura. Tocada firme. Os companheiros de trás sinalizavam e abriam espaço para uma carreta em velocidade alucinante. Ao passar por nós, jogou uma ducha de água e a cauda nevoenta marcou o seu rastro. A estrada fazia um “S” duplo. Entre nós e a carreta somente a estrada e a chuva. Atrás, mais e mais caminhões. Subitamente, a carreta começou a atravessar-se na estrada. Como uma contorção. Como se uma cólica entortasse seu aço. Não acreditei no que estava vendo. Parecia em câmara lenta.

 

O cavalo (3) riscava seus pára-choques no divisor de pistas em concreto. Faíscas saltavam como relâmpagos. Pedaços de fibra de vidro ou plástico voavam. A carroceria adiantou-se ao cavalo e a carga de bananas saltava como milhos de pipocas em banha fervente. Os cachos explodiam no asfalto molhado. Freios acionados de modo a não deslizar ou travar violentamente as rodas da moto, equilibrando a força entre o pé direito e a mão direita (4). Rápida olhada nos retrovisores e a outra moto devia estar fazendo o mesmo. Mas outro terror se avizinhava, os faróis dos caminhões cresciam rapidamente atrás de nós. Com certeza estavam com as mesmas dificuldades. Poderíamos ficar encaixotados, imprensados. 

 

Com o cavalo arrastando-se no concreto das divisórias de pistas, logo capotou. A fera, a carreta, ainda deslizava se fragmentando e à sua carga. Desviamos de alguns cachos de banana. Só Deus sabe como! Súbito abriu-se uma fresta, uma brecha, um espaço entre a ferragem acidentada e o concreto. A decisão única a ser tomada: tínhamos que passar ali. Se não tentássemos, o risco seria ficar compactado entre os caminhões. Aceleramos. Fechamos o punho (5) direito e as motos, como se entendessem o mortal perigo, responderam com energia e firmeza. Passando pelo portal foi como se nascêssemos novamente por uma vagina disforme e mortal. Cerca de cem metros adiante, paramos. Ainda se escutava o impacto de ferro contra ferro. Aço contra aço. E pessoas dentro das ferragens retorcidas. Tremíamos, ríamos, chorávamos e agradecíamos aos anjos-de-guarda pela proteção. Os coitados dos anjos deviam estar depenados e sem asas a estas horas. Retornamos a pé para prestar ajuda…

 

 

Telefone tocando. Era a portaria do hotel nos acordando conforme solicitado na noite anterior. Pijama encharcado de suor. Lençóis molhados de profusa sudorese. Corpo todo dolorido como se tivesse sido espancado. A esposa preocupada em saber que tipo de pesadelo tinha passado. Dizia que tentara me acordar e que eu parecia dentro de um transe. Respondi-lhe que não lembrava de nada. Evitei contar-lhe. Os companheiros estavam preocupados durante o café. A chuva continuava torrencial e teríamos que subir a BR 101 para São Paulo. Fiz uma prece silenciosa ao Mestre e pedi a sua proteção.

 

A estrada e a chuva… Sabes? Tu passares por trechos de estrada e lugares e teres a nítida sensação de ter estado ali? Tamanhos e cores de caminhões? Tinha até a carreta de bananas que passou por nós, em sonho, serra abaixo na curva em esse… Serra com pilotagem em dificuldade extrema, mas chegamos bem. Muito bem. E a felicidade do sonho ou pesadelo não ter sua concretização no mundo real. Será que foram as preces? Mensagem?

 

 

 

 

(1) MST-MC – Motociclistas Sem Tesão Motoclube.

(2) Muitos motociclistas colocam nomes em suas máquinas fantásticas.

(3) Parte da cabina e do motor que traciona a carga.

(4) A motocicleta freia com a mão (roda dianteira) e o pé direitos (roda traseira) simultaneamente e equilibrando o esforço para evitar o travamento brusco e a queda.

(5) O acelerador da motocicleta é no punho direito, fazendo a rotação.

Moto - Paixão Eterna - 19 - 2017 - Atacama

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